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As telas embaralhadas

Evan Shapiro, ex-executivo do audiovisual, viu, de camarote, a indústria do entretenimento se deixar atropelar pelas mudanças tecnológicas

As telas embaralhadas
As telas embaralhadas
Com lupa. Demitido, Shapiro tornou-se, por meio de seus textos, uma das vozes mais influentes na interpretação das velozes mudanças em curso na mídia – Imagem: iStockphoto e Redes Sociais
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Nos últimos anos, poucos analistas acompanharam com tanta atenção as transformações da indústria de mídia quanto Evan Shapiro. Com uma longa trajetória dentro das próprias empresas de entretenimento e televisão, ele também vivenciou de perto os processos recentes de diminuição de alguns negócios, assim como fusões e aquisições que vêm sacudindo o setor.

Após ser desligado do cargo corporativo, Shapiro consolidou-se como uma das vozes mais influentes na interpretação dessas mudanças. Leitor antigo de seu Substack (Media War & Peace) e um dos mais de 50 mil seguidores que o acompanham no LinkedIn, entrei em contato para ouvi-lo sobre este momento do mercado e sobre as transformações no trabalho na indústria audiovisual.

O primeiro contato foi feito quatro meses atrás. A conversa demorou para acontecer, mas Shapiro respondeu logo, há que se reconhecer. Ele sugeriu que nosso encontro virtual fosse agendado com sua assistente. Depois de duas remarcações, Shapiro, que vive em Nova York, finalmente, concedeu esta entrevista na qual faz jus à ­reputação de comentarista ácido e direto.

“A tevê tradicional não está sendo substituída pelas plataformas, mas por uma combinação entre streaming e mídia social”

CartaCapital: Como você entrou na indústria de mídia? Como escolheu essa carreira?
Evan Shapiro: Sou um desistente da faculdade. Comecei no teatro, mas sempre quis fazer algum tipo de entretenimento. Por acaso, acabei na televisão, quase exclusivamente em Nova York, embora tenha passado alguns anos indo e voltando para Los Angeles. Dirigi alguns canais de televisão, incluindo a IFC, onde produzi e ajudei a criar Portlandia, e a Sundance­ TV, que é um canal a cabo baseado no Festival de Sundance. Depois fui lançar um serviço de streaming para a NBC­Universal. Como fui demitido, acabei, por conta própria, escrevendo sobre a indústria de mídia, falando sobre ela e fazendo consultoria. Há cerca de sete anos, passei a publicar no meu Substack (Media War & ­Peace) meus mapas da indústria de mídia, e as pessoas pareceram gostar de usá-lo.

CC: Houve, na sua carreira, algum momento decisivo que moldou sua compreensão da indústria?
ES: Vários. O maior foi quando me tornei chefe da IFC e começamos a produzir programação original. Naquela época, a Netflix negociava direitos de DVD, mas já estava fazendo acordos exclusivos de direitos para um serviço que ainda nem tinha sido lançado: o streaming. Em 2006, eu estava em Sundance com um filme chamado This Film Is Not Yet Rated, e o Ted Sarandos (codiretor da ­Netflix) andava por lá fechando esses acordos de streaming. Mas ninguém sabia exatamente do que ele estava falando. Fechei um acordo para dez títulos, que foi muito mais lucrativo do que qualquer outro acordo de programação da IFC. Levei o contrato para a sede e meus chefes, em negação, perguntaram: “Que diabos é isso?”

CC: O que você entendeu naquele momento sobre tecnologia e conteúdo?
ES: A tecnologia não muda necessariamente o conteúdo. Ela muda a forma como o conteúdo é consumido. E a forma como o conteúdo é consumido sempre vai mudar. Em 2012, escrevi um artigo sobre a transformação no mercado de entretenimento de conteúdo pago. Só errei na temporalidade: aconteceu mais rápido do que previ. Quando fomos à Comcast, à DirecTV, à Charter (operadoras de cabo) e dissemos que daríamos a eles os direitos com exclusividade, desde que igualassem o valor pago pela Netflix, eles disseram não”. Era enlouquecedor ver que a indústria não faria nada para impedir que fosse atropelada.

