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Ao som do bandolim

Hamilton de Holanda, um dos mais importantes instrumentistas brasileiros, chega aos 50 anos e lança o 50º álbum

Ao som do bandolim
Ao som do bandolim
Virtuosi. Os fundamentos da música ele recebeu do pai, um militar da reserva. Armandinho (acima, entre Hamilton e seu irmão) seria depois um de seus mestres – Imagem: Acervo Pessoal/Hamilton de Holanda e Nando Chagas
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Hamilton de Holanda sabe que, apesar de ser hoje um dos mais aclamados instrumentistas brasileiros, não é reconhecido na rua ou nos lugares que frequenta a lazer. “Muita gente no Brasil não faz ideia do que é música instrumental”, diz o compositor e bandolinista que, no próximo dia 30, completa 50 anos. “É uma batalha diária.”

Embora os desafios da carreira de instrumentista sejam muitos, ele afirma, nesta conversa com CartaCapital realizada por telefone, ter um sentimento de orgulho por ter chegado aonde chegou. “Não reclamo”, diz.

Dono de uma discografia que já soma 49 álbuns, Hamilton planeja lançar o 50º disco justamente para comemorar seus 50 anos de idade. O novo trabalho instrumental está em fase de finalização e deve ser lançado em maio, trazendo composições próprias que têm, em suas palavras, o “Brasil como raiz”.

As músicas foram inspiradas na ancestralidade da mestra do Recôncavo Baiano Zélia do Prado e do cantor angolano Paulo Flores, mestre do semba – ritmo e dança que figuram como antecessores diretos do samba.

No ano passado, com seu projeto mais recente, Hamilton de Holanda Trio – Live in NYC, o músico conquistou o Grammy de Melhor Álbum de Jazz Latino. Antes disso, já havia recebido quatro estatuetas do Grammy Latino, sendo três como Melhor Álbum Instrumental, com destaque para o autoral Maxixe Samba Groove (2021).

Ao longo da carreira, seu virtuosismo o levou a dividir palco e estúdios com lendas mundiais, como o trompetista ­Wynton Marsalis e o pianista e tecladista Chick Corea (1941–2021). Na mídia ­norte-americana, chegou a ser chamado de ­Jimi Hendrix do Bandolim. Seu caminho começou a ser trilhado muito cedo e teve forte influência da família.

O bandolinista nasceu no Rio de ­Janeiro, mas mudou-se com menos de 1 ano de idade para Brasília. Seu pai, ­José Américo – militar da Marinha e filho de um trompetista de uma big band em Pernambuco –, ao optar pela reserva, pôde dedicar-se integralmente à música, como violonista. E aproveitou para ensinar os fundamentos da harmonia a Hamilton e ao irmão mais velho, Fernando César.

Ainda criança, Hamilton dedilhava o bandolim no afamado Clube de Choro de Brasília. O instrumento fora um presente de Natal do avô. Com o irmão, criaria o grupo Dois de Ouro, gravando seus primeiros três discos a partir de 1997. Também graduou-se em composição musical pela Universidade de Brasília (UnB).

No início dos anos 2000, Hamilton­ dedicou-se a uma nova linguagem instrumental que revolucionaria o bandolim. Ele solicitou a um luthier que adicionasse, às oito cordas tradicionais, outro par de cordas graves. Os cinco pares de cordas tornaram o bandolim plenamente polifônico, ou seja, capaz de produzir várias notas ou vozes melódicas simultaneamente com maior amplitude.

Uma das grandes inovações feitas por ele foi a adoção do bandolim com dez cordas, e não só oito

Com essa inovação, ele passou a executar e criar, simultaneamente, acordes e harmonias complexas, e a se aventurar em vários gêneros, do choro ao baião, passando pela música clássica. Ele também pôde, graças às possibilidades musicais do instrumento de dez cordas, passar a se apresentar sozinho.

Sua inovação foi, pouco a pouco, se espalhando e hoje esse tipo de bandolim é comum no País. Embora a criação do instrumento de dez cordas seja atribuída ao luthier italiano Raffaele Calace ­(1863–1934), foi a abordagem de Hamilton­ que o tornou mais usual no Brasil.

Sabe-se que Jacob do Bandolim (1918–1969) também chegou a possuir um instrumento de dez cordas, mas não se tem notícia de que ele o tenha utilizado em gravações ou shows.

Jacob, aliás, foi a grande figura-referência no início da carreira de ­Hamilton. Mais tarde, o instrumentista lançaria quatro magníficos discos baseados em composições de Jacob.

Outras referências importantes foram o bandolinista Luperce Miranda (1904–1977), de quem se aproximou por conta da linguagem nordestina, e Armandinho Macedo, ás da guitarra baiana.

Com Joel Nascimento – considerado por muitos o segundo maior bandolinista brasileiro, depois de Jacob – Hamilton chegou a ter aulas, ainda que por pouco tempo, em 1996. Em 2009, os dois lançariam juntos um dos discos mais significativos da discografia de Hamilton: De Bandolim para Bandolim.

Residindo desde 2003 no Rio de Janeiro, onde teve, em 2004 e 2007, seus dois filhos, comenta: “A minha música era de um jeito, mas, depois que eles nasceram, ficou de outro”.

O músico conta que uma característica valiosa que conseguiu desenvolver ao longo do tempo é entender seu lugar e papel. “É entender até onde dá para ir; saber dar um passo para trás quando necessário; e ser duro quando preciso, mas sempre com honestidade e gentileza”, diz. •

Publicado na edição n° 1405 de CartaCapital, em 25 de março de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Ao som do bandolinm’

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