Cultura
As escolhas delas
Cada vez mais mulheres assumem a frente de catálogos que apostam em títulos de intervenção social
A história da literatura mostra que as mulheres escritoras foram deixadas à margem. É recente a mudança de cenário em que elas passam a ocupar – ou até dominar – os espaços literários, seja com lançamentos, seja com a presença em listas de mais vendidos, prêmios e eventos.
Se, por muito tempo, as mulheres que escrevem foram minoria, não é descabido pensar que as que editam eram ainda mais invisibilizadas. A figura do editor, mais discreta que a do escritor, foi majoritariamente vinculada a um imaginário de personagens masculinos. Poderosos, decidiam o que e quem seria publicado.
No mercado editorial brasileiro, não é raro que as casas recebam o nome de seus fundadores: a José Olympio, de José Olympio; a Zahar, de Jorge Zahar; a Rocco, de Paulo Rocco. Entre os maiores grupos do País, a Record foi iniciada por Alfredo C. Machado e a Companhia das Letras, por Luiz Schwarcz.
“As mulheres que editam são ainda mais escondidas do que as escritoras. A gente vai atrás para ver quem estava nos bastidores. Não é fácil”, diz Ana Elisa Ribeiro, professora titular do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (Cefet) e coordenadora do grupo de pesquisa Mulheres na Edição.
Ana Elisa também escreve e edita. Ela é uma das organizadoras de Mulheres Que Editam (Entretantas, 2023), livro que reúne um levantamento de editoras mulheres no País. A obra mapeia mais de 60 profissionais e cada uma recebe um verbete sobre a sua trajetória.
Há nomes como Ivana Jinkings, que fundou a Boitempo em 1995, e Rejane Dias, que fundou a Autêntica em 1997. As duas são exemplos daquelas que caminharam para que as novas pudessem correr.
“As mulheres que editam são ainda mais escondidas do que as escritoras. A gente vai atrás para ver quem estava nos bastidores”, diz Ana Elisa Ribeiro
Uma pesquisa de 2024 do Sindicato Nacional de Editores de Livros (SNEL) constatou que 87% das editoras (39 das apenas 45 que responderam, em oito estados) têm mulheres em cargos de liderança. Esse foi o primeiro levantamento de Diversidade, Equidade e Inclusão (DE&I) do setor. Como a amostra é pequena, ainda não é possível ser completamente otimista com o cenário.
Os dados mais recentes do SNEL, em estudo do Nielsen Book Data, mostram que o País tem 1.047 editoras – sem recorte de gênero. A maioria é do segmento chamado de “obras gerais” (64%), onde entram as editoras de literatura e temas contemporâneos.
É nesse nicho que está a maioria das independentes, em que as mulheres vêm ganhando destaque, com inúmeros casos de sucesso.
“São as pequenas editoras que, muitas vezes, garantem espaço a novos talentos, a novos autores e autoras”, diz Dante Cid, presidente do SNEL. “E, mais recentemente, são elas que vêm abrindo espaço para vozes mais diversas – de etnia, de religião e, obviamente, de gênero. Tudo isso encontra mais portas sempre abertas em pequenas editoras.”
Não é coincidência que as independentes, muitas com modelos de negócio sustentáveis e lucrativos, sejam idealizadas por mulheres. Como afirma Ana Elisa, muitas acabam montando o próprio negócio como resposta à falta de espaço para os títulos que gostariam de publicar ou até de ler.
“Uma editora responde sim aos que se cansaram de ouvir/ler não. Ou elas dirão não aos que umas só dizem sim. E aí as pessoas que fazem nascer essas editoras acordam um dia e pensam: por que não eu? Uma editora pode nascer porque responde à falta de espaço simbólico”, escreve ela em Como Nasce Uma Editora (Entretantas, 2023).
Ubu. Elaine Ramos fundou a editora com Gisela Gasparian e Florencia Ferrari. Agora elas abriram um espaço no centro de São Paulo – Imagem: Nino Andrés
Parte desse empoderamento, prossegue ela, foi possível graças às tecnologias digitais e às facilidades de edição que elas trouxeram. “Não é para poucos, não é para especialistas apenas, não é para escolhidos, não é só para herdeiros, não é mais”, destaca.
Foi o que aconteceu com Maíra Nassif, que fundou a Relicário em 2013, em Belo Horizonte. “A origem da Relicário não deixa de se relacionar com um desejo íntimo e com a minha experiência acadêmica e profissional”, diz. “Além disso, havia a percepção de uma lacuna de mercado a ser explorada com ótimos títulos e autores.”
Um exemplo é o filão das autoras latino-americanas, praticamente inexplorado quando a Relicário começou a olhar para ele e hoje disputado por diversas editoras. Inicialmente, a Relicário, como explica Maíra, possuía um perfil de publicações mais teóricas. Com o tempo, passou a publicar também literatura e ensaios.
“Vejo a editora como um projeto que acredita na dupla vocação da palavra: ela pode ser âncora e lastro para pensar a realidade, mas pode também ser voo e nos alçar a outros mundos possíveis e ao devaneio”, diz Maíra. “Tentamos fazer com que os nossos livros estejam lá e cá, entre a necessidade e a liberdade.”
Publicar mulheres é outra marca da editora – há tanto autoras já conhecidas quanto inéditas e ainda aquelas reconhecidas tardiamente. Se incluem nesse trabalho de resgate as argentinas Alejandra Pizarnik e Sara Gallardo; a estadunidense Anne Sexton; a brasileira Maria Lúcia Alvim; e a francesa Marguerite Duras.
