Cultura

Azeite!

Pode parecer estranho perguntar, mas onde foi parar aquele cheirinho bom do azeite?

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Era assim. Você convidava uma garota para ir ao cinema e se ela dissesse não, você meio cabisbaixo, mas ao mesmo tempo sem querer dar o braço a torcer, dizia:

– Não quer ir, azeite!

Era assim. Não quer me beijar, azeite! Não quer viajar, azeite! Não quer fazer isso ou aquilo, azeite! O azeite era o equivalente hoje ao “azar o seu” ou “dane-se” e, nos casos mais graves, não quer ir?

– Aperte a tecla foda-se!

Mas azeite era também o Gallo. O meu pai era alucinado por azeite, talvez por suas raízes portuguesas, sei lá. E tinha de ser Gallo. Azeite para ele era o Gallo e pronto. De tempos em tempos ele pegava a sua Rural Willys vermelha e branca e ia até as Estâncias Califórnia, que ficava no  centro de Belo Horizonte, perto do viaduto Santa Tereza, para comprar Azeite Gallo. Era a única importadora de Belo Horizonte onde vendia o tal azeite.

Só existia em lata e essas latas vinham de navio de Portugal para o Brasil. Demoravam semanas e semanas até chegar ao porto do Rio e, em seguida,  serem despachadas para Belo Horizonte. Muitas vezes o meu pai comprava uma caixa de madeira com seis latas porque na minha casa não podia faltar.

Ele não era rico e a única coisa de rico que tinha na minha casa eram aquelas latas importadas de azeite Gallo. Disso ele fazia questão. Se você quiser saber porque, eu conto.

De manhã, era ele quem preparava o café da manhã, que era bem farto. Colocava a mesa na véspera, de noite, antes de dormir. Arrumava os jogos americanos, as xícaras, os pratinhos, colherinhas, facas e garfinhos. Os copos pro suco de laranja que ele espremia uma a uma, quase de madrugada ainda, lá estavam arrumadinhos num desenho lógico.

Descascava o mamão da Amazônia (era assim que chamávamos o papaia) e quando o dinheiro estava sobrando ele trazia melão espanhol do Mercado Central. A geleia era da Cica e o Queijo da Canastra. Coava ele mesmo o café em filtro de pano e colocava ainda na mesa o vidro de Toddy (o Toddy vinha em vidro), o vidro de Leite (o leite também vinha em vidro) e a manteiga, ambos Itambé.

Quando tudo estava pronto ele pegava a frigideira, jogava o azeite e ligava o fogão com o Magiclick, que ele achava ser o máximo do progresso. O cheiro do azeite se espalhava pela cozinha, entrava na despensa, passava pelo corredor, ia pra copa, pra sala e chegava aos quartos. Acordávamos com aquele cheiro delicioso de Azeite Gallo no ar, sinal de que estava na hora de pular da cama.

O meu pai ia fritando um a um os ovos para os seus filhos. Uns queriam mole, outros duro, ele sabia bem o gosto de cada um. Ia  colocando nos pratinhos, quando chegávamos pra tomar o café da manhã em família. Hoje, pensando bem, acho até que se alguém filmasse aquela cena daria um bonito anúncio de margarina, mesmo não tendo margarina na mesa porque o meu pai tinha uma birra danada de margarina.

– Não como sebo! Dizia ele.

Durante muitos e muitos anos o azeite Gallo era aquela lata com aquele galo de peito estufado na embalagem. Essa semana lembrei-me dessa história porque fui ao supermercado e tive uma surpresa. O Gallo mudou já tem algum tempo mas, pra ser sincero, só agora caiu a ficha.

Na prateleira tinha o Gallo Tradicional, o Gallo Virgem, o Extra-Virgem, o Primeira Colheita, o Colheita ao Luar, o Grande Escolha, o Reserva mas o que é mais triste, aquele cheirinho bom de azeite que se espalhava pelos cômodos da casa, que nos acordava, esse não existe mais. O azeite hoje não tem mais gosto de nada.

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