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Banda brasileira grava homenagem a Marielle Franco em Berlim

Cultura

Por Cristiane Ramalho

Gravada em um pequeno estúdio num porão da capital alemã, a canção marca a volta da banda às suas origens. Depois de anos de experimentações com estilos como funk, ciranda, hip-hop, frevo e coco, a homenagem à vereadora carioca tem como base o puro maracatu – ritmo ligado à resistência negra.

Autora da canção, a pedagoga e poetisa Emilia Mello, radicada há 31 anos na capital alemã, conta que a banda já pesquisou ritmos e fez fusões diversas, seguindo a musicalidade urbana de Berlim e do Nordeste do Brasil. Mas, para Marielle, a melodia “tinha que ter a força e a energia que só o maracatu tem”. A vereadora era conhecida por sua luta contra a homofobia, o racismo e a violência policial.

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Para Emilia, fazer a homenagem serviu também de “catarse” depois das eleições no Brasil. “Vida Vira”, a nova canção, será incluída no próximo CD – o segundo da banda, ainda sem data de lançamento.

Autora de praticamente todas as letras das Rainhas do Norte, Emilia diz que o viés político de muitas das canções não é por acaso: “Não fazemos música só para divertir. A gente se preocupa também com essas lutas. Por isso, sempre tento puxar para esse lado feminista, anti-racista, anti-homofóbico e anti-transfóbico”.

Rainhas de si mesmas

As Rainhas já tocaram em diversas casas noturnas e festivais, inclusive em espaços tradicionais da capital alemã. Entre eles, o Teatro Volksbühne e a Haus der Kulturen der Welt (Casa das Culturas do Mundo), onde já se apresentaram nomes como Chico Buarque e Gilberto Gil. A Finlândia e a Polônia também estão no portfólio.

“Naquela época, logo no começo da banda, a gente ainda tinha que mostrar passaporte na fronteira com a Polônia, e os guardas – até bem simpáticos – quiseram saber quem era Grace Kelly, no meio daquele monte de brasileiras”, diverte-se Franci Oliveira, cantora das Rainhas. Conhecida DJ na cena musical berlinense, Grace Kelly integra o grupo, mas ficou de fora da gravação porque está em turnê no Brasil.

A banda foi fundada em 2002 pela pernambucana Neide Alves. Percussionista pioneira da cena do maracatu de Recife, ela acabou saindo do grupo. Mas a proposta vingou. “Foi a Neide que ensinou a gente a tocar”, conta Marta Freire, também cantora das Rainhas. Entre os instrumentos usados, estão a alfaia, o gonguê, as congas e o glocke.

No maracatu, explica Marta, a rainha representa a ancestralidade. “O nome da banda tem a ver com a religião afro-brasileira e com a ideia de soberania, de ser rainha de si mesma. E é do Norte, porque estamos nesse Hemisfério”.

Paixão é combustível

Com formações profissionais variadas – uma trabalha em circo, duas são DJs (além de Grace, há Marie Leão), uma terceira é psicóloga – elas não esperam ganhar dinheiro com a banda. O combustível é a paixão pela música.

O que entra em caixa costuma servir, geralmente, para cobrir os custos do próprio grupo – como aluguel de estúdio, compra de novos instrumentos e gastos com transporte. “Quando entra um dinheiro a mais, a gente divide entre as integrantes. Mas grande parte do que recebemos é pra manter a banda mesmo”, conta a baixista e professora de idiomas Marina Pandeló, no grupo desde 2014.

Marina lembra que a banda já teve várias configurações, mas homens nunca foram aceitos: “A ideia é ser referência, inspirar outras mulheres. A música ainda é um espaço muito masculino”. Neste aspecto, a banda também está sintonizada com Marielle Franco, que abriu caminho para as mulheres num cenário político dominado por homens.

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