Augusto Diniz | Música brasileira

Jornalista há 25 anos, Augusto Diniz foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

Augusto Diniz | Música brasileira

CD obra-prima de Renato Teixeira, Pena Branca e Xavantinho completa 30 anos

Gravado em 1992, disco emocionante reúne repertório nobre do cancioneiro que fala do universo interiorano bucólico e fértil

Foto: Reprodução
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Depois de abrir com quatro músicas, Renato Teixeira canta o seu clássico Romaria com Pena Branca e Xavantinho. No fim da canção, ele os apresenta como a maior dupla caipira do País. Os três então seguem se dividindo nessa antológica gravação ao vivo realizada há 30 anos, exatamente entre os dias 21 e 23 de setembro de 1992, no Teatro do Conservatório de Tatuí, no interior de São Paulo.

Transformada em CD, alcançou milhares de cópias vendidas poucos anos depois. Um sucesso para uma gravadora que tinha um bom catálogo, a Kuarup, mas muito longe de ser uma major, com seus esquemas de divulgação e marketing poderosos em rádios e emissoras de televisão.

O sucesso do trabalho – recebeu vários prêmios na época – está na reunião de um repertório com referências fortes do Brasil interiorano, simplório, bucólico, fértil e pastoril, com músicos com leituras respeitosas e fluentes desse universo. O disco foi produzido por Mario de Aratanha e Leo Stinghen.

Renato Teixeira já vivia o auge, com músicas refinadas em ritmo próprio regional. Os irmãos Pena Branca e Xavantinho, já falecidos, foram criados na roça, tinham público cativo de música caipira, eram autênticos, não se dobraram ao mercado sertanejo e levaram vida simples até a morte. Pena Branca, especificamente, com sua voz singela e sincera, canta nesse álbum de forma comovente.

A participação de músicos entendidos da linguagem regional é excepcional no disco: Zé Gomes (violino), Kapenga (violão de 12 e vocal), Dinho Nascimento (percussão e gaita), Rhandal (baixo e violão) e Paulo Putini (baixo). Destaques para Dinho Nascimento e Zé Gomes com solos primorosos e intromissões marcantes em algumas faixas.

As canções

No repertório, músicas do universo rural de inspiração violeira de Renato Teixeira, como Amanheceu, Peguei a Viola (que abre o disco), Raízes, a já citada Romaria, Meu Veneno, Amora e Rapaz Caipira. Duas outras composições de Renato Teixeira no álbum são em parceria com Almir Sater (inclusive, uma na sequência da outra): O Violeiro Toca e Tocando em Frente – esta, uma das letras mais belas do cancioneiro brasileiro de todos os tempos.

O disco tem no repertório ainda Chalana (Mário Zan e Arlindo Pinto) e Rio de Lágrimas (Rio de Piracicaba), de Tião Carreiro, Piraci e Lourival dos Santos, com uma instrumentação sublime.

No álbum, há duas composições de compositores do primeiro time da MPB: O Cio da Terra (Milton Nascimento e Chico Buarque), que é uma cantiga de trabalho no campo, e Canto de um Povo de um Lugar (Caetano Veloso), uma poesia curta do baiano de apreciação do dia.

Outra obra-prima primorosamente apresentada no disco é Vida, Vida Marvada, de Rolando Boldrin. Em Jardim da Fantasia (Paulinho Pedro Azul), Pena Branca dá o tom na beleza delicada dessa canção. Foi gravado ainda o cateretê De Papo pro Á, do compositor histórico Joubert Carvalho e o poeta Olegário Mariano.

As músicas tradicionais recolhidas e a dos rincões são registros também memoráveis nesse álbum de Renato Teixeira e Pena Branca e Xavantinho. Gente Quem Vem de Lisboa (Tavinho Moura e Fernando Brant) abre a cantiga Peixinhos do Mar (adaptada por Tavinho Moura) – o solo de berimbau de Dinho Nascimento entre as duas canções é espetacular.

Vaca Estrela e Boi Fubá, de Patativa do Assaré, Quebra de Milho, de Tom Andrade e Manoelito, e Chuá, Chuá, de Pedro de Sá Pereira e Ari Pavão, vêm do sertanejo no sentido originário da palavra.

Cuitelinho, adaptado por Paulo Vanzolini, é outra de fluência caipira apresentada no disco. O álbum termina com Calix Bento (adaptado por Tavinho Moura), a influência forte pastoril, com a viola “chorando” – e quem ouviu até aqui, por certo já está em prantos com um dos registros mais emblemáticos feitos do cancioneiro brasileiro.

Augusto Diniz

Augusto Diniz
Jornalista há 25 anos, com passagem em diversas editorias. Foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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