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Antagonistas históricos

Embora, à luz do presente, Carlos Lacerda e Leonel Brizola pareçam saídos de outro mundo, seus espectros seguem a rondar o cenário político brasileiro

Antagonistas históricos
Antagonistas históricos
Imagem: Arquivo Nacional/Correio da Manhã
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Na história política brasileira, é difícil pensar em duas figuras mais antagônicas do que Carlos Lacerda e Leonel Brizola. Um personificava tudo aquilo a que o outro se opunha.

Nascido em 1914, no Rio de Janeiro, Carlos Lacerda vocalizou como poucos a direita liberal brasileira, que se caracterizava pela oposição ferrenha ao nacionalismo trabalhista, do qual Brizola, gaúcho de origem e oito anos mais novo, foi uma das expressões mais radicais.

É digno de nota, portanto, o lançamento quase simultâneo dos primeiros volumes de duas excelentes biografias, editadas pela Companhia das Letras, sobre ambos os políticos brasileiros. Pode ser um mero acaso, mas, como diziam os surrealistas, muitas vezes o acaso é “objetivo”, na medida em que responde a circunstâncias históricas determinadas.

Karla Monteiro acompanha o itinerário de Brizola até seu retorno do exílio, em 1979, no início do processo de abertura democrática

Em Lacerda: Coração de Tempestade, Mário Magalhães segue a trajetória do político, jornalista e escritor carioca até 1955, ano da eleição de Juscelino Kubitschek – período anterior àquele em que seu antagonismo com Brizola se tornaria central.

Já Brizola: Lobisomem Contra o Império, de Karla Monteiro, abarca o itinerário do político gaúcho até o seu retorno do exílio, em 1979, no início do processo de abertura democrática.

Assim, se no livro de Monteiro o nome de Lacerda é onipresente, a recíproca é apenas parcialmente verdadeira: Brizola aparece somente nas páginas finais do trabalho de Magalhães, quando o autor aborda os turbulentos anos de 1954 e 1955. Provavelmente, não será este o caso no próximo volume da biografia.

Brizola: Lobisomem Contra o Império. Karla Monteiro. Companhia das Letras (456 págs., 99,90 reais)

Mas se surpreenderá o leitor que esperar encontrar nos dois livros unicamente os traços que fizeram de Lacerda e de Brizola as personas públicas que conhecemos. Como nos mostram tanto Magalhães quanto Monteiro, as trajetórias de ambos foram muito mais acidentadas do que se pode supor à primeira vista.

Em Lacerda: Coração de Tempestade, Magalhães revela, por exemplo, que, antes de ter se tornado a personificação do anticomunismo, Lacerda foi próximo do PCB e membro da Aliança Nacional Libertadora (ANL), de cuja fundação participou, em 1935.

No início dos anos 1940, foi correspondente no Rio de Janeiro da revista Clima, formada por jovens intelectuais paulistas – como Antonio Candido, com quem mantinha boa relação – que, a despeito da oposição ao PCB, eram insuspeitos de conservadorismo.

Se a primeira rusga com a esquerda viria ao fim da década de 1930, quando foi escanteado pelo PCB, seria somente a partir da segunda metade dos anos 1940, quando funda um jornal para chamar de seu, a Tribuna da Imprensa, que o político da UDN começaria de fato a se tornar o mais virulento representante da direita liberal-conservadora brasileira.

Político obstinado e defensor das “reformas de base”, Brizola, na biografia, é mostrado também como o pai controlador, o marido infiel e o tribuno personalista

Nesse cenário, 1954 seria um ano decisivo. Em 5 de agosto, Lacerda foi alvo de um atentado na Rua Tonelero, em Copacabana, onde vivia. A ação, que terminou com a morte do major Rubens Florentino Vaz e com Lacerda baleado no pé, havia sido planejada pelo chefe da Guarda Pessoal da Presidência da República, Gregório Fortunato. A comoção gerada pelo ataque desencadeou a crise que culminaria no suicídio de Getúlio Vargas, ocorrido 19 dias depois.

É notável o modo pelo qual Magalhães narra as tramas, bastidores e boatos que marcaram o atentado a Lacerda e o suicídio de Vargas. Até então na ofensiva, Lacerda se tornou vidraça, sendo visto como o verdadeiro assassino do inimigo declarado. Como escreve o autor, “a partir de 1954, ele não foi somente o belzebu dos comunistas. Passou a ser o capeta para os órfãos de Getúlio Vargas”.

