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Baú aberto

Cultura

Por Orlando Margarido

Ocupação Angeli


Itaú Cultural, São Paulo, 16 de março a 29 de abril

No curta-metragem documental Angeli 24 horas, de Beth Formaggini, o chargista diz que carrega seus baús para onde quer que vá. Entenda-se a imagem como a noção metafórica de interesses e principalmente obsessões em relação ao ofício do qual não consegue nunca se desgrudar. Sendo assim, melhor conhecer um pouco do que vai por dentro desses baús de Angeli a partir de sexta 16, na Mostra Ocupação do Instituto Itaú Cultural, incluindo o filme que procura dar conta com esmero de sua profundidade.

Quem acompanha sabe do talento inventivo e da irreverência do criador de personagens célebres como Rê Bordosa, Bob Cuspe, Woody & Stock e os Skrotinhos, entre tantos outros. Mas não é praxe flagrar esses criadores na prancha de suas invenções e especialmente ouvi-los, ou se ouvir mais sobre eles, chance que se tem agora na reconstituição do estúdio de Angeli, recheado com os exemplares de sua pena. São cerca de 800 trabalhos, sendo 80 originais, de curiosos desenhos antigos como uma peça premiada de 1975, até a fornada atual. A revisão lembra as primeiras contribuições para a extinta revista Senhor, quando o paulistano de 14 anos ainda morava na Casa Verde, e a criação da bem-sucedida revista Chiclete com Banana. Complementa a iniciativa, a partir de 29 de março, uma mostra de 13 filmes relativos a histórias em quadrinhos em geral, ao autor e suas tiras. É o caso de Dossiê Rebordosa, de César Cabral, e do longa-metragem Woody&Stock: Sexo, Orégano e Rock’n’roll.

Arquitetura da imagem


PAPÉIS 60/70


Mônica Filgueiras & Eduardo Machado Galeria, São Paulo


De 8 de março a 9 de abril

Na seleção de 30 trabalhos, a maioria gravuras, que a galeria de Mônica Filgueiras e Eduardo Machado expõe de Claudio Tozzi a partir de sexta 9, é possível retomar as principais ações do artista nas décadas de 1960 e 1970. Nesse agir cabe desde a adoção do engajamento político tão em voga na época, e do qual a série Multidão é exemplar recorrente, quanto da igualmente propagada pop art, consumada aqui em figuras a la Roy Lichtenstein como Mulher na Janela. Mas dessa atitude também se descola um rigor artístico prático descrito certa vez pelo crítico Frederico Morais. Ele atentou à apropriação de ícones como clichês pelo artista, seja um parafuso, seja um papagaio, para então agigantá-los e depois congelá-los, abrindo-se a várias opções de fragmentação ou repetição. Do que chama de arquitetura da imagem, há vários testemunhos na mostra, como Pasta de Dente e Side I, Side II e Side III.

Por Rosane Pavam

Simplesmente Doisneau


Centro Cultural Justiça Federal, Rio de Janeiro


Até 17 de junho

As 152 imagens em preto e branco incluídas nesta exposição brasileira de Robert Doisneau exercitam duas leis da fotografia de rua. São elas o olhar bem-humorado à margem dos fatos e o livre exercício da geometria. Ensinou Henri Cartier-Bresson, amigo de Doisneau, que sem geometria não há alegria a expressar. E a fotografia nasce do autor. É ele quem escolhe as linhas pelas quais a realidade andará. Ele é o documentarista insubmisso.

Doisneau posta a máquina diante dos fotografados não por sua importância prévia como personagens, mas pela capacidade que têm de representar um momento seu, solar. Há ironia em sua felicidade de artista, mas um observador estará livre para interpretá-la desse modo agora ou depois. Sejam alunos distraídos na carteira escolar, seja um Picasso tornado repentino dinossauro por meio dos pães de sua mesa, igualados a antigas patas, tudo em Doisneau cheira a eternidade.

Ele era pago por uma companhia como a Peugeot, por exemplo, que patrocina esta exposição organizada pela Aliança Francesa, para propagandear a beleza dos carros, mas a publicidade não o limitava. Enquanto trabalhava, nos intervalos ou nos inícios de um dia, “roubava” algum filme para olhar as coisas ditas desimportantes à volta. Muitos fotógrafos estiveram escravizados ao olhar de quem gentilmente lhes pagava para viver, mas não, é certo, este artista nascido há quase cem anos, em abril de 1912. Seu olhar não se enquadrava. E ele viu o que quis.

