Com reflexões sobre o samba, Cláudio Jorge levou com mérito o Grammy

No álbum vencedor Samba Jazz, de Raiz, o músico reafirma o que sempre fez: aproximação do samba com outros estilos, sem tirar sua essência

Foto:  Mariana Maiara

Foto: Mariana Maiara

Cultura

Cláudio Jorge ganhou há poucas semanas o Grammy Latino pelo seu trabalho Samba Jazz, de Raiz, na categoria de Melhor Álbum de Samba. Entre os brasileiros vencedores da premiação, o título ao músico chama atenção por ele não pertencer ao chamado mainstream e também realizar um trabalho mais conceitual, algo que na academia ligada à premiação não é tão olhado de perto.

“Não tenho como afirmar com certeza sobre essa escolha. Podem ser vários fatores, mas a qualidade do trabalho é um deles”, diz o cantor, compositor, violonista e produtor.

De fato, o trabalho de Cláudio Jorge é da mais alta competência. E não é de hoje. O seu álbum autoral, Coisa de Chefe (aliás, uma das melhores gravações de samba deste século), foi também indicado para o Grammy Latino em 2002. “Esse também é um disco que trabalha com reflexões sobre o samba”, diz.

“O Samba Jazz, de Raiz foi muito feliz nessa abordagem das relações do samba com outros estilos musicais, sem perder as referências com a tradição, coisa que já vinha experimentando em meus discos anteriores”.

 

Sutilezas

O bom gosto nos seus arranjos, letras e melodias é uma marca no trabalho de Cláudio Jorge. Não há exageros e estridências musicais – vide também seu trabalho como violonista com artistas da linha de frente da música brasileira – e é tudo muito sutil – perceptível ainda nos álbuns que produz.

“Uma observação que sempre tive ao longo dos meus trabalhos de produtor e arranjador, é que o samba e sua orquestra de percussão é um ritmo que nos sequestra e, na maioria vezes, perde-se a experiência mais completa com melodias e letras”.

No seu quarto álbum autoral Samba Jazz, de Raiz (selo Mills Records), em 15 faixas Cláudio Jorge experimentou uma formação mais perto do trio clássico do jazz.

“Fui dosando baixo, bateria e violão com piano, sopros e guitarras, mantendo uma percussão sutil, mas vigorosa de pandeiro, tamborim, ganzá etc. em algumas faixas”.

Em tempo de pandemia, afirma que a experiência com as lives também tem sido positivo: “Criou uma aproximação maior com os que já curtiam meu trabalho e está me ajudando a desenvolver um formato que gosto muito, que é o de voz e violão”.

Mas as preocupações seguem: “Vivemos um dos piores momentos da nossa história, que colocou em cheque a nossa democracia. O racismo explícito e as perseguições às religiões de matrizes africanas são perturbadores”.

Cláudio Jorge disse que vai esperar passar a pandemia para comemorar para valer o Grammy.

O primeiro trabalho autoral de Cláudio Jorge saiu ainda em LP, em 1980. Tempos depois, veio o imperdível Coisa de Chefe (2001). Amigo de Fé saiu em 2010.

Como violonista, ainda jovem, acompanhou ícones como Ismael Silva, Cartola, Nelson Cavaquinho e Clementina de Jesus. Entre o punhado de artistas que trabalhou, com Martinho da Vila construiu sólida história.

Na produção fonográfica do inesquecível Luiz Carlos da Vila, foi capaz de dar o tom certo a um dos maiores compositores de samba que esse país já teve. Gravaram até um álbum juntos, o Matrizes (2005).

Parceiro de grandes autores, cita-se alguns deles gravados no agora premiado Samba Jazz, de Raiz: Nei Lopes, Wilson Moreira, Wilson das Neves, Paulo César Pinheiro, Lula Queiroga e Ivan Lins.

O Grammy Latino premia Claudio Jorge para o grande público, mas quem tem hábito de ir à cata de música de primeira, por certo já tinha o músico em excelente conceito.

 

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Jornalista há 25 anos, com passagem em diversas editorias. Foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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