Cultura

Crônica / Matheus Pichonelli

Com uma pequena ajuda dos amigos

por Matheus Pichonelli publicado 29/05/2017 14h51, última modificação 29/05/2017 17h52
"A gente cresce num instante. Mas as recordações ficam por muito tempo", dizia o personagem favorito do meu amigo com quem passamos anos incríveis

Um grande amigo dos tempos da faculdade se casou no sábado, 27. Foi o segundo casamento de ex-companheiros de faculdade em menos de um mês. Com os dois amigos dividi as contas do apartamento no já distante início dos anos 2000.

Um desses lugares era uma quitinete dividida ao meio por uma parede irregular (a ideia da proprietária era faturar um a mais alugando o apartamento para dois inquilinos). Do nosso lado, um fogão fazia divisa com uma bicama, como se fosse um criado-mudo. O banheiro não tinha janela, apenas um exaustor. A TV, instalada na parede para não se sobrepor ao segundo colchão, era sintonizada com a ajuda de uma esponja de aço.

Dividimos aquele espaço por um ano. No ano seguinte um primo dele passou na faculdade e passou uns dias com a gente. Na mesma época um outro amigo conseguiu um estágio pela região e também se mudou para lá. Tudo ficou inviável e procuramos um lugar maior, onde ao menos a janela do banheiro dava para o fosso escuro de um prédio antigo. Era um luxo.

Naquele mesmo ano, cada um foi para um lado, mas permanecemos na mesma classe da faculdade; com ela, a amizade.

Não é fácil manter as amizades ao longo de 15 anos, completados agora, em 2017. Seria menos complicado se ainda fôssemos os mesmos da chegada – calados e magros, esperando o jantar, às vezes oferecido pelos pais de um outro amigo, também presentes na cerimônia, que aos finais de semana, quando não podíamos voltar para nossas casas no interior (eu, em Araraquara, ele, em Porto Feliz), nos buscavam e levavam até o apartamento deles, em Osasco.

Fomos, assim, praticamente adotados pelos pais dos amigos que não precisaram mudar de casa, como nós, para estudar; e lá a gente matava, de certa forma, a saudade de casa, ao ver a mesa arrumada e o almoço algo mais rebuscado do que os congelados consumidos em escala industrial entre uma aula e outra.

Mas em 15 anos a gente muda um bocado, mais ou menos como o mundo ao redor – em 2002 eu ainda enviava cartas para minha cidade-natal, e-mail era uma porta para o futuro à entrada do laboratório de informática, rede social era conversa de boteco e smartphone, delírio de ficção científica. Isso tudo sem contar as mudanças políticas, as crises econômicas, a ascensão e queda de formatos, o desencanto com correntes, a insuficiência das ideias, das crenças, das convicções, etc.

Tudo mudou ao nosso redor e, no entanto, no último sábado, estávamos ali, num salão de festas atravessado pelas correntezas de histórias e lembranças em cada roda de conversa – o irmão dele cresceu, o pai tirou o cavanhaque, a mãe guardou o mesmo sorriso que parecia, já na época, conter todas as generosidades de uma família da qual, de certa forma, durante aquele meu primeiro ano em São Paulo, eu fazia sentia parte (nossos pais se conversavam sempre, mas nunca se conheceram pessoalmente).

Uma festa de casamento é, antes de tudo, a reunião de várias tribos: para celebrar uma união, juntamos os amigos da infância, os da faculdade, do trabalho, os familiares, os vizinhos.

Até mesmo as rixas entre as turmas da faculdade (Centro Acadêmico x Atlética; Sala A x Sala B; jornalismo x publicidade) não faziam o menor sentido tantos anos depois da formatura, o que levou um amigo a certa altura da festa a comentar:

-Parece que as pessoas ficam melhor com o tempo, não?

