Cultura
Aventura pequena
A melhor aventura não é a que se vê, mas a que se vive. Por pequena que seja
Quem me relatou o fato foi uma professora de cidade vizinha. Não posso dar o nome porque não pedi autorização para contar-lhe a história. Seus alunos ainda não conheciam cinema (eles, os cinemas, começam a desaparecer como as galochas e as fichas de telefone), apesar de serem, seus alunos, viciados em televisão, e ela resolveu levá-los a um shopping de uma cidade maior, em viagem civilizatória. Enfim, civilização pressupõe, entre outras coisas, o consumo dos bens materiais e imateriais criados pela inteligência humana. O filme era bom, segundo seus parâmetros de julgamento, um filme de sucesso. Os próprios alunos o escolheram em um folheto com títulos e imagens.
Depois de uma viagem de assustar os passarinhos na beira da estrada, tamanho o barulho da gritaria, desceram no pátio daquele casarão maior que o mundo.
Como é praxe acontecer nesses casos, antes do cinema são necessárias duas visitas: uma chegadinha à lanchonete e outra ao banheiro. No meio de um filme, aparecer criança choramingando de fome ou pedindo para a “tia” para fazer xixi, ah, não, é de estragar a festa. Como ela é uma professora experiente, levou seus pirralhos à satisfação do corpo para que não estragassem a satisfação do espírito.
Até a lanchonete, nada de extraordinário. Cada um apontou para aquilo que mais o encantava, desenrolou a cédula que trazia no bolso e teve um momento de felicidade. O problema foi no banheiro. As meninas não saíam mais. Todo mundo ali no corredor, com cara de quem espera alguém que foi ao banheiro, que é uma cara muito especial. E nada de as meninas aparecerem.
O filme já tinha começado, os meninos em desabalada não atenderam às advertências da mestra, entrando e tropeçando nas escadas da sala escura. Neste momento, não podendo mais esperar, a professora resolveu entrar no banheiro para ver o que acontecia. Suas alunas, maravilhadas, descobriram que bastava ficar na frente da torneira que ela mandava a água. Outras botavam as mãozinhas debaixo de um secador e o vento quente as encantava. Duas filas: na frente da torneira e na frente do secador. Elas riam barulhentas e felizes. Nem os gritos da minha amiga as demoviam. Instadas a se apressarem porque o filme já devia estar começando, as crianças não arredaram dali.
A maior lição quem aprendeu foi a professora: melhor aventura não é a que se vê, mas a que se vive. Por pequena que seja.
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