Cultura
Após a crise, a celebração
O Instituto Tomie Ohtake chega aos 25 anos com novo modelo institucional e parcerias com associações e coletivos
“Vinte e cinco anos não é pouca coisa para uma instituição gratuita, aberta ao público todos os dias, que recebe 600 mil pessoas por ano. Tem gente que entra aqui para usar o banheiro e acaba vendo arte.”
Foi com esta frase que Cristina Naumovs, diretora de comunicação do Instituto Tomie Ohtake, abriu, na quarta-feira 5, um café da manhã em comemoração aos 25 anos da instituição. O evento foi realizado no restaurante Santinho, no térreo do edifício de vidro roxo e azul que virou ponto de referência no Baixo Pinheiros, onde começa a Avenida Brigadeiro Faria Lima.
Trata-se de um ponto de referência a um só tempo geográfico e cultural. Geográfico pela singularidade do complexo do Laboratório Aché projetado pelo arquiteto Ruy Ohtake: uma torre de 23 andares e um edifício longo e baixo. Cultural porque, neste quarto de século, o Instituto, com uma programação que cruza artes visuais, arquitetura e design e um projeto educativo, firmou sua marca no circuito de exposições do País.
Pouco antes da efeméride, no entanto, o Tomie Ohtake passou por uma crise que ameaçou sua continuidade. O respiro veio há pouco mais de um ano, quando o Nubank assegurou, até 2027, um patrocínio anual de 10 milhões de reais, que cobre cerca de 40% do orçamento.
Antes da efeméride, o espaço viu sua continuidade ameaçada pela falta de recursos
No mesmo período, foi preciso renegociar com a Aché o prolongamento do prazo de cessão das galerias, que estava perto de vencer. Não deve ter sido por acaso que, no evento da semana passada, Ricardo Ohtake – filho da artista que dá nome à casa, irmão de Ruy e fundador da instituição – quis recordar a origem do espaço.
“Os sócios do Laboratório Aché, quando construíram o prédio, queriam fazer algo importante para a cidade”, disse. Foram cinco anos de obras, de 1996 a 2001, num complexo de cerca de 7,5 mil metros quadrados. “Um dos donos do laboratório era amigo do Ruy, vivia lá em casa, e foi ele quem disse que o espaço deveria levar o nome da Tomie, nossa mãe.”
A inauguração aconteceu em 21 de novembro de 2001, data do aniversário de 88 anos de Tomie. Ricardo lembra que foi uma noite de chuva torrencial em São Paulo e que os convidados entravam molhados, dando tapinhas nas roupas para tentar se livrar da água. Com o grande movimento, o trânsito no entorno parou.
Embora seja ligada a uma família, como muitas dos centros culturais paulistanas, o Instituto Tomie Ohtake tem uma diferença: a família, ao contrário do que acontece, por exemplo, com o Instituto Moreira Salles e com o Itaú Cultural, não a mantém. A instituição tampouco recebe repasses do governo, como acontece com a Pinacoteca. “Sempre tivemos dificuldades brutais para levantar recursos”, disse Ricardo Ohtake.
O que a manteve foram basicamente os recursos da Lei Rouanet. Se, de início, havia sobretudo exposições ligadas à arte contemporânea, especialmente brasileira, o Instituto passou depois a realizar grandes mostras internacionais – como as de Miró, Dalí, Van Gogh, Yayoi Kusama, Frida Kahlo e Louise Bourgeois.
Nova governança. Em 2023, Ricardo Ohtake deixou a presidência e migrou para o conselho consultivo. Em 2024, Gabriela Moulin assumiu a diretoria-executiva do espaço – Imagem: Daniel Cabrel
Algumas receberam mais de 500 mil visitantes. E o Instituto, em certos anos, chegou a figurar entre os maiores captadores da Lei Rouanet. Mas foram mudando os tempos e os ventos: surgiram outras instituições, o olhar eurocêntrico para as artes perdeu força e novos modelos de governança se estabeleceram.
Além disso, a partir de 2019, os ataques de Jair Bolsonaro à Lei Rouanet dificultaram a captação e, em 2020, veio a pandemia. Em 2021, foi dado um primeiro passo rumo à reorganização institucional, com a criação de um conselho formado por 23 pessoas – 12 delas mulheres. A presidente do Conselho era Flávia Almeida, recentemente anunciada como presidente do Masp.
À época, Ohtake afirmou a esta repórter: “O corte abrupto, provocado pela pandemia, acabou por ensejar a mudança que vinha sendo preparada”. No fim de 2023, ele deixaria a presidência da instituição para assumir o Conselho Consultivo.
“Acho que houve um movimento de se pensar o futuro. A instituição foi criada pela família, mas ela é de interesse público”, diz Gabriela Moulin, que chegou em 2022 e se tornou diretora-executiva em 2024.
“As empresas que patrocinam são, em geral, bancos, empresas de infraestrutura, óleo e gás”, diz Moulin
De acordo com Gabriela, 98% dos recursos – os do Nubank incluídos – são obtidos via Lei Rouanet. “As empresas que patrocinam são, em geral, bancos, empresas de infraestrutura, óleo e gás. E há uma disputa entre elas nesse trabalho de construção de marca”, explica. “Hoje, temos também o patrocínio de Itaú e Bradesco.”
Graças a isso, haverá, em 2027, uma programação encorpada. Dentre as exposições, há algumas feitas em conjunto com movimentos sociais, como a Associação dos Produtores de São Paulo, e coletivos, como o dos Presos Políticos da Frei Caneca. “Esse período que atravessamos também nos deu a liberdade de experimentar”, diz Gabriela. “Hoje, nos relacionamos com instituições de muitos portes.”
Ainda que o futuro nunca esteja garantido – inclusive porque o maior apoio vai até 2027 –, o presente permite que o ano da efeméride se encerre como se deve. Estão por vir, neste semestre, as exposições Contrarregra, de Tatiana Blass; O Que Que É Isso?, de Sheila Hicks, e, no mês de aniversário, uma nova mostra de Tomie Ohtake, a 41ª desde a inauguração.
Ela se chama O Sol Daqui e reúne parte dos arquivos da pintora que nasceu no Japão, chegou ao Brasil em 1936 e morreu em 2015, aos 101 anos. “Hoje, entendemos melhor o que significava ser uma mulher, imigrante e se tornar artista aos 39 anos”, diz Gabriela. “Este é o único centro cultural de grande porte da América Latina a levar o nome de uma artista mulher.” •
Publicado na edição n° 1426 de CartaCapital, em 19 de agosto de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Após a crise, a celebração’
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