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Combate esmaecido

Como e por que o rap tem se afastado da busca pela transformação social e se aproximado de um ideário de direita

Combate esmaecido
Combate esmaecido
Reações. Gog criou um curso para ensinar os valores do hip-hop. Rappin’ Hood disse: “Se você é de direita e escuta rap, não entedeu nada do que ouviu” – Imagem: Renato Luiz Ferreira e Redes Sociais/GOG Poeta
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O rapper Genival Oliveira Gonçalves, o Gog, criou há dois anos uma casa dedicada a oferecer oficinas gratuitas de arte e educação para a comunidade em Guará, no Distrito Federal. O principal curso oferecido é de hip-hop.

Para Gog, o movimento cultural criado nos Estados Unidos nos anos 1970, cujo elemento musical é o rap, vem, nos últimos anos, progressivamente, se afastando do seu sentido original: ser uma resposta coletiva ao racismo, à desigualdade e à exclusão. “Ensinar esses valores é garantir a liberdade da periferia de falar por si, hoje e no futuro”, diz ele.

Gog é uma das vozes pioneiras na defesa da ideia de que o rap, no espectro político, está ligado às pautas tradicionalmente da esquerda. Nos últimos tempos, esse posicionamento tem ganhado novos adeptos.

No fim de 2025, Thaíde e Rappin’ Hood foram às redes sociais apontar a contradição entre ser de direita e defender a bandeira do hip-hop de transformação social. Rappin’ Hood, no Instagram, foi direto: “Se você é de direita e escuta rap, certamente não entendeu nada do que ouviu”.

Emicida, por sua vez, tem usado seu novo trabalho, Emicida Racional VL 2, Mesmas Cores & Mesmos Valores, para evocar um retorno às origens de luta do hip-hop. Não à toa, o álbum toma emprestado o título do último disco de estúdio do Racionais MC’s, Cores & Valores (2014). Esse trabalho, embora reflita uma sonoridade mais atual do rap, com uma batida grave e mais efeitos, mantém intacto o tom de crítica social.

Emicida usa seu novo trabalho para evocar as origens do gênero e prestar uma homenagem aos Racionais MC’s

As manifestações recentes evidenciam a preocupação, de parte dos rappers, com os rumos do movimento. A socióloga Daniela Vieira, coordenadora da coleção de livros Hip-Hop em Perspectiva (Editora Perspectiva), não vê exagero nesses gestos.

A pesquisadora concorda. Ela entende que o gênero, de fato, tem se afastado de suas referências culturais. Isso, segundo ela, decorre do próprio crescimento da indústria do rap. Esse caminho, é sempre bom lembrar, está longe de ser inédito. Não precisamos ir muito longe: o ­rock nasceu como contestação e rebeldia e, conforme foi se expandindo, passou a abarcar vertentes conservadoras.

A primeira geração de rappers brasileiros, surgida no fim dos anos 1980, era herdeira direta dos princípios que nortearam os primórdios do hip-hop nos EUA. Artistas como Gog, Rappin’ Hood, Thaíde – que fazia dupla com DJ Hum – e Racionais MC’s, entre outros, abordavam de forma incisiva as desigualdades sociais e o racismo.

A segunda geração, surgida por volta dos anos 2010, tem entre seus expoentes Emicida, Criolo e Rincon Sapiência. De acordo com Daniela, já há nessa fase subsequente do rap uma mudança na temática do gênero. Surgem letras que tratam de autoamor e preocupação com o zelo da população negra. Mantém-se, porém, a defesa dos direitos da periferia.

Essa alteração de abordagem se evidencia em composições emblemáticas de cada geração. A faixa Capítulo 4, Versículo 3, de Mano Brown, do clássico disco Sobrevivendo no Inferno (1997), dos Racionais MC’s, por exemplo, revelava fúria e indignação: Ser preto tipo A custa caro, é foda.

Letras anti-PT. Nas eleições de 2018, Luiz, o Visitante apoiou a candidatura de Bolsonaro à Presidência da República – Imagem: Redes Sociais

Já a música Principia, um dos maiores sucessos de Emicida, lançada no aclamado álbum AmarElo (2019), prega, em vários trechos, a união: Respira o outro, cria o elo/ O vínculo de todas as cores/ Dizem que o amor é amarelo.

