Baile de Favela, tema da medalhista Rebeca Andrade, é o Brasil real

O pesquisador Thiago de Souza avalia que o funk usado no solo pela ginasta é 'menos higienizado' e representa de fato 'os pobres'

A ginasta Rebeca Andrade. Foto: Loic VENANCE / AFP

A ginasta Rebeca Andrade. Foto: Loic VENANCE / AFP

Cultura

O Baile de Favela é um dos grandes recordes de visualização na internet. “Quando lançado, o funk ainda não era tão higienizado e a letra original trazia conteúdo pesado”, lembra Thiago de Souza, que estuda a fundo o funk desde o mestrado. Hoje, faz doutorado no Departamento de Música da USP sobre o gênero.

O grande sucesso de Baile de Favela (MC João), apresentado pela medalhista de prata Rebeca Andrade como tema musical nos Jogos Olímpicos de Tóquio, fez com que Konrad Dantas (criador da produtora Kondzilla e um dos maiores impulsionares do funk no País) repensasse a letra e o conteúdo audiovisual da música, conta Thiago. “A partir daí, maiores números de visualizações foram alcançados, excluindo palavrões e armas de fogo”, afirma.

Para ele, o Baile de Favela executado na Olimpíada de Tóquio mostra o processo de aceitação social e de legitimação do gênero. “Ainda que Rebeca tenha usado apenas a melodia, Baile de Favela traz a lembrança do que é cantado na letra. E o que é cantado corresponde ao funk mais real e menos higienizado. Isso pode fazer os brasileiros do Brasil real, os pobres, os favelados, funkeiros e funkeiras se sentirem representados”.

 

 

Nesta entrevista a CartaCapital, o pesquisador Thiago de Souza fala da perseguição ao funk e a dificuldade de até o meio acadêmico ingressar no tema.

CartaCapital: O funk hoje está entre o reconhecimento como manifestação cultural e a sua criminalização. O que acontece?

TS: O funk é um dos gêneros mais ouvidos no Brasil. Porém, ao mesmo tempo, é o mais condenado. Aprofundando um pouco mais a questão, o grande reconhecimento aliado às tentativas de criminalização ocorre porque há muitos tipos de funk. Há muitos subgêneros.

O funk de baile de favela que toca no baile da DZ7, em Paraisópolis (bairro da zona sul de São Paulo), não é o mesmo que canta a Anitta e que vai ao Grammy. O funk de baile de favelas é mais incômodo socialmente. Não é à toa que, no mesmo baile da DZ7, nove jovens foram mortos em dezembro de 2019, como consequência de uma “ação” policial.

O funk de maior sucesso é maquiado para agradar pessoas de fora das favelas. Esse não causa incômodo. Acredito que o incômodo maior venha dos funks voltados para a favela. Por que o incômodo? Porque a favela tem outro modo de organização política, social e estética. E este outro modo de organização, condensado nos funks de favela, é o que o Estado conservador teme.

CC: O funk mudou a vida cultural da periferia?

TS: O funk é uma parte da vida cultural. Há rap, samba, dança, slam e até música clássica nas quebradas. Mas, pela alta demanda, o funk é muito produzido e possibilita uma real ascensão econômica para moradores das comunidades. Consequentemente, a molecada se espelha e quer ser MC, DJ ou produtor. É ótimo, o funk dá uma vida com esperança.

O lado ruim é que há muita exploração de MCs e DJs por parte de empresários. É algo próprio da lógica do mercado, mas, quando a exploração ocorre com grande intensidade, é bem triste e revoltante.

Outro lado ruim é o processo de higienização das letras, da música e da aparência. Para atenderem às demandas de mercado e alcançar um público maior, o funk, muitas vezes, é maquiado, enfeitado, sem tensões. E hoje, chegamos a ter o chamado funk de pelúcia ou funk indie, uma música que apenas preserva o compasso rítmico do funk, mas que é feito até por playboys de fora.

CC: O que imagina do futuro do funk?

TS: É muito difícil saber como será o futuro de qualquer fenômeno. Mas, olhando para o passado, sabemos que a passagem do tempo vai legitimando as práticas culturais. Já foi assim com a capoeira, o samba, o jazz e o blues (no contexto estadunidense). Hoje é o funk.

O funk caminha cada vez mais para um reconhecimento social e cultural. Contudo, se os mesmo processos de exclusão e opressão continuarem – e, infelizmente, parece que vão continuar -, outros gêneros musicais surgirão.

Hoje, o trap está fazendo muito sucesso nas favelas e uma parte dele é bem polêmico por abordar a vida no crime. Talvez o preconceito com o funk hoje vá para o trap, muito bem breve.

Sobre o funk consciente, na verdade o subgênero sempre existiu e sempre tocou bastante nas favelas. O que ocorre agora é que o novo funk consciente está conquistando um público fora da favela.

CC: Como caminha o seu trabalho de doutorado sobre o funk?

TS: O funk é um objeto-espelho. Estuda-lo nos departamentos de Música das universidades me fez enxergar a própria dinâmica do ensino da música na universidade. Os departamentos de música foram talvez os ambientes mais colonizados de um departamento de arte.

Apenas a música branca, europeia, feita em uma sociedade heteronormativa, importava. Felizmente, a coisa está mudando e através do funk eu tenho pensado também na função da universidade em uma era digital. Algo que o antropólogo Nestor Canclini tem trabalhado e se questionado, inclusive na USP.

Voltando ao tema de minha pesquisa, parto do princípio de que a teoria nasce da experiência prática. Logo, quero examinar como os produtores de funk pensam e discutem a teoria do próprio gênero. Quais são os processos sonoros e estéticos escolhidos. Isso significa pensar o funk por seus próprios parâmetros, numa teoria da produção musical eletrônica, algo muito mais próximo do nosso tempo, da nossa relação com a música, do que a velha teoria de conservatório.

Causa, porém, espanto a muitos preconceituosos quando digo que um DJ produz muita musicologia, a seu modo, no barraco em que faz seus funks e traps.

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Jornalista há 25 anos, com passagem em diversas editorias. Foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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