Isso não o impediria, porém, de ser o candidato mais votado do Brasil nas eleições para deputado federal daquele mesmo ano. E tampouco o faria abrandar a oratória agressiva herdada do pai, Maurício, político de orientação socialista que ficara conhecido, na República Velha ­(1889-1930), como “Tribuno do Povo”.

Em Brizola: Lobisomem Contra o Império, Karla Monteiro reconstitui, em narrativa envolvente, os principais acontecimentos em torno dos quais o engenheiro civil de formação foi se firmando como uma das figuras mais emblemáticas da política brasileira da segunda metade do século XX.

Na época do golpe de 1964 Brizola se injuriava com as hesitações de João Goulart – Imagem: Arquivo Nacional/Correio da Manhã

Estão ali a infância e a adolescência difíceis, marcadas pela morte precoce do pai; o início da militância no PTB, ao final da Segunda Guerra Mundial; a radicalização anti-imperialista a partir do fim dos anos 1950; a defesa das “reformas de base”; as escaramuças com o embaixador estadunidense Lincoln Gordon; o exílio no Uruguai e, por pouco tempo, nos EUA; as inúmeras campanhas eleitorais, e muito mais.

Mas Monteiro não se esquiva do lado menos nobre do personagem. Político obstinado, Brizola era igualmente o pai controlador, o marido infiel, o tribuno personalista.

Mário Magalhães descreve com maestria os boatos e as tramas por trás do atentado a Lacerda e o suicídio de Vargas

Um dos pontos altos do livro é a reconstrução dos bastidores políticos da época do golpe de março/abril de 1964. Tendo aderido, sob inspiração da revolução cubana, ao “nacionalismo revolucionário”, Brizola se injuriava com as hesitações de João Goulart, assim como, depois do golpe, com a pouca disposição das esquerdas para a resistência à ditadura.

Segundo Monteiro, Brizola chegou a negociar com Cuba um eventual apoio à luta armada, que acabou não se concretizando.

E, como não poderia deixar de ser, vemos em cena o Brizola anti-lacerdista. Para o político gaúcho, o jornalista carioca não passava de um “patrioteiro”. “O corvo” encarnava, na visão de Brizola, “tudo de ruim que poderia haver na elite do país”, como escreve a autora.

Lacerda: Coração de Tempestade. Mário Magalhães. Companhia das Letras (528 págs., 109,90 reais)

É verdade que, vistos à luz do nosso presente, Lacerda e Brizola parecem saídos de outro mundo. Ambos – em especial o primeiro – atuaram em uma época em que o País estava à procura de sua própria modernidade, ou seja, em que o futuro ainda era uma promessa. Já não é mais.

Os espectros dos dois políticos ainda rondam, no entanto, o debate contemporâneo. Ainda que o liberalismo de hoje talvez tenha uma base social mais ampla do que a do tempo de Lacerda, uma vez que a própria devastação neoliberal impôs a ideia de que somos todos “empreendedores de nós mesmos”, não é difícil observar continuidades entre a perspectiva de Lacerda e a dos nossos liberais atuais.

Basta pensar, por exemplo, no caráter golpista que ainda hoje caracteriza boa parcela do liberalismo brasileiro. Sem falar na instrumentalização do problema da corrupção – sempre a dos outros – como forma de deslegitimação de governos que não seguem à risca o receituário (neo)liberal.

Virulento líder da direita liberal-conservadora brasileira, Lacerda personificou o anticomunismo – Imagem: Arquivo Nacional

Ainda que o trabalhismo brizolista, como se verá no próximo volume da obra de Karla Monteiro, tenha sido ultrapassado à esquerda pelo PT ao longo dos anos 1980 e 1990, num momento em que o próprio Brizola se voltava para o modelo da social-democracia europeia, os governos Lula e Dilma não deixaram de retomar discursos que remetem ao velho ideário nacionalista.

No Brasil, o passado passa, mas não muito. E é isso, aliás, o que garante não só a importância, mas também a atualidade das duas biografias. Elas nos falam de um tempo cujo horizonte não existe mais, sem que, entretanto, os desafios então colocados tenham sido satisfatoriamente resolvidos. É um passado que, para parafrasear Marx, ainda pesa sobre a cabeça dos vivos.

Ao nos fazer revisitar acontecimentos que marcaram a história política brasileira, os dois livros nos permitem acertar contas com o passado para, simultaneamente, desbloquear a nossa ­capacidade­ de imaginar o futuro. Enquanto ainda estiver em tempo. •


*Fabio Mascaro Querido é professor de Sociologia na Unicamp.

Publicado na edição n° 1428 de CartaCapital, em 02 de setembro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Antagonistas históricos’

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