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As cidades e seus fantasmas

Em uma nova coletânea de contos, a escritora argentina Mariana Enriquez volta a criar seres e enredos a um só tempo estranhos, poéticos e também políticos

As cidades e seus fantasmas
As cidades e seus fantasmas
Em 12 histórias. A autora vai do horror ao sublime – Imagem: Sebastián Freire
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Não existe insólito mais insólito na literatura latino-americana do que aquele visto na obra da argentina Mariana Enriquez. As fantasmagorias que assombram seus textos remetem aos horrores históricos e sociais que rondam o passado do continente e persistem na atualidade.

O título de sua nova coletânea, Um Lugar Ensolarado para Gente Sombria, sintetiza a dualidade presente nos 12 contos que compõem o livro. Os fantasmas estão presentes na maior parte dos textos, e, é claro, correspondem mais a um clima político do que a figuras do terror – ainda que a autora se valha das ferramentas do gênero.

O primeiro conto, Meus Mortos Tristes, se passa em um bairro de classe média que atravessa uma onda de violência atribuída à periferia. O fantasma a atormentar o local é o de um adolescente morto a tiros num roubo.

Em Olhos Negros, funcionários de uma ONG que, à noite, entregam comida a pessoas em situação de rua em Buenos Aires, ficam aterrorizados ao ver uns garotos que lhes parecem estranhos: “Eles estavam mal. Eles eram o Mal”, diz a narradora.

Essa atmosfera do estranho que guarda algo de conhecido, mas, ao mesmo tempo, encerra em si o desconhecido, marca toda a produção da autora. Os corpos, em sua literatura, transformam-se em lugar de disputa.

Isso fica bastante claro no conto Julie. Os parentes da narradora vivem nos Estados Unidos e se vangloriam da vida levada por lá. Quando a personagem-título, prima da narradora, é trazida de volta à Argentina para um tratamento médico, as dificuldades pelas quais a família passa são escancaradas. Novamente, surgem fantasmas para resolver o problema da garota, que tem uma estranha fascinação por eles.

Um Lugar Ensolarado para Gente Sombria. Mariana Enriquez. Tradução: Elisa Menezes. Intrínseca (224 págs. 79,90 reais)

Em toda a sua construção textual, Mariana lança mão também do poético. Isso se evidencia especialmente no conto que dá título à coletânea, protagonizado por uma jornalista de Buenos Aires que vai a Los Angeles para acompanhar o culto urbano surgido em torno da canadense Elisa­ Lam, figura real cujo corpo foi encontrado na caixa d’água de um hotel da cidade, em 2013.

Mariana parte desse fato para investigar os horrores que, sob o verniz glamoroso de Hollywood, rondam as ruas de Los Angeles, especialmente aquelas ocupadas por viciados em drogas. Capaz de ir do horror ao sublime, a autora borra a linha que, supostamente, separa os extremos para mostrar que tudo está conectado. •

Publicado na edição n° 1425 de CartaCapital, em 12 de agosto de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘As cidades e seus fantasmas’

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