Augusto Diniz | Música brasileira

Jornalista há 25 anos, Augusto Diniz foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

Augusto Diniz | Música brasileira

‘Celebrar a Semana de 22 – que completa 100 anos – é ato de resistência’

Marcia Camargos, pesquisadora do modernismo, diz ser importante as comemorações do histórico evento de 1922 dialogar com o presente

Heitor Villa-Lobos
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A Semana de Arte Moderna, que ocorreu em São Paulo entre os dias 13 e 18 de fevereiro de 1922, completa 100 anos. O acontecimento reuniu de forma inédita os principais artistas de diferentes expressões da época em conferências e apresentações. Trata-se de um dos mais importantes marcos das artes na história do País em meio às polêmicas criadas em torno do evento.

“Precisamos entender que a Semana de 22 foi o primeiro ato público, o estopim do que viria, depois, a ser definido como modernismo, e só ganharia importância com o passar dos anos”, destaca a pesquisadora Marcia Camargos.

“O seu maior legado foi no sentido de libertar as artes e a cultura das amarras do academicismo, do parnasianismo, dos padrões europeus, para dar inicio à construção de uma estética nacional”.

Marcia Camargos tem vários livros publicados, sendo três dedicados ao acontecimento de 100 anos atrás. Ela ressalta que o modernismo foi sendo construído na medida do surgimento de novas teorias e manifestos, à esquerda e à direita, às ideias eclodidas na Semana de 22.

Os livros da historiadora em torno do tema abordam tanto os aspectos da relevância quanto das controvérsias. “Como entender o fascínio que o festival modernista exerce na sociedade, mesmo tendo, à época, recebido mais vaias do que aplausos?”, questiona.

Para marcar o centenário, o livro de Marcia Camargos Semana de 22: entre Vaias e aplausos (2002), será relançado pela Boitempo, em edição revista e ampliada. Segundo ela, novas questionamentos surgiram sobre o acontecimento. Além disso, a autora fez inserções voltadas à cultura popular e periférica na obra, para apresentar um quadro mais amplo das artes hoje. No pós-doutorado realizado na Sorbonne Université, na França, realizou seu trabalho focado nos modernistas brasileiros em Paris nos chamados Anos Loucos (década de 1920).

“Os articuladores da Semana deram as suas contribuições seminais em todos os níveis, da música de [Heitor] Villa-Lobos à pintura de Tarsila [do Amaral], dos versos de Oswald de Andrade, aos textos de Mário [de Andrade], após suas viagens etnográficas ao Norte e Nordeste”, relata.

“Não se pode negar que a antropofagia constitui um dos legados primordiais, um dos momentos mais ricos da dialética modernista. O admirável ‘Tupi or not Tupi’ do Manifesto Antropofágico resume o processo de incorporação da riqueza profunda do povo, da herança total do País, sem descartar o elemento estrangeiro”.

Sobre as marcas mais óbvias deixadas pela Semana de 22, a historiadora relaciona a Tropicália na música e com Plinio Marcos, Gianfrancesco Guarnieri e Zé Celso no teatro.

Mário e Oswald de Andrade

“Na literatura contemporânea, o que vemos é uma multiplicidade de tendências estéticas, união da arte erudita e popular, prosa histórica, social e urbana, experimentalismos formais, intertextualidade e metalinguagem além de temas cotidianos e regionalistas. Tudo isso nós poderíamos citar como sendo herança do modernismo”, afirma.

Ela menciona Mário de Andrade e Oswald de Andrade como os maiores herdeiros do movimento, dando novos rumos à literatura. “Em Paris, em 1923, Oswald finalizaria Memórias sentimentais de João Miramar, lançado no ano seguinte, com capa de Tarsila. Estruturado em 163 fragmentos de diversos estilos, entre cartas, poemas, citações, diálogos, convites, anúncios, já mostrava a quebra de paradigmas que ele vinha ensaiando desde antes da Semana de 22”, explica.

“Depois, em 1925, temos o ‘Manifesto da Poesia Pau-Brasil’. Esse livro, sua estreia em poesia, tem o mesmo nome do manifesto lançado um ano antes, propondo uma língua sem arcaísmos, sem erudição, calcada na oralidade, captando o jeito falado nas ruas”.

Sua escrita, de acordo com Marcia Camargos, acionava humor e lirismo, piada e imaginação, concisão e fala popular, caricatura da retórica, ironia e onomatopeia, a associação inusitada de ideias. “Podemos imaginar como ele influenciou várias gerações de poetas”.

Já em Mário de Andrade, autor de Macunaíma, o índio torna-se um herói sem nenhum caráter. “O protagonista é tão complexo, imprevisível e pouco definível quanto o formato da narrativa. Ele alterna momentos de aguda perspicácia e estupidez, mansidão e brutalidade, grandeza e vilania, nessa moralidade fora dos padrões”.

Heitor Villa-Lobos

Uma das grandes contribuições do modernismo foi justamente questionar a dicotomia entre o popular e o erudito. “Pelas peças apresentadas no palco, durante a Semana de 22, já vemos preocupação de Villa-Lobos em incorporar elementos do repertório indígena e do cancioneiro popular”, conta.

“Ele poderia ter dedilhado um violão no palco do Theatro Municipal (onde se realizou o evento de 1922), mas não o fez. O instrumento não lhe era estranho. Obrigado a tocar nos cafés, nas orquestras dos teatros e dos cinemas para ganhar a vida, ele conviveu com os músicos de rua. Claro que, na Semana de 22, um evento feito pelas elites, ele provavelmente não achou de bom tom usar um instrumento tão ligado às classes populares”.

O compositor, maestro, violonista e pianista Heitor Villa-Lobos foi fundamental nessa quebra de paradigmas, misturando ritmos das ruas, das praças e da Amazônia nas suas composições clássicas – e agradando a plateia na Europa.

“Graças ao seu enorme talento, ele não patinou no pitoresco. Foi além, compondo peças como Trenzinho Caipira, rompendo de maneira definitiva e, magistralmente, com essa ideia de que o erudito e o popular não podem se misturar. Com isso, ele influenciaria gerações de compositores e deixaria sua marca na música brasileira”.

Ela diz considerar importante a Semana de 22 dialogar com as artes de hoje, não apenas com a elite intelectual, mas com artistas da periferia, em sintonia com a realidade. Marcia lamenta o fato de se comemorar o centenário do acontecimento justamente sob um governo federal anticultural.

“Creio que celebrar 1922 torna-se, hoje, um ato de resistência. Toda a iconoclastia, a quebra de paradigmas, a ousadia e a liberdade que a Semana representa reforçam a necessidade de incentivarmos novas ideias artísticas, a despeito desse (des)governo, que procura calar vozes, ceifar a criatividade para impor uma estética medíocre, grotesca, impregnada de fanatismo religioso. Uma verdadeira aberração”, conclui.

Augusto Diniz

Augusto Diniz
Jornalista há 25 anos, com passagem em diversas editorias. Foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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