Cultura
As donas da bola
Gal Barradas, diretora da Copa Feminina, diz que o evento vai impactar a cultura e a economia do Brasil
“Minha avó, nascida em 1906, foi empreendedora. Minha mãe, nascida em 1929, foi a primeira mulher a se formar em arquitetura na Bahia. Pra mim, o mundo sempre foi isso: as mulheres podiam fazer o que quisessem. Mas aí eu cheguei no mercado de trabalho e vi que não era bem assim.”
Gal Barradas, que se formou em administração de empresas e fez pós-graduação em semiótica, veio de Salvador, onde nasceu, para São Paulo no início dos anos 1990. Ainda bem jovem, assumiu altos cargos em agências de publicidade como W/Brasil e F/Nazca, atendendo a grandes marcas – dentre elas algumas de cerveja. Era, muitas vezes, a única mulher na sala de reunião. “Mulher e baiana, imaginem!”
Estávamos também no início dos anos 1990 quando, na província de Guangdong, na China, a Fifa realizou a primeira edição da Copa do Mundo Feminina. Em 2027, de 24 de junho a 25 de julho, a Fifa realiza a 10ª edição do evento, em oito cidades brasileiras, com uma ambição: fazer dela o maior evento esportivo feminino do mundo.
Imagem: Daniela Porcelli/CBF
À frente da missão estão quatro diretores-executivos que, desde o primeiro semestre, ocupam o escritório da Fifa no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro. Gal é a diretora de Receitas, Marketing e Comunicação.
A executiva, que, dez anos atrás, criou um aplicativo, o Woman Interrupted, que mede quantas vezes uma mulher é interrompida por homens enquanto fala, parece sentir-se realizada com o fato de não ser minoria numa reunião de diretoria. Na Copa Feminina há apenas um homem entre os quatro C-Level.
“A mulher não podia jogar futebol, mas podia ser ajudante de mágico, com biquíni cavado, podia ser a mulher barbada no cinema…”
E isso acontece, quem diria, em um esporte que sempre esteve fortemente ligado à cultura patriarcal. “O time, no futebol masculino, é passado de pai pra filho, de avô pra neto”, pontuou Gal durante o painel Mulheres Que Movem o Jogo, realizado na quarta-feira 12 no prédio da Oca, no Ibirapuera, durante o SP2B (ler texto à pág. 58).
Foi justamente nesse encontro que Gal, para falar sobre sua função atual, mencionou a linhagem feminina de sua família. A mesa contou também com a presença da locutora Renata Silveira, a primeira mulher a narrar um jogo de futebol na TV Globo.
Renata contou que, na adolescência, não tinha a menor ideia de que profissão seguir, e que foi fazer Educação Física sem convicção – apenas porque gostava de esporte. Mas, algumas vezes, pensou largar o curso. Gal emendou: “É claro! Simplesmente porque a sua profissão não existia”.
Dois dias depois do painel, Gal conversou com CartaCapital, por videoconferência, para falar um pouco mais sobre a Copa de 2027.
Meta. A Fifa tem a ambição de transformar o torneio que acontecerá em oito cidades brasileiras no maior evento esportivo feminino do mundo – Imagem: Miguel Schincariol/AFP
CartaCapital: Como você chegou à Fifa? Foi também por ser ativista pela igualdade de gênero?
Gal Barradas: Foi por meio de um head hunter. Eu estava na Rio Bravo (Investimentos) há dois anos, e muito feliz, mas a possibilidade da Fifa soou, para mim, como um chamado, porque mexe em muitas dimensões do meu ser. Eu fiz as entrevistas e tal, mas não voltaram a falar comigo. Voltei a procurá-los depois de alguns meses e eles disseram que precisavam de alguém com experiência em grandes eventos esportivos. Eu falei: “Olha, com toda essa lista de atribuições que vocês pedem, e mais ter trabalhado em grandes eventos, não tem mulher no Brasil. Devem ser duas ou três. E se vocês já falaram com elas e elas disseram não… não vai ter mais ninguém” (risos). Eu disse que cumpria todos os requisitos ligados a marketing; estou acostumada às relações institucionais e políticas, coisas com as quais uma entidade do tamanho da Fifa tem de lidar; tinha disponibilidade de mudar para o Rio de Janeiro; e sou reconhecida como ativista pela causa das mulheres. Depois de um tempo, me procuraram de novo. Aí, pronto. E também tinha coisas que não estão no meu currículo. A primeira delas é que amo futebol.
