Cultura
Até Bergman virou atração turística
Mia Hansen-Love viaja à ilha de Faro para mostrar que todos padecem dos males filmados pelo diretor sueco
A felicidade inalcançável, o horror à solidão e a certeza de que tudo acaba são temas espalhados nas séries, nos draminhas e dramalhões que povoam o streaming. Quando as desordens emocionais ainda não estavam ao alcance de todos, o sinônimo de angústia no cinema era Ingmar Bergman.
A Ilha de Bergman (em cartaz desde a quinta-feira 24 nos cinemas) viaja ao mundo do diretor sueco para tentar descobrir como abordar essa dimensão, agora que todo mundo sofre dos males que, no passado, pareciam exclusivos das latitudes nórdicas.
O novo longa da francesa Mia Hansen-Love acompanha um casal de cineastas a Faro, cenário de diversos trabalhos em que Bergman cartografou a alma. Foi também nessa ilha do Báltico que o cineasta escolheu viver décadas em isolamento criativo.
Chris (Vicky Krieps) e Tony (Tim Roth) vivem as flutuações de um relacionamento longo, mas nada indica que a história deles esteja à beira do abismo, como nos filmes de Bergman.
Em vez de seguir o caminho banal do mimetismo, Hansen-Love busca a forma menos previsível do atalho. As imagens invernais e áridas da ilha de Bergman são substituídas por cenas num lugar luminoso e acolhedor. Os habitantes desse lugar ignoram a existência do artista célebre e os diálogos do filme ironizam a valorização excessiva de alguém que, no fundo, media os outros com a fita métrica do próprio ego.
Bergman, como tudo do passado, virou atração turística. Seus lugares, seu imaginário e sua obra podem ser visitadas num safári. A primeira metade do filme desconstrói o mito, demonstrando como até aquilo que era original foi convertido numa montanha de clichês.
O filme só ganha vida própria ao abandonar a estratégia inicial, composta de ironias e observação, e assumir a fabulação. Quando o enredo imaginado por Chris no roteiro que está escrevendo passa à frente, A Ilha de Bergman transforma-se em drama sobre a opacidade dos afetos e a impossibilidade de escolher entre a dor da solidão e a dos relacionamentos.
Para quem prefere o confronto incômodo dos filmes de Bergman a reinterpretações titubeantes, a boa notícia é a reaparição no streaming de Face a Face (1976), exemplar puro e duro do cinema do diretor sueco.
O filme, disponível na MUBI, condensa as diversas obsessões de Bergman com o casamento, o envelhecimento e a morte.
É bom alertar que o sueco filma como um anatomista, escalpelando as emoções, ou seja, não é possível confundir seus dramas com diversão. •
PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1197 DE CARTACAPITAL, EM 2 DE MARÇO DE 2022.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título “Até Bergman virou atração turística”
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