A mudança mais profunda se daria a partir da geração que chega quando o rap já tinha passado por um crescimento exponencial, na década passada: foram surgindo artistas não necessariamente ligados aos valores antirracistas e sociais da cultura hip-hop. A pesquisadora observa que o fenômeno não é só brasileiro, mas também norte-americano.

O rapper Kanye West, apoiador do presidente Donald Trump, é um dos maiores exemplos disso. No ano passado, West lançou a canção Heil Hitler elogiando o líder nazista alemão. Após pressão de vários países, a canção foi retirada das plataformas de música. A apologia do nazismo levou sua apresentação no Brasil, em novembro de 2025, a ser cancelada.

Daniela lembra que rappers pioneiros no Brasil passaram pela ditadura e pela redemocratização. Quando houve a primeira eleição presidencial direta, em 1989, o hip-hop já engatinhava por aqui. Mano Brown, Ice Blue, Edi Rock e KL Jay, por exemplo, tinham formado, um ano antes, Os Racionais MC’s. O clima político era completamente diverso daquele da década passada, quando o País vivia a ascensão da extrema-direita.

Daniela Vieira lembra, inclusive, que no processo de impeachment de Dilma Rousseff, entre 2015 e 2016, o rapper Luiz Paulo Pereira da Silva, conhecido como Luiz, o Visitante, fez versos contra a presidente. Na canção Limpando o Brasil, ele entoava: A causa não é só de direita/ Mas por todo brasileiro (…) A doutrina comunista/ empobrecer pra dominar/ Paulo Freire, emburrecer pra doutrinar/ A do PT, dividir pra governar.

Nas eleições de 2018, Luiz, o Visitante apoiou a candidatura de Jair Bolsonaro e acabou por se tornar o nome mais conhecido do que poderia ser chamado de “rap de direita”.

Acauam Oliveira, doutor em Literatura pela Universidade de São Paulo e autor de uma tese que analisa o efeito dos Racionais na música brasileira, lembra que, no início, o rap não era só um gênero, mas um elemento do movimento negro periférico. “Isso teve um efeito extraordinário de politizar a população pobre através das músicas.”

Na visão de Oliveira, a periferia mudou com a radicalização do discurso de direita, o crescimento das pautas conservadoras e o bolsonarismo. Isso tudo sem falar no lugar que as redes sociais passaram a ocupar como espaço de trocas.

Para Oliveira, o trap, subgênero do rap – dançante e com batidas eletrônicas mais rápidas –, que teve forte ascensão no País em meados da década passada, adequou-se ao discurso mais neutro, com letras que tratam de experiências pessoais e superação. “O subgênero apresenta-se com uma perspectiva muito mais individualizada, sem engajamento político”, afirma ele.

“A gente corre o risco de criminalizar a cultura periférica. Temos de acreditar no protagonismo popular”, pondera Acauam Oliveira

Gog vê o trap – palavra que, em inglês, significa lugares perigosos – como um reflexo da atual fase política que atravessamos: “Os artistas focam na fuga do colapso e não mais na transformação social”. Entre os principais nomes do trap brasileiro estão Matuê, L7nnon e Hungria.

Acauam Oliveira chama atenção, no entanto, para o risco de, ao julgarmos as letras despolitizadas, recairmos em algum tipo de perseguição ou preconceito. “É um equívoco”, diz. “A gente corre o risco de criminalizar a cultura periférica. Temos de acreditar no protagonismo popular, e não dizer que são alienados.”

Cabe observar ainda que parte desses artistas está vinculada a temas religiosos, não explicitamente políticos – a ponto de termos até um subgênero chamado rap gospel. E mais: a terceira geração do rap brasileiro segue tendo artistas profundamente ligados às origens do hip-hop, como Abebe Bikila Costa Santos (BK), Don L, Djonga e Fabricio FBC.

Essa nova geração, como lembra ­Daniela Vieira, passou a incluir também muitas rappers mulheres, como ­Duquesa, Tasha e Tracie e MC Soffia. “Elas, muitas vezes, fazem uma inversão da narrativa machista que acompanha a história do rap”, diz. Elas aprofundam aquilo que suas antecessoras, como Negra Li e ­Sharylaine, faziam de forma mais contida.

No fim, a despeito de todas as mudanças pelas quais tem passado o gênero, é como diz Gog: “Enquanto houver desigualdade, o rap continuará sendo essencial”. •

Publicado na edição n° 1399 de CartaCapital, em 11 de fevereiro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Combate esmaecido’

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