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As violências legitimadas

Em um ensaio do ano 2000, agora reeditado, Marilena Chauí revê as origens do autoritarismo social e político brasileiro

As violências legitimadas
As violências legitimadas
Confronto intelectual. Sob o primeiro mandato de FHC, a autora (abaixo) se viu impelida a repensar os impasses não apenas do século XXI, mas do passado – Imagem: Acervo Presidência da República/Fundação FHC e Paulo Pinto/Agência Brasil
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A filósofa Marilena Chauí é uma daquelas figuras cujo nome precede a obra. É daquelas autoras que, antes mesmo de a termos lido, dela já ouvimos falar, seja por seu engajamento nas fileiras do PT, seja por suas­ declarações de ódio à classe média brasileira. No entanto, por trás – ou ao lado – do nome está a obra.

Marilena, nascida em 1941, é a intelectual que não dispensa o confronto político, consciente que é de que todo pensamento se alimenta da experiência histórica sob a qual é formado.

Mas ela é também a professora emérita de História da Filosofia Moderna na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), a filósofa rigorosa que dialoga com desenvoltura com autores do passado e do presente.

Foi, justamente, se valendo dessa interlocução que Marilena elaborou uma das análises mais instigantes do processo de formação da sociedade brasileira. É o que se observa no ensaio Brasil: Mito Fundador e Sociedade Autoritária, agora reeditado pela Autêntica.

Originalmente publicado em 2000, ou seja, em pleno governo neoliberal de Fernando Henrique Cardoso, e 500 anos depois da “descoberta” do Brasil, o ensaio dava continuidade às críticas que a pensadora vinha fazendo, desde a década de 1970, ao autoritarismo social e político brasileiro, assim como às ideologias que lhe davam sustentação cultural.

Para Marilena, as principais interpretações do Brasil convergiam, a despeito das diferenças políticas, em uma mesma forma de pensar, na qual o processo de formação do País era analisado a partir de parâmetros ligados à história das nações do centro do capitalismo.

Enfatizava-se assim mais aquilo que ainda nos faltava – as repisadas “ausências” e “incompletudes” – do que o Brasil real.

Em consequência disso, e diante da inexistência de classes sociais à altura dos seus interesses históricos, o Estado acabava sendo apresentado como o único agente social e político efetivo.

Em Brasil: Mito Fundador e Sociedade Autoritária, Marilena radicaliza essa crítica ao caráter autoritário da sociedade brasileira, demonstrando como o mito do País do futuro serve para legitimar as violências do passado e do presente.

Brasil: Mito Fundador e Sociedade Autoritária. Marilena Chauí. Autêntica (128 págs.,42,90 reais)

E estamos aqui falando de violências políticas e estatais, mas também sociais, uma vez que é da sociedade – marcada, em suas palavras, pela “estrutura hierárquica do espaço social” – que “provêm as diversas manifestações do autoritarismo político”.

De matriz teológico-política, já que se apoia numa visão milenarista da história, o “mito fundador” favorece, não por acaso, a emergência do “populismo” e, mais recentemente, da “ideologia neoliberal”, com ambos contribuindo para a “privatização do público”.

Se nos textos dos anos 1970 e 1980 a crítica da autora era impulsionada pelas expectativas depositadas nos “novos” movimentos sociais, dentre eles o “novo” movimento operário, dos quais sairia o PT, o horizonte, no início dos anos 2000, era mais bem nublado: era a própria política como tempo-espaço de transformação democrática da vida social que estava em questão.

No período da Abertura Democrática, a busca pelo “novo” era guiada pela esperança numa democracia construída de baixo para cima, em ruptura com as tradições nacionalistas ou vanguardistas até então predominantes nas esquerdas políticas.

No plano das ideias, era preciso superar, portanto, a reflexão sobre as incompletudes da formação nacional em favor de uma abordagem em que o protagonismo é conferido às classes sociais.

Da segunda metade dos anos 1990 em diante, contudo, a decepção quanto aos rumos da democracia brasileira levou Marilena a repensar os impasses não apenas do presente, mas do passado.

Daí a noção de um mito de origem que, ainda hoje, orientaria boa parte das condutas sociais e políticas no Brasil, mito em relação ao qual os governos do PT, como ela diria mais tarde, foram exceções que confirmam a regra.

É essa intelectual inquieta, que não se furta a confrontar as mudanças da história, que vemos em movimento em Brasil: Mito Fundador e Sociedade Autoritária. É verdade que, de lá para cá, muita coisa mudou, mas não tudo.

E as mudanças, quando ocorrem, nem sempre são para melhor, como se vê na ascensão – hoje nem tão recente – da extrema-direita bolsonarista, que colocou em outro patamar o problema do autoritarismo.

Neste cenário que nos cerca, Marilena Chauí continua a funcionar como uma bússola fundamental. Não porque nos guiará, sozinha, por um percurso que ninguém conhece de antemão, mas porque, nesse terreno pantanoso, ela seguirá nos interpelando ao longo do caminho. •


*Fabio Mascaro Querido é professor de Sociologia da Unicamp.

Publicado na edição n° 1414 de CartaCapital, em 27 de maio de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘As violências legitimadas’

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