Cultura
Anônimos memoráveis
Em Bartleby e Eu, o jornalista Gay Talese, de 93 anos, leva o leitor aos bastidores de suas reportagens e detalha sua técnica de transformar “ninguéns” em personagens
O jornalista Gay Talese especializou-se em fazer perfis e contar histórias de pessoas desafortunadas, de figuras que, embora muitas vezes importantes para fazer a engrenagem do sistema funcionar, nunca terão suas vidas narradas em um jornal.
Em Bartleby e Eu, seu mais recente livro de memórias e reflexões, mais uma vez o papa do chamado Novo Jornalismo, agora com 93 anos, leva o leitor para os bastidores de suas reportagens e conta como se aproxima dos personagens que ele chama, em sua maioria, de “ninguéns”.
O título do volume é uma associação com o personagem Bartleby, do livro de mesmo nome de Herman Melville, um soturno escrevente que passa o dia fazendo cópias de contratos no canto de um escritório de advocacia em Wall Street. Necessário, mas invisível. O tipo de pessoa por quem Talese se sente atraído.
O jornalista conta que, uma vez, no início da carreira, no andar onde ficavam os copidesques do jornal New York Times, ele viu um deles sair com um estojo de violino embaixo do braço. Isso o fez refletir que, embora passassem o dia revisando textos de jornalistas de forma anônima, aquelas pessoas tinham uma vida mais variada do que aparentavam.
BARTLEBY E EU. Gay Talese. Tradução: Laura Teixeira Motta. Companhia das Letras (336 págs., 99,90 reais)
Talese iniciou sua trajetória em 1953 como mensageiro do jornal, mas logo passou a dar sugestões de reportagens. A primeira delas foi sobre James Torpey, o operador-chefe do letreiro de notícias do NYT, que colocava a manchete no luminoso da fachada do edifício.
Ao longo da carreira, ele contaria as histórias memoráveis de porteiros, cozinheiros, faxineiros e policiais, construindo aquilo que é revelado pelo subtítulo da edição brasileira: “Pelas ruas de Nova York, um mestre de reportagem narra a ascensão e queda do sonho americano”.
Assim como Thomas Wolfe, Truman Capote e Norman Mailer, outros pilares do Novo Jornalismo, Talese não se furta a usar técnicas literárias e muita subjetividade para relatar histórias reais.
Quando começou a escrever para a Esquire, o jornalista passou a fazer também perfis de celebridades. Um dos mais famosos, publicado 1966, foi Frank Sinatra Está Resfriado. Para escrevê-lo, Talese falou com dezenas de pessoas próximas ao cantor, que não quis dar entrevista. No livro, Talese revela os bastidores da reportagem.
Bartleby e Eu traz ainda uma reportagem inédita, O Brownstone do Dr. Bartha, sobre um médico romeno que preferiu explodir seu prédio a dividi-lo com a ex-mulher. Outro anônimo memorável. •
Publicado na edição n° 1399 de CartaCapital, em 11 de fevereiro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Anônimos memoráveis’
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