CC: Ama?
GB: Cresci dentro disso. Futebol é um negócio que vivi a minha vida inteira. Meu avô era o Manoel Barradas, que dá nome ao Barradão (o estádio do Vitória, em Salvador). Sou Vitória desde sempre.
CC: Por que você queria tanto fazer essa Copa?
GB: Você acompanha a minha carreira: eu tô sempre olhando pra onda que está se formando ali no horizonte, quero surfar naquela outra onda que tá chegando. E eu vejo a Copa do Mundo Feminina como um grande movimento global, que, aqui no Brasil, vai impactar a sociedade em muitas camadas. Por onde quer que se olhe, não existe possibilidade de essa Copa não deixar uma grande transformação cultural e econômica.
CC: Você falou, no SP2B, que o legado da Copa masculina foram os estádios construídos e que agora o legado será o desenvolvimento. Admito que, até ouvir essa conversa, eu não tinha noção da dimensão do evento. Você acha que a sociedade tem a percepção do que será esta Copa?
GB: Alguns grupos têm. A Copa Feminina é um ativo de entretenimento que desperta muito interesse. Na pesquisa do LAB Humanidades, da AlmapBBDO, ela aparece em segundo lugar na lista de interesses dos jovens brasileiros, só perdendo para a Copa Masculina. Acho que há grupos que conhecem o evento e sabem falar sobre ele – as mulheres mais ativistas, por exemplo. Mas ele também está sendo construído por nós.
CC: A Copa vai ser vendida como sendo o quê?
GB: Nosso slogan é Go Epic: Vai ser épico. E será épico porque vai movimentar o País de uma maneira extraordinária. Se você pensar só na presença física das equipes… Serão 32 seleções em oito cidades do Brasil. Imagine a oportunidade para o turismo e para as micro e pequenas empreendedoras. A gente vê que, nas cidades-sede, elas já entenderam isso e estão muito engajadas.
CC: As marcas que devem se associar ao evento são diferentes daquelas que se associam ao futebol masculino?
GB: A Fifa tem vários patrocinadores e várias categorias – Futsal, e-Sports, Sub-20, Sub-17 –, e os patrocinadores globais estão em todas as propriedades. Existe uma cota de patrocínio para futebol feminino; uma de Copas do Mundo; e tem outra, que é onde vão entrar os brasileiros, de patrocinador local, para este torneio apenas. A gente tem a possibilidade, na Fifa 2027, de negociar outros tipos de ação. Porque o futebol masculino é saturado, e o feminino ainda não. Embora já seja um ativo – que, podemos dizer, está consolidado e entrega valor –, ele ainda tem um potencial de crescimento muito grande, por um preço menor. As marcas enxergaram que não se trata apenas da questão de mulheres no campo e, normalmente, não estão interessadas só em patrocínio. Querem fazer licenciamento de produto; estar no camarote; ter uma presença diferenciada. E uma coisa que me surpreendeu alegremente é que querem apoiar projetos sociais. Muitas marcas perguntam: qual vai ser o legado?
CC: De que forma a eliminação do Brasil ainda nas oitavas impactou o trabalho de vocês?
GB: Nós somos Fifa, não CBF. Somos território neutro. Nós queremos ver um grande futebol. Tinha duas possibilidades para a Seleção Brasileira: ganhar ou perder. Se ganhasse, estaríamos na continuação da euforia para a próxima Copa. Perdendo, é um pouco “Temos outra oportunidade, temos outra Copa do Mundo no ano que vem”. E, sinceramente, não estou falando retoricamente. Realmente acho isso. Inclusive, porque são coisas bem diferentes o futebol masculino e o feminino. É outra Copa, com a possibilidade real de a gente ganhar, na nossa casa.
