Cultura

CartaTeca

BaianaSystem: um sistema de som em movimento

por Miguel Martins publicado 11/06/2017 06h00, última modificação 11/06/2017 00h53
No quarto episódio da série CartaTeca, Russo Passapusso mapeia as influências do grupo e reflete sobre a face política do carnaval deste ano

 

Russo Passapusso define a si próprio como parte da mistura que cultua em sua música: olhos de índio, pele negra, barba de árabe, sobrenome europeu. À frente do BaianaSystem, um híbrido de sound system, banda e trio elétrico que funde dub, reggae, ragga, samba-reggae e música popular, o cantor e compositor encantou multidões no último carnaval de Salvador e tornou-se um dos principais “puxadores” da festa na Bahia.

Dono de uma personalidade magnética, do carisma dos gestos às declarações quase em verso, Russo não separa carnaval de política. Ele reconhece a exclusão social, a violência policial e a corda que divide os foliões como símbolos por trás da festa. O status de puxador recém-conquistado não o impede de perceber as contradições do novo papel. "Por via das histórias musicais, fui colocado em cima de um trio. Eu não consigo me compreender como puxador de nada. Para mim, puxar não é a ideia", diz, antes de fingir carregar um peso nas costas. "Você tem que libertar e não escravizar dentro dessa coisa de puxador".

Queira ou não, o compositor é hábil em conduzir, seja uma banda, uma multidão de fãs ou até mesmo uma entrevista. No quarto episódio da série CartaTeca, Russo mapeia cada influência musical do BaianaSystem, das festas de São João no Recôncavo baiano ao samba-reggae de Salvador, de Tim Maia a Bob Marley e Fela Kuti, sem deixar de buscar várias respostas para uma mesma pergunta.

São as dúvidas, e não as certezas, que inspiram as letras do grupo. “As músicas do Baiana têm muitas interrogações: 'Que cidade você se encaixa?', 'Quem vai dar mais?', 'Quem pergunta e quem concorda?'", analisa. “Comecei a ler as letras depois de muito tempo para tentar entender o que estava acontecendo. E falei: ‘Nossa! Quantas perguntas!’. Não tem exclamações ali. Sabe? É mistura para ver o que vai dar.”

Não há melhor metáfora da mistura no universo musical que o soundsystem. Nos guetos de Kingston no fim dos anos 1950, os jamaicanos passaram a organizar festas de rua com geradores, toca-discos e sistemas de som que amplificavam os disputados discos aportados no país caribenho, grande parte de origem norte-americana. Os sound systems da cidade em breve absorveriam em suas caixas de som a cultura caribenha e rastafari, estimulando o surgimento de grandes músicos e bandas locais.  

O Brasil também tem seus próprios sound systems. Nascido em Feira de Santana, Russo reconhecia o formato durante as festas de largo, quando alguém colocava um modesto sistema de som em cima de um "jeguinho" e rodava uma mesma fita por horas a fio. “Eu não tinha essa vivência de carnaval. Sempre tive uma vivência de São João. Sempre amei a festa porque entrava nas casas. Aquilo pra mim é lindo!"

"A primeira vez que eu passei o carnaval em Salvador foi a coisa mais sofrida do mundo"

Assim como o “jeguinho” que carrega um sistema de som pelas ruas, o trio elétrico “não deixa de ser um sistema de som perambulante”, diz Russo. A força das “festas em movimento” da cultura baiana inspirou uma cena de sistemas de som em Salvador dedicados ao dub, ao reggae, ao ragga e ao dancehall, da qual o BaianaSystem é o produto mais inovador.  

A música jamaicana enraizada em grupos como Olodum e o bloco afro Ilê Aiyê, pilares do samba-reggae soteropolitano, passou a despertar a atenção do cantor e de seus amigos nos anos 2000. “Veio essa história de ouvir os discos o dia inteiro. Ouvíamos muito disco nacional, e de repente começamos a ouvir muito reggae. ‘Ah, o disco é mais pesado. Nossa, que legal, cara! Olha o grave!’. Isso em um grupo de sete, oito amigos. Às vezes eram 12, às vezes 15... ninguém sabia qual era a quantidade correta.”

