Biografia de Tom Zé expõe o preço e a busca do artista pela autenticidade

A biografia do músico mostra os percalços de não seguir o padrão do mainstream e a sua procura por um trabalho denso e original

Foto: Divulgação

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Cultura

Tom Zé, o Último Tropicalista (Edições Sesc), do italiano Pietro Scaramuzzo, jornalista, escritor e brasilianista, é um bom livro sobre o custo (alto) e a busca do artista para se manter autêntico ao longo da carreira. O título da obra é uma referência ao fato do cantor e compositor ainda manter traços fortes em sua criação com o movimento do qual forjou sua carreira, a Tropicália.

De fato, Tom Zé é o único de sua geração a apresentar com veemência em seu trabalho mistura das tradições brasileiras com o pop-rock, estabelecendo sempre algo novo e original dentro desse conceito que designa o grupo musical que emergiu na segunda metade dos anos 1960.

Mas não é difícil imaginar que isso não tenha sido simples. Aliás, dependeu de um olhar de fora para ingressar na indústria fonográfica. Ele poderia seguir a trilha do mainstream padrão, acompanhando as discutíveis tendências do mercado musical brasileiro. Mas não pegou essa trilha, até porque sempre participou de espectro musical fora do convencional em letra e melodia desde o começo.

Tem Zé foi aquele menino simples de Irará (onde nasceu), na Bahia, a vida toda. Perdeu pouco de suas origens ao longo da vida. Aliás, o livro mostra o peso importante nas suas invencionices e experimentações na sua infância e juventude. Já a ironia e a perspicácia nas letras são fruto de observações do que viu no interior do Nordeste e quando chegou à selva de pedra paulistana.

Liberdade

O lado espreitador da realidade vem desde cedo. O relato na biografia do espetáculo Bumba Meu Boi, que realizou jovem com o também baiano Capinan, tipifica essa vertente. O sucesso fez a peça (de uma dança folclórica das mais antigas de sua região) parar no Recife, exibida para uma plateia de cortadores de cana e Paulo Freire, presente porque seu projeto de ensino passava por esses operários. Frases do pedagogo, que depois se tornou referência de educação no mundo, eram mostradas na peça.

Tom Zé, nas últimas fileiras, observava o brilho nos olhos dos trabalhadores assistindo sua peça. Reconheceu-se e comoveu-se de forma insuspeita. A obra do músico transborda essa percepção aflitiva solidária do contexto social, do oprimido em busca da libertação.

Metáforas, junção de palavras e neologismos provocativos são uma marca nos seus discos e rumam nessa direção libertária. A desconstrução e, ao mesmo tempo, a permanente revolução que provoca na produção do som, utilizando instrumentos de forma inconvencional, o lançam num cenário muito além da música.

Essa condição fez David Byrne, inicialmente conhecido no Brasil por liderar a banda Talking Heads, tirá-lo do limbo e lançar por sua gravadora nos Estados Unidos vários trabalhos de Tom Zé. Para o músico nascido no Reino Unido, o brasileiro o fez repensar suas ideias sobre a arte.

O artista de Irará explodiu fora do país e se firmou depois no cenário musical daqui. Essa mesma terra que o pôs de escanteio – e colocou seus colegas da Tropicália na notoriedade. Tom Zé quase largou tudo se não fosse o gringo. Desesperou-se em não poder mostrar sua arte como pensava.

Mas venceu, permanecendo fiel ao que propôs a fazer desde o início. A sua obra esta aí para explicar isso. Estudando o samba (1976), Nave Maria (1984), Com Defeito de Fabricação (1998) e Vira Lata na Via Láctea (2014) – apenas para citar alguns projetos sínteses. Tom Zé é um prumo quando se imagina fazer arte. A sua biografia evoca isso.

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Jornalista há 25 anos, com passagem em diversas editorias. Foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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