Não era exatamente a máxima de Nelson Rodrigues (“jovens, envelheçam”), mas era mais ou menos isso: há 15 anos, era comum, entre nós, disfarçar a insegurança e a imaturidade com a arrogância de uma afirmação incompleta dos jovens candidatos a jornalistas. Ninguém sabia para onde ia; ninguém sabia sequer o que estava fazendo ali, se havíamos escolhido a profissão correta e, em caso afirmativo, se ela seria uma porta ou um funil; se ela nos abraçaria com generosidade ou nos trataria aos pontapés, como pareciam ser aqueles primeiros anos de faculdade.

Tempos depois, as pequenas alegrias da rotina, e principalmente as grandes frustrações do ofício, criaram as cascas que de certa forma desmentiam o mundo perverso que nos prometiam já no vestibular: um mundo de competições predatórias, de muito suor e pouca solidariedade. Nada mais enganoso: em todo esse tempo, todo mundo ali sofreu junto, ralou junto, e comemorou junto cada passo da vida, profissional e pessoal – o que, afinal, nos reunia naquela festa. Em tempos bicudos como estes, preciso dizer que já não estava mais acostumado a tamanha alegria diante de tanta gente que, em meio à desatenção dos dias, a gente até esquece do quanto gosta.

Nós e o mundo ao redor nos transformamos, mas os laços, esses que levamos para a vida, ficaram – e, numa época de agressividades latentes e discordâncias aparentemente inconciliáveis, é impossível não se lembrar que, mesmo entre amigos, não faltaram, desde os primeiros dias de aula, estresses, arranca-rabos e discussões mais agudas. A boa notícia é que, em vez de promoverem rompimentos, estes foram esquecidos, em algum momento, no porão das mesquinharias.

No fim, e talvez disso não soubéssemos naquele entardecer da adolescência, são as boas histórias que permanecem. Parece óbvio, mas observar o óbvio é fácil em meio à resignação de uma rotina entre carros, buzinas, cobranças, tretas de Facebook e a sensação de que hoje nada dialoga nem faz sentido, a não ser a raiva.

Dizia isso para um outro amigo de república e faculdade, um ex-seminarista que se casou há menos de um mês, a caminho da paróquia do bairro onde ele nasceu e me levara para conhecer após a celebração da véspera. Lá, soube por um folheto que comemorávamos o 51º Dia das Comunicações Sociais – é a data em que, de acordo com a crença cristã, os apóstolos passam a ser responsáveis por espalhar a boa-nova depois da ascensão de Jesus aos céus.

No folheto, o papa Francisco falava sobre a necessidade de romper o círculo vicioso da angústia e da espiral do medo alimentados pela espetacularização das (más) notícias – algo que debatíamos sempre nos tempos de faculdade, e em algum momento deixamos de fazer. “Num sistema comunicador baseado na lógica de que uma notícia boa não desperta a atenção podemos ser tentados a anestesiar a consciência ou a cair no desespero”, escreveu.

Se pudesse me reencontrar comigo mesmo e com os meus amigos de 15 anos atrás, mostraria uma foto da festa de sábado para acalmar as angústias daquela travessia confusa, cheia de contingências e inseguranças – todas represadas num apartamento de poucos metros onde tudo parecia caber, inclusive os amigos perdidos quando os ônibus do centro deixavam de circular na madrugada.

Seria uma forma de dizer a nós mesmos, de novo angustiados com as novas contingências, esses da vida adulta em 2017, que a travessia é dura, e se não aponta uma saída clara até aqui, ao menos serve de pretexto para sentar, tomar uma cerveja, botar os papos em dia.

“A gente cresce num instante. Um dia estamos de fraldas, no outro dia vamos embora. Mas as recordações ficam conosco por muito tempo”, disse Kevin Arnold ao fim da série “Anos Incríveis”, a favorita do meu amigo recém-casado. (Escrevo, aliás, ao som da música da abertura: With a little help from my friends, composição dos Beatles interpretada por Joe Cocker)

Seguimos. Passamos. Atravessamos. Seguimos atravessando. As boas notícias são essas. Achei que esta seria uma boa hora para contar.

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