No fim dos anos 2000, surgiu o sound system “Ministereo Público". Ao contrário de alguns procuradores do órgão que inspirou o nome, o sistema de som não era seletivo: os amigos tocavam os gêneros jamaicanos em festas de rua para públicos de todos os tipos, com foco em bairros periféricos. “Aquilo era a forma mais confortável, porque ali não tinha erro. Ali não tinha desacerto, não tinha vergonha, não tinha medo. Porque fazia parte da rua”, resume Russo.

Projeto idealizado pelo guitarrista Roberto Barreto, o BaianaSystem combinava o formato do sound system com a guitarra baiana, a evolução do famoso “pau elétrico” criado nos anos 1940, consagrado pelo músico baiano Armandinho posteriormente. Em 2010, Russo juntou-se a Barreto para gravar o primeiro álbum do Baiana, homônimo. Logo na estreia, a banda contou com colaborações de peso como o compositor baiano Lucas Santtana e o rapper BNegão, que costuma dar as caras nos shows do grupo. 

Produzido por Daniel Ganjaman, o segundo disco, Duas Cidades, foi um dos principais lançamentos da música brasileira em 2016. Composições como “Lucro (Descomprimindo)”, “Jah Jah Revolta parte 2” e a própria faixa-título consolidaram o grupo nas duas principais arenas da experiência musical: donos de um show poderoso, passaram a ter um disco memorável.

O álbum cacifou o Baiana como uma das principais atrações do carnaval de Salvador deste ano. Para Russo, era uma situação oposta à dos seus primeiros festejos na cidade. “O carnaval nunca foi uma inspiração de paixão minha. Nunca. A primeira vez que eu passei o carnaval em Salvador foi a coisa mais sofrida do mundo. Encontrei com os meus amigos, e, chegando lá, todo mundo entrou no bloco e eu fiquei de fora. Foi assustador para mim. Os blocos guardavam fotos para saber se você era aceito ou não, de acordo com sua aparência, com seu bairro.”

Além da exclusão social, Russo reflete sobre a violência dos cordões, que obriga os integrantes a levantar a guarda para se manter de pé. “Se for perceber, o gingado do samba-reggae e do carnaval vem muito do boxe e da proteção. Eu preciso me proteger daquilo. A capoeira dentro de tudo, a coisa do socar e do esquivar. Fulano dá um soco ali para afastar e depois volta. Aquele que está na corda protege. Acontece muito disso.”

Atualmente, as cordas “estão caindo”, diz Russo. Segundo ele, as rodas que eram de briga se tornaram “rodas de união". “Neste carnaval, tivemos códigos muito fortes. Códigos de proteção de imagem. As pessoas batiam palmas quando a polícia se aproximava justamente para não tomar uma cutucada desapercebida”, afirma, além de ressaltar traços “matriarcais” da festa. “No centro da cidade, o carnaval foi muito ancião. Muito tribal. Mulheres entraram nas rodas ditando as regras.”

"O 'Fora, Temer' sempre esteve na história. É como o bom dia que a gente fala"

A união nas rodas revelou-se também nas manifestações políticas. Russo puxou em algumas oportunidades o coro “Fora, Temer” e foi acompanhado de uma multidão a pedir de forma uníssona a saída do atual presidente. “O coro do 'Fora, Temer' foi sempre”, diz Russo, aos risos. “O 'Fora, Temer' sempre esteve na história. É como o bom dia que a gente fala.” O cantor rejeita, porém, a reprodução do grito como um slogan, repetido por “militantes de uma palavra”. “Está difícil representar mais do que não sei quantas pessoas”, comenta, antes de suspirar. “Né?”

Liberdade musical, fusão de estilos, crítica social e um esforço de transformar manifestações locais em universais: em vários pontos, o BaianaSystem lembra movimentos musicais conterrâneos, como os Doces Bárbaros e os Novos Baianos, ou mesmo de estados nordestinos, como o manguebeat pernambucano. Em comum, todos buscaram expandir as manifestações artísticas para além da música. Russo não nega características semelhantes no Baianasystem, mas condiciona essa ambição à criatividade contínua do projeto. “A ideia de estar em movimento com as criações e recriações é o que faz eu ter uma consciência de estarmos fazendo um movimento. Justamente por estarmos em movimento.”