Cultura
Como se ela não estivesse lá
Anna Funder investiga, com lupa, o processo de apagamento de Eileen O’Shaughnessy, mulher de George Orwell
O título, A Vida Invisível da Sra. Orwell, é eloquente e, ao mesmo tempo, paradoxal: ele desvela essa “vida invisível”, mas nos mantém no fechamento dessa identidade postiça de Eileen O’Shaughnessy, a “Sra. Orwell”.
O objetivo da escritora australiana Anna Funder parece ser tanto o da denúncia quanto o da ironia. “Ela não se encontra realmente nas biografias”, escreve no início de sua investigação sobre a primeira esposa de George Orwell, morta em 1945, aos 39 anos, durante uma cirurgia no útero.
E se isso acontece, aposta, é porque “os biógrafos de Orwell são sete homens olhando um homem”.
O livro se organiza em três níveis, apresentados de forma intercalada, não sucessiva. Há, em primeiro lugar, a leitura crítica das sete biografias de George Orwell (1903–1950) publicadas entre 1970 e 2003 e de parte da própria obra do escritor. Em segundo lugar, vem a extração de Eileen – cuja presença é frequentemente subentendida ou ignorada – desses blocos biográficos homogêneos. Em terceiro, a reelaboração dessa figura do passado dentro de uma reflexão que ocorre no presente.
Funder descreve sua investigação na primeira pessoa e boa parte da singularidade do livro está no modo como articula essas três dimensões: é o caráter não neutro de seu ponto de vista que dá solidez às reflexões sobre grandes temas – entre eles, a dimensão ética do gênero biográfico e os efeitos da lógica patriarcal na sociedade.
Eileen O’Shaughnessy estudou letras e filologia por três anos em Oxford, onde foi orientada por J. R. R. Tolkien. Em Londres, a partir de 1934, fez uma pós-graduação em psicologia. Precisamente nesse ano ela publicou o poema Fim do Século, 1984, que será a semente do romance mais famoso de seu futuro marido.
Eileen conhece Orwell em 1935 e eles se casam em junho do ano seguinte – em dezembro, ele vai lutar como voluntário na Guerra Civil Espanhola; em fevereiro de 1937, Eileen vai também.
A partir dessa experiência, Orwell escreve Homenagem à Catalunha, publicado em 1938, que Funder usa como material privilegiado de análise. “Agora que li Homenagem de trás para a frente, sabendo o que e quando aconteceu, e quem estava lá, mas não está no texto, parece ser a hora de desmontá-lo”, escreve. “Hora de ter um vislumbre de Eileen, ainda que em negativo. Só consigo enxergar a forma que ela deixou pela maneira como o texto se encurva e se deforma para evitá-la”.
A Vida Invisível da Sra. Orwell. Anna Funder. Tradução: Denise Bottmann. Companhia das Letras (504 págs., 139,90 reais)
“Como ela fica invisível?”, pergunta a autora, registrando que Orwell menciona a expressão “minha mulher” 37 vezes, mas que, em nenhuma, aparece o nome de Eileen. E, conclui ela, “nenhum personagem pode ganhar vida sem nome”.
Funder, obviamente, não se limita a esse livro. Ela vasculha, relê e analisa boa parte do material já utilizado pelos biógrafos: testemunhos, gravações e correspondências, em especial as cartas que Eileen escreveu para uma amiga, descobertas em 2005. Para a investigação desse vasto material, ela mobiliza um olhar para o que é linguístico e para o que é existencial.
“Aprendi a ler a voz passiva e o sujeito indeterminado”, escreve, enquanto expõe as manobras estilísticas usadas pelos biógrafos para encobrir Eileen – e as mulheres, de forma geral – e valorizar Orwell. Ela também comenta – por vezes, divergindo – a biografia Eileen: The Making of George Orwell, de Sylvia Topp, publicada em 2020 e sem tradução no Brasil.
Funder, ao mesmo tempo, coloca em primeiro plano uma reflexão sobre a condição humana de Eileen: teria seu apagamento sido “voluntário”? Qual a fronteira entre a vontade própria e as imposições comportamentais de uma dada época? Essas abstrações, no entanto, estão sempre ancoradas nos fatos específicos da trajetória biográfica de Eileen O’Shaughnessy. Esse foco seguro garante a excelência de seu trabalho. •
Publicado na edição n° 1422 de CartaCapital, em 22 de julho de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Como se ela não estivesse lá’
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