Cultura
Cidades felizes
Como um brasileiro e um russo produziram, na década de 1920, registros aparentados de sociedades em mutação
António de Alcântara Machado nasceu com o século, em 1901, e em 1927 lançou um livro atípico e heterogêneo, Brás, Bexiga e Barra Funda, que retorna ao nosso panorama literário em edição fac-similar.
O autor, um prodígio – foi jornalista, cronista, crítico literário e teatral, historiador e fundador de periódicos – que morreu aos 33 anos, de apendicite, era um colecionador de notícias pitorescas. Ele fazia esse garimpo diariamente, onde quer que estivesse. “Vocês não sabem ler jornais”, ele dizia aos amigos sempre que os via impressionados diante de um recorte retirado de sua coleção.
Os 11 contos de Brás, Bexiga e Barra Funda – com destaque para clássicos como “Gaetaninho”, “Carmela” e “Corinthians (2) vs. Palestra (1)” – estão carregados de uma energia citadina que, à distância de cem anos, parece bucólica e simples, mas que, à época, era intensa, errática e inovadora:
“As bananas na porta da QUITANDA TRIPOLI ITALIANA eram de ouro por causa do sol”, escreve o narrador – “O Ford derrapou, maxixou, continuou bamboleando. E as chaminés das fábricas apitavam na Rua Brigadeiro Machado”.
Nascido um pouco antes, em 1899, na periferia de Voronej, na Rússia, Andrei Platonov começa a publicar seus primeiros contos na mesma época que Alcântara Machado, ou seja, em fins da década de 1920.
Nos relatos de Machado e Platonov, as cenas são rápidas e os personagens desenraizados
Ainda que separados por uma distância de 12 mil quilômetros, os dois escritores estão profundamente interessados na vida variada das pessoas nas novas cidades – a velocidade que permeia tudo, desde os relacionamentos até os bondes e os reclames publicitários.
O livro de Platonov lançado recentemente no Brasil, Moscou Feliz, com tradução direta do russo, é uma ode à transformação e à intensidade. Ele mostra “o trabalho na terra soviética, agora iluminada pela eletricidade”, “os canteiros de obras densamente equipados com andaimes”, além de “mil jovens engenheiros” que “não dormiam”, “revirando-se agitados em dormitórios e em novos edifícios por toda a planície do país”.
A novela de Platonov, escrita no início dos anos 1930, mas publicada apenas em 1991 – 40 anos depois da morte do autor – conta a história de uma jovem órfã que recebe o nome de sua cidade natal, Moscou Tchestnova (a raiz do sobrenome remete a “puro”, “honesto”):
“Com a alma adormecida, sem lembrar das pessoas ou dos lugares, por anos ela andou e comeu aqui e ali na terra natal, como num vazio, até despertar num banco de escola de um orfanato”.
Sua trajetória é frenética. Ela sonha em tornar-se paraquedista, muda frequentemente de casa e de parceiros, perde uma perna em um acidente e absorve em si o desejo de sua geração de reinventar o mundo. “Moscou” é, ao mesmo tempo, uma mulher, uma cidade e uma utopia – ou seja, um projeto de futuro.
Ela “queria partir rumo à vida infinita que havia muito atormentava seu coração”, escreve o narrador, e continua: “Rumo à escuridão das pessoas constrangidas, para com elas viver o segredo de sua existência”.
Tanto em Brás, Bexiga e Barra Funda quanto em Moscou Feliz, as cenas são rápidas e os personagens são desenraizados – símbolos fugazes de segmentos muito específicos de sociedades em transformação.
De um lado, “Angelo Cuoco de sapatos vermelhos de ponta afilada”, “Dona Nequinha”, “O mulato Tibúrcio” e “Nicolino, o ASSASSINO POR AMOR”; do outro, “o desleixado Sambíkin” e “o desgrenhado e triste Viétchkin”, mas também “o construtor de aviões de altas altitudes Muldbauer”, “o astrônomo Sitsilin” e “o eletrotécnico Gúnkin”.
Nos dois casos, o idioma é torcido e manipulado para oferecer ao leitor a sensação de volatilidade desse contexto “modernista”, “vanguardista”.
Sincronia geracional. António de Alcântara Machado (à esq.) nasceu em São Paulo, em 1901. Andrei Platonov, nasceu um pouco antes, em 1899, na cidade de Voronej – Imagem: Acervo/IEB-USP
Alcântara Machado registra a peculiar mistura linguística dos imigrantes italianos do início do século XX (“Do que a gente bisogna no Brasil, bisogna mesmo, é d’un buono governo mais nada!”).
Platonov, por sua vez, leva o russo ao limite – como escreve a tradutora em seu posfácio, ele usa “procedimentos radicais que não temem a incompreensão e o mal-estar”: “O léxico é empregado de forma incomum, a sintaxe é contorcida além dos limites da flexível língua russa”.
O aspecto visual das duas edições é um elemento decisivo para a evocação desse período histórico. A edição fac-similar de Brás, Bexiga e Barra Funda, organizada por Antoine Chareyre, resgata a tipografia de 1927, com seus negritos e espaços generosos.
Nos dois livros, o idioma é retorcido e manipulado para passar a sensação de um mundo volátil
O livro incorpora ainda notas explicativas aos contos, cinco textos adicionais de Alcântara Machado, bibliografia e uma fortuna crítica que, entre outras resenhas, apresenta uma de Carlos Drummond de Andrade, inédita em livro, de 1927, assinada com o pseudônimo “Antônio Crispim”.
Em paralelo, há um mapa esquemático de São Paulo nos anos 1920, fotos familiares do autor, reproduções de jornais, de folhas de rosto de livros com dedicatórias variadas e de manuscritos.
Em Moscou Feliz, essa dimensão editorial é ainda mais impressionante. Todas as páginas do livro – sem falar da capa e da folha de rosto, com uma dobradura belíssima – apresentam ilustrações retiradas da revista fotográfica SSSR na Stroike (“URSS em Construção”), produção de grande formato que circulou entre 1930 e 1941. Tratava-se de um objeto gráfico sofisticado, com fotomontagens e tipografia construtivista.
Existe, contudo, um descompasso evidente entre a exaltação patriótica das imagens e aquilo que se passa na narrativa de Platonov.
A coincidência de lançamento dos dois livros acaba por revelar uma sobreposição que extrapola a mera sincronia geracional. Brás, Bexiga e Barra Funda e Moscou Feliz são registros aparentados de dois modos de ver o mundo, que privilegiam a complexidade e a variedade.
Os dois livros são variações experimentais de um enigma que persiste: onde termina a subjetividade e começa a comunidade da qual ela faz parte? •
Publicado na edição n° 1413 de CartaCapital, em 20 de maio de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Cidades felizes’
2026 já começou
Às vésperas das eleições de 2026, o País volta a encarar um ponto de inflexão: o futuro democrático está novamente em jogo.
A ameaça bolsonarista não foi derrotada, apenas recuou. No Congresso, forças conservadoras seguem ditando o ritmo. Lá fora, o avanço da extrema-direita e os conflitos em Gaza, no Irã e na Ucrânia agravam a instabilidade global.
Se você valoriza o jornalismo crítico, independente e comprometido com a democracia, este é o momento de agir.
Assine ou contribua com o quanto puder.



