Biografia conta como Ney Matogrosso fez do palco sua resistência

Livro sobre o artista trata de buscas e riscos de ser livre e como transmitiu o que pensava por meio do movimento de seu corpo e das músicas

Foto: Marcos Hermes/Divulgação.

Foto: Marcos Hermes/Divulgação.

Cultura

A forma com que Ney Matogrosso se colocou no palco desde o começo da carreira e as escolhas do repertório abrem várias frentes de como ele pensava e agia. O extenso livro recém-lançado pela Companhia das Letras sobre o cantor, escrito pelo jornalista Julio Maria, esmiúça esse seu comportamento, intimamente ligado à sua obra e a maneira de levar a vida.

Ney nunca foi de expressar opiniões e defender causas seja em shows ou fora deles, sobre assuntos diversos, desde temas políticos a causas LGBTQI+.

O que de fato Ney fez ao longo de cerca de 50 anos de música foi mostrar com suas interpretações, por meio do canto, gestos e movimentos do corpo, seus anseios, desejos e, principalmente, sua forma livre de pensar.

O cantor não começou cedo a sua vida de artista. A sua entrada efetiva na música foi com mais de 30 anos e direto no grupo Secos & Molhados, no final do ano de 1972. A voz aguda e o ímpeto de se apresentar com pouca roupa, munido de adereços e muito movimento corporal, acabaram o fazendo estabelecer uma marca própria na MPB.

Ney Matogrosso obviamente não chegou a isso por acaso. A origem de um pai militar que no fim o fez fugir de casa em Mato Grosso é um elemento importante desse impulso, descrito na biografia. Apesar de repulsa ao sistema rígido das Forças Armadas, foi prestando serviço à instituição que aflorou sua homossexualidade.

O cantor nunca assumiu declaradamente a atração por pessoas do mesmo sexo. Mas acabou virando sinônimo de gay nos anos 1980 tamanha a sua demonstração o que de fato lhe atraia, tanto interpretando quanto nas atitudes fora do palco.

LSD e Aids

Sexualidade e sensualidade se misturam em suas expressões diante de luzes, microfone, músicos e plateia. Ney Matogrosso – A Biografia expõe isso de forma detalhada. Ele não tinha pudor. E foi liberto entre quatro paredes até às últimas consequências, movido às vezes por LSD e outras drogas.

Pregando amor aberto, com várias pessoas ao mesmo tempo, por sorte não morreu de Aids, como a maioria que o circundava, quando a doença se propagava no meio artístico com certa velocidade, lá pelos anos 1990.

No repertório, expunha convicção pela liberdade de pensamento desde a época do Secos & Molhados e depois que acabou o grupo (de curta duração e sucesso estrondoso). Rosa de Hiroshima (poema musicado de Vinicius de Moraes) talvez seja o que mais represente esse lado contestador.

E segue com as gravações das músicas mais políticas de Chico Buarque e outras composições escritas de forma metafórica, mas de claro recado ao sistema. Ney não se deteve em baladas fáceis. Quando as cantou, remetia a sua sexualidade – como em Homem com H.

Foi atrás para gravar composições da complexidade musical de Astor Piazzolla à intrincada simplicidade de Cartola. Pela discografia, vê-se preocupação em ir buscar compositores de fluência. Tinha receios de navegar em interpretações que sua voz de timbre mais fino não alcançasse.

O músico sofreu, assim como quase toda sua geração, com a transformação da indústria fonográfica, de intensa “criatividade” em criar rótulos musicais – vide o axé, o pagode e o sertanejo romântico.

Queria liberdade de criação, assim como tinha na vida privada. E impôs isso. Na biografia, são relatadas as músicas que gravou, mas por falta de não se sentir nelas, as abandonou. Tinha preocupação em ensaiar e se preparar para suas apresentações e discos. Cumpria ciclo de trabalho entre concepção e turnês de forma estudada.

Ney foi também um cara generoso, relata o livro. Ajudou muita gente ao seu entorno, e não teve apego ao dinheiro em momentos críticos. Ao ver companheiros morrendo de Aids, estendeu a mão, inclusive dentro de sua casa.

Esse cantor e performático, que desenvolveu seu próprio estilo para mostrar sua resistência ao modelo moral e político vigente, prefere ser chamado de ser humano. E afirma que sua arte é a sua plena expressão, ainda que gere preconceitos. A sua biografia mostra suas buscas e riscos de agir assim.

Durante a pandemia, Ney não fez lives, mas ajudou seus 24 profissionais da equipe de músicos e técnicos pagando por um período alguma quantia em dinheiro. Ele chegou a contrair Covid-19, mas de forma assintomática. Na segunda onda da pandemia, decidiu não ligar mais a TV para assistir as notícias por tristeza pelas mortes e “o descaso e o escárnio” de Bolsonaro e companhia com a situação. O músico completa neste 1º de agosto 80 anos.

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Jornalista há 25 anos, com passagem em diversas editorias. Foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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