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Itaú Cultural, São Paulo, 16 de março a 29 de abril

No curta-metragem documental Angeli 24 horas, de Beth Formaggini, o chargista diz que carrega seus baús para onde quer que vá. Entenda-se a imagem como a noção metafórica de interesses e principalmente obsessões em relação ao ofício do qual não consegue nunca se desgrudar. Sendo assim, melhor conhecer um pouco do que vai por dentro desses baús de Angeli a partir de sexta 16, na Mostra Ocupação do Instituto Itaú Cultural, incluindo o filme que procura dar conta com esmero de sua profundidade.

Quem acompanha sabe do talento inventivo e da irreverência do criador de personagens célebres como Rê Bordosa, Bob Cuspe, Woody & Stock e os Skrotinhos, entre tantos outros. Mas não é praxe flagrar esses criadores na prancha de suas invenções e especialmente ouvi-los, ou se ouvir mais sobre eles, chance que se tem agora na reconstituição do estúdio de Angeli, recheado com os exemplares de sua pena. São cerca de 800 trabalhos, sendo 80 originais, de curiosos desenhos antigos como uma peça premiada de 1975, até a fornada atual. A revisão lembra as primeiras contribuições para a extinta revista Senhor, quando o paulistano de 14 anos ainda morava na Casa Verde, e a criação da bem-sucedida revista Chiclete com Banana. Complementa a iniciativa, a partir de 29 de março, uma mostra de 13 filmes relativos a histórias em quadrinhos em geral, ao autor e suas tiras. É o caso de Dossiê Rebordosa, de César Cabral, e do longa-metragem Woody&Stock: Sexo, Orégano e Rock’n’roll.

Arquitetura da imagem


PAPÉIS 60/70


Mônica Filgueiras & Eduardo Machado Galeria, São Paulo


De 8 de março a 9 de abril

Na seleção de 30 trabalhos, a maioria gravuras, que a galeria de Mônica Filgueiras e Eduardo Machado expõe de Claudio Tozzi a partir de sexta 9, é possível retomar as principais ações do artista nas décadas de 1960 e 1970. Nesse agir cabe desde a adoção do engajamento político tão em voga na época, e do qual a série Multidão é exemplar recorrente, quanto da igualmente propagada pop art, consumada aqui em figuras a la Roy Lichtenstein como Mulher na Janela. Mas dessa atitude também se descola um rigor artístico prático descrito certa vez pelo crítico Frederico Morais. Ele atentou à apropriação de ícones como clichês pelo artista, seja um parafuso, seja um papagaio, para então agigantá-los e depois congelá-los, abrindo-se a várias opções de fragmentação ou repetição. Do que chama de arquitetura da imagem, há vários testemunhos na mostra, como Pasta de Dente e Side I, Side II e Side III.

Por Rosane Pavam

Simplesmente Doisneau


Centro Cultural Justiça Federal, Rio de Janeiro


Até 17 de junho

As 152 imagens em preto e branco incluídas nesta exposição brasileira de Robert Doisneau exercitam duas leis da fotografia de rua. São elas o olhar bem-humorado à margem dos fatos e o livre exercício da geometria. Ensinou Henri Cartier-Bresson, amigo de Doisneau, que sem geometria não há alegria a expressar. E a fotografia nasce do autor. É ele quem escolhe as linhas pelas quais a realidade andará. Ele é o documentarista insubmisso.

Doisneau posta a máquina diante dos fotografados não por sua importância prévia como personagens, mas pela capacidade que têm de representar um momento seu, solar. Há ironia em sua felicidade de artista, mas um observador estará livre para interpretá-la desse modo agora ou depois. Sejam alunos distraídos na carteira escolar, seja um Picasso tornado repentino dinossauro por meio dos pães de sua mesa, igualados a antigas patas, tudo em Doisneau cheira a eternidade.

Ele era pago por uma companhia como a Peugeot, por exemplo, que patrocina esta exposição organizada pela Aliança Francesa, para propagandear a beleza dos carros, mas a publicidade não o limitava. Enquanto trabalhava, nos intervalos ou nos inícios de um dia, “roubava” algum filme para olhar as coisas ditas desimportantes à volta. Muitos fotógrafos estiveram escravizados ao olhar de quem gentilmente lhes pagava para viver, mas não, é certo, este artista nascido há quase cem anos, em abril de 1912. Seu olhar não se enquadrava. E ele viu o que quis.

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