O início. Em 2006, Shapiro viu Ted Sarandos, da Netfltix, fechando acordos para streaming em Sundance, e ninguém entendia o que era aquilo – Imagem: Frederic J. Brown/AFP

CC: Hoje você afirma que o ­YouTube é a nova televisão. No Brasil, a tevê aberta ainda é forte. Muitos dizem que o streaming já desacelerou. O que você diria agora?
ES: A tevê tradicional não está sendo substituída pelas plataformas, mas por uma combinação entre streaming e mídia social. E não há país onde isso seja mais verdadeiro do que o Brasil. O uso dos serviços de compartilhamento de vídeo no Brasil – YouTube, Instagram, ­TikTok – é maior, em termos per ­capita, do que em qualquer outro país que eu tenha estudado. É um pouco maior entre jovens, mas dramaticamente maior entre pessoas acima de 55 anos. O Brasil tem uma ­cultura mobile-first. Os celulares estão sempre nas mãos das pessoas. E vocês criaram grandes players de vídeo social. A ­CazéTV tem mais jogos da Copa do Mundo do que a Globo. Isso é só uma parte da economia dos criadores no País. O nível de engajamento dos criadores brasileiros é enorme. Então, o que é o Y­ouTube? É rede social? É ­streaming? Quem se importa? É televisão. É conteúdo. Nos Estados Unidos, a maior parte das horas assistidas no YouTube já acontece na tela da tevê. No Brasil, ainda é mais mobile, mas a tevê cresce.

CC: O que mudou e o ainda que vai mudar nas carreiras em mídia?
ES: Houve dois grandes motivos para as demissões recentes. Primeiro, consolidação. Quando empresas se fundem, empregos desaparecem. Segundo, a economia. Não acho que o segundo semestre deste ano será economicamente forte. Então, acredito que as demissões podem piorar antes de melhorar. Mas é preciso olhar onde os empregos estão sendo criados. Existem coisas chamadas “mídia”. E existem coisas dentro da mídia que talvez não sejam chamadas de mídia. Equipes internas de marketing em grandes empresas. A PwC, por exemplo, tem uma equipe interna forte em Luxemburgo que produz conteúdo o tempo todo. Empresas como a Little Dot Studios são novos estúdios para a era dos criadores. Eu mesmo sou um criador, um trabalho que não existia dez anos atrás.

CC: O que significa estar preparado nesse mercado?
ES: Conhecer suas habilidades transferíveis, prestar atenção ao mercado e ver onde essas habilidades podem ser aplicadas. Quando Instagram e TikTok migram para a televisão, alguém tem de fazer isso acontecer. Isso cria empregos. A Netflix ainda não vende publicidade direito. A Amazon também não resolveu totalmente a publicidade em tevê. Isso também cria empregos. Mídia de varejo é um dos segmentos que mais crescem. E uma parte enorme do futuro do trabalho será de gente abrindo o próprio negócio. Num cenário econômico difícil, talvez não te contratem por seis dígitos, mas podem te dar um projeto de 10 mil dólares.

CC: Alguns executivos acham que o trabalho intelectual é mais difícil de vender de forma independente. Você concorda?
ES: Não. Se você é realmente bom em algo, mesmo que seja em fazer apresentações, isso tem valor. Quem consegue fazer as coisas acontecerem, e bem, sempre terá demanda. A IA deixa isso mais claro, porque, em termos de precisão, tem se mostrado frustrante. Alguém ainda precisa gerenciar, coordenar, garantir qualidade. Fazer prompting leva mais tempo do que as pessoas imaginavam. Gestão de projeto, responsabilidade, relacionamento… Todo esse “trabalho adulto” continua necessário. Capacidade de execução e excelência continuam valendo.

“Quem consegue fazer as coisas acontecerem, e bem, sempre terá demanda. A IA, em termos de precisão, tem se mostrado frustrante”

CC: Onde você se vê em dez anos?
ES: Espero estar fazendo exatamente o que faço agora. Talvez viaje menos. Mas realmente amo escrever. Escrever, ensinar, falar.

CC: Você se arrepende de algo?
ES: Me arrependo de ter sido mais babaca do que precisava ao longo da vida. Eu poderia ter feito tudo o que fiz sem ter sido tão babaca com tantas pessoas. Há empregos que eu gostaria de não ter aceitado. Negócios que gostaria de não ter feito.

CC: O que você diria aos estudantes de mídia e marketing?
ES: O que eu faço não é incomum. Faço apresentações em PowerPoint com dados. Escrevo sobre a indústria com base em pesquisa. Mas faço isso com uma voz que é inconfundivelmente minha. Se você descobrir o que faz tão bem quanto ama – e fizer isso de forma autêntica –, na maioria das vezes as coisas se resolvem. Mas eu também trabalho duro. Mais do que a maioria. É quase um vício. Você precisa alinhar o que ama com aquilo em que é bom. Adoraria cantar profissionalmente. Não sou bom o suficiente. Eu amo escrever. E quanto mais escrevo, mais as pessoas leem. Isso é um encaixe. E eu escrevo todos os dias, por horas, mesmo quando não quero. •

Publicado na edição n° 1413 de CartaCapital, em 20 de maio de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘As telas embaralhadas’

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