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As cores da luta e da liberdade

Um livro de arte e uma exposição na Pinacoteca consolidam a trajetória ascendente de Antonio Obá

Projeto estético. Banhistas nº 3 recria o hotel, na Flórida, que se recusou a servir um almoço a Martin Luther King. Em Dança dos Meninos, os corpos negros desfrutam da alegria – Imagem: Bruno Leão e Acervo/Antonio Obá
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Há, nos corpos pintados por Antonio Obá, um movimento que parece ser tanto de conquista – de uma elevação espiritual, de um caminho ou de um espaço – quanto de resistência. É como se suas telas enfrentassem, por meio da beleza, não só as violências sofridas pelas populações negras, mas a própria história da arte.

“O campo da estética é uma das portas para o reconhecimento de quem somos”, diz ele, com calma e palavras bem medidas, durante a entrevista que tem como pano de fundo um livro e uma exposição que consolidam sua ascendente trajetória artística.

O belíssimo livro foi editado pela ­Cobogó e a impactante mostra Antonio Obá: Revoada fica em cartaz na Pinacoteca Contemporânea, em São Paulo, até fevereiro do ano que vem. Ambos reúnem trabalhos recentes e antigos e procuram dar conta, por vieses distintos, do processo criativo desse artista que, nos últimos anos, vem ganhando a admiração de curadores e críticos e conquistando também o mercado.

Suas obras estão nos acervos do bilionário francês François Pinault, dos museus de Arte Moderna de São Paulo e do Rio de Janeiro e da Pinacoteca do Estado de São Paulo. Já o Instituto Moreira Salles (IMS) o convidou, dois anos atrás, para pintar o retrato de Carolina Maria de Jesus (1914-1977) que acompanhou a exposição sobre a escritora feita pela instituição. Entender a origem desse quadro é, inclusive, uma boa maneira de se compreender alguns dos sentidos abrigados no autêntico projeto estético de Obá.

A autora do livro Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada (1960) foi, nas fotografias, quase sempre retratada em um patamar de subalternidade. Em busca de dar a ela uma nova visualidade, Obá foi colher inspiração nos retratos renascentistas encomendados aos artistas por aqueles que tinham posses e desejavam perpetuar sua imagem.

E assim, em Meada, a figura de Carolina aparece centralizada, com a postura e o olhar que fazem lembrar a representação dos nobres, mas com detalhes nos quais está contida outra realidade. Dentro da moldura rococó dourada há um pano vermelho, pendurado em um arame farpado. Do pano, ou dessa meada, a escritora puxa um fio e, como diz Obá em um vídeo produzido pelo IMS, vai, a partir dele, tecendo um novo caminho, escrevendo outra história.

A narrativa abrigada na obra não deixa, de certa forma, de espelhar algo do percurso do próprio Obá. Nascido na Ceilândia, cidade-satélite de Brasília, em 1983, Obá foi, por causa do evidente talento para a arte, indicado para estudar em uma escola voltada a alunos superdotados. Ali começaria a desenvolver a pintura – lapidada depois na faculdade – e a tecer novas possibilidades para si e para os alunos para quem deu aulas ao longo de 20 anos como professor da rede pública do Distrito Federal.

Em seus quadros, muitos deles em grandes formatos, as pessoas negras são postas em cenas que remetem a experiências transcendentais, à alegria e à dor, e também a imagens calcificadas da arte ocidental, como a de Jesus Cristo. Em ­Tocaia, descreve Yuri Quevedo, curador da Pinacoteca, a auréola está sobre a cabeça de um garoto santo que tem, em uma mão, uma pomba a feri-lo e, em outra, uma pomba presa. “Como aproximar dois momentos da arte de forma a apontar a violência, mas sem reiterá-la? A obra do Obá passa muito por essa pergunta”, diz ­Quevedo. “E é também isso que nos perguntamos hoje ao expor, por exemplo, Debret, pertencente ao acervo da instituição.”

Obá sabe que é, em parte, essa dinâmica social que tem levado à valorização de seus trabalhos – ao ponto de, hoje, viver exclusivamente deles. “A arte não está apartada desses movimentos da sociedade, e acaba por gerar um pensamento e uma série de reflexões que envolvem artistas, mas também os colecionadores, que, de repente, se viram surpresos diante da falta de obras de artistas negros em suas coleções”, diz. “E, sim, isso tudo fez com que a roda começasse a girar. Ao mesmo tempo, nós, os corpos negros, não podemos nos acostumar, enquanto gente e enquanto vozes, ao debate raso em torno da representatividade.”

Não à toa, no centro da galeria aberta para o Parque da Luz, onde estão expostos os seus quadros, há não corpos negros, mas uma instalação composta de 180 esculturas, em forma de mãos entrelaçadas. Essas mãos foram moldadas durante oficinas realizadas com crianças, em escolas de São Paulo. Nelas, não se falava de racismo ou representatividade, mas de autonomia e liberdade. •

Publicado na edição n° 1269 de CartaCapital, em 26 de julho de 2023.

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