Itaquerão. Durante um debate em São Paulo, Gal disse que o jogo Brasil X EUA mostrou o quão genuíno e orgânico é o movimento do futebol feminino – Imagem: Miguel Schincariol/AFP e Redes Sociais SP2B/FIFA
CC: Quais são as principais diferenças, sobretudo no imaginário?
GB: O futebol masculino nasceu para ser masculino. Jogar futebol, para a mulher, era contra a lei. Elas jogavam em campos, sem iluminação, à noite, e cortavam o cabelo curto pra que, de longe, achassem que eram homens, não mulheres. A mulher podia ser ajudante de mágico, com biquíni cavado, podia ser a mulher barbada no cinema. Tudo isso era tratado como normal. Ser interrompida em reuniões é normal, ter suas ideias roubadas é normal…
CC: Estranho é jogar futebol!
GB: Isso, estranho é jogar futebol. É uma baita vitória o que a gente está vivendo. No Itaquerão (na partida entre Brasil e Estados Unidos, em junho), vi os meninos de 10 anos querendo tirar foto com a Kelly, querendo ver a Marta.
CC: Mas o preconceito contra o futebol feminino permanece, não é?
GB: São preconceitos de diversas ordens ainda. Mas, para mim, é um fenômeno que vai ser igual ao do skate: as meninas vão jogar cada vez mais futebol e as mulheres vão trabalhar com futebol, não só as atletas. Essa geração vai transformar isso e a Copa Feminina vai realmente alterar a percepção da sociedade.
CC: O que faz você ter essa certeza?
GB: É um evento que movimenta coisas que não vão ficar invisíveis porque tocam em muitos pontos da sociedade, do entretenimento e do mundo dos negócios. Tudo que mexe com o mundo dos negócios, com a economia, é transformador. E o movimento que se formou em torno do futebol feminino é muito orgânico e genuíno. Da mesma forma que, nos anos 1990, não era legal ser baiano em São Paulo, e hoje está na moda, a ideia de futebol feminino pegou. •
O ESPORTE NO SP2B
A Fifa quis se fazer presente no evento de empreendedorismo, inovação e criatividade realizado no Parque do Ibirapuera
Imagem: Lucas de Oliveira/SP2B
Nascido para ser um evento que enlaça inovação, empreendedorismo, negócios, tecnologia e indústrias criativas, o SP2B teve, em sua primeira edição, realizada entre os dias 9 e 16 de agosto no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, uma forte presença do esporte.
“O esporte, no fim, toca em todas as temáticas e em todos os segmentos que a gente trouxe pra cá”, diz Rakel Cogliati, curadora do SP2B, que mediou a mesa Mulheres Que Movem o Jogo: Liderança, Negócios e o Futuro do Esporte com a Copa do Mundo Feminina da Fifa 2027, da qual Gal Barradas participou.
A Fifa promoveu outros debates nos quais procurou reunir patrocinadores, executivos do setor esportivo, marcas e atletas. Uma das mesas explorou, por exemplo, a conexão entre esporte, marcas, turismo e cultura.
De acordo com os organizadores, o SP2B reuniu 2 mil palestrantes – entre artistas, influencers, pesquisadores, empresários etc. – que se dividiram em 750 painéis. O evento ocupou quase todas as estruturas do Parque do Ibirapuera.
As conversas aconteceram em palcos montados no Auditório Ibirapuera, no Pavilhão da Bienal, no Museu Afro Brasil Emanoel Araujo, no Planetário e na Marquise, entre outros espaços.
Além dos debates, houve alguns shows. A apresentação de encerramento coube ao grupo BaianaSystem.
Publicado na edição n° 1427 de CartaCapital, em 26 de agosto de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘As donas da bola’
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