Um dos sucessos da casa é Pequenas Coisas Como Estas, da irlandesa Claire Keegan, traduzido por Adriana Lisboa, finalista do Booker Prize 2022, eleito pelo New York Times um dos melhores livros do século XXI e transformado em filme com o vencedor do Oscar Cillian Murphy.
“Todos os dias passamos por projetos que achamos maravilhosos, mas que não vão render o suficiente”, diz Ramos
“Desde que o lançamos, é um livro que segue na nossa ‘curva A’ de vendas, entrando em clubes de leitura e sendo comentado”, diz Maíra, acrescentando que o título tem também um impacto financeiro positivo na editora.
No Brasil, quando uma editora publica uma tiragem de 3 mil exemplares é porque a expectativa de desempenho é alta. E há títulos de editoras independentes que superam de longe esse número. A Ubu, fundada em 2016 em São Paulo por Elaine Ramos, Florencia Ferrari e Gisela Gasparian, coleciona alguns desses casos.
Elaine trabalhou 16 anos na Cosac Naify e sua sócia, Florencia, 13, tendo sido coordenadora editorial de 2012 a 2015. Aquela era, por sinal, outra casa batizada com o nome dos fundadores, Charles Cosac e Michael Naify.
A Terra Dá, a Terra Quer (2023), de Antônio Bispo dos Santos, é um exemplo de sucesso da Ubu. O livro, sobre a contracolonização, vendeu 45.433 cópias desde o lançamento. “É um livro de um autor quilombola, polêmico, que vai contra a bibliografia estabelecida. É um autor oral, que não é da academia”, explica Elaine.
Outro êxito foi O Desejo dos Outros: Uma Etnografia dos Sonhos Yanomami (2022), de Hanna Limulja. A obra, sobre a importância e o sentido dos sonhos na cultura yanomami, vendeu 25.764 exemplares.
Embora o faro pareça afiado, uma editora independente como a Ubu – que não tem aporte de investidores nem pertence a grupos estrangeiros – não pode correr grandes riscos. “A gente não tem a menor possibilidade de operar no negativo. Todos os dias passamos por projetos que achamos maravilhosos, mas que não vão render o suficiente”, explica Elaine.
A casa inaugura, agora em julho, uma loja na Galeria Metrópole, no centro de São Paulo. O espaço cumpre dupla função: venda direta e difusão da marca e aproximação com o leitor. Segundo Elaine, a Ubu tem posicionamento de esquerda e aposta em temas como feminismo e antirracismo para participar do debate contemporâneo.
Seu clube de assinaturas, que envia um livro e um brinde mensal a 2 mil leitores, busca tanto garantir a circulação da tiragem inicial quanto fortalecer esses debates.
Dar subsídio para qualificar as discussões sociais também é um dos pilares da Bazar do Tempo, do Rio de Janeiro, que, assim como a Ubu, completou dez anos em 2026.
Fundada por Ana Cecilia Impellizieri Martins, a Ciça, a Bazar do Tempo se consolidou como uma editora feminista. “Faz muita diferença a gente ter uma equipe que também está atenta a essas questões”, diz. A casa publica homens, mas tem um olhar que zela pela escrita de mulheres.
“Existe um déficit tão grande na produção e na publicação de mulheres que a gente realmente se colocou um pouco nessa missão, nesse compromisso de dar protagonismo para as mulheres”, explica Ciça.
Relicário. Criada em 2013, em Belo Horizonte, por Maíra Nassif, a empresa foi uma das primeiras a explorar o filão de autoras latino-americanas – Imagem: Redes Sociais/Relicário
Em 2018, a editora lançou a coleção Pensamento Feminista, coordenada pela escritora Heloísa Teixeira, morta em 2025. Em 2021, criou o Clube F., que envia mensalmente aos cerca de 500 associados livros feministas, escritos por mulheres ou com temas caros a elas.
“Isso nos coloca esse compromisso de todo mês ter um livro inédito de uma autora. A gente está procurando as mulheres que são referência ou que deveriam ser referência em diferentes campos de atuação – na história, na crítica cultural, na literatura, nas ciências”, explica Ciça, citando, como autoras que são referência no catálogo, a argentina Rita Segato e a estadunidense Saidiya Hartman.
A Bazar do Tempo sempre foi sustentável, com cada livro impulsionando o próximo. Nos últimos dois anos ficou, porém, mais lucrativa. Com isso, Ciça optou por ampliar os direitos aos funcionários, com plano de saúde e até bonificação por metas, como um 14º salário.
A Ubu também costuma dar uma bonificação extra aos colaboradores. A ação se soma à criação de um ambiente laboral com menos hierarquias e flexibilidade de horário. Bazar do Tempo, Relicário e Ubu publicam cada uma, em média, de 20 a 30 livros por ano.
Como afirma Ana Elisa Ribeiro, é importante que mulheres ocupem esses espaços, mas conscientes do papel que desempenham. “O que é um editor, afinal? É uma pessoa que constitui ou propõe um catálogo. E um catálogo é o conjunto de livros que difunde um discurso. Tem a ver com a circulação das ideias, dos posicionamentos”, diz.
Nesse sentido, a editora da Bazar do Tempo reitera: “A gente quer fazer livros de intervenção, que sejam instrumentos de conscientização sobre assuntos centrais na sociedade contemporânea”. •
Publicado na edição n° 1420 de CartaCapital, em 08 de julho de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘As escolhas delas’
Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome
Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.
O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.
Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.
Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.



