André Magalhães leva álbum para audições com moradores das periferias

Produtor é um dos mais respeitados no país na união de sons tradicionais e contemporâneos

O músico Andre Magalhaes (Foto: Gal Oppido)

O músico Andre Magalhaes (Foto: Gal Oppido)

Cultura

André Magalhães colocou para tocar o seu álbum Para Ti – Batuques e Melodia dos Cantos para uma plateia formada por adultos em processo de alfabetização em um projeto da União de Núcleos, Associações dos Moradores de Heliópolis e Região, na Zona Sul da capital paulista.

O fato de uma das faixas mostrar canções de trabalho onde pessoas cantam enquanto executam tarefas, antigamente comuns em áreas rurais do país, fez um grupo da terceira idade citar após a audição sobre seus antepassados.

Um dia antes André tinha ido à Favela da Paz, no Jardim Ângela, também na face pobre da Zona Sul paulistana. No instituto fez audição comentada de seu registro fonográfico para crianças e adolescentes.

Audição do disco de André Magalhães em Heliópolis (Foto: Christiane Rocha)

Sem condições de se expressar, elas trataram de desenhar o que ouviram. Foram traços sinceros, singelos, de amor.

Dois dias depois o músico levou a audição à Fábrica de Cultura Brasilândia, dessa vez no extremo norte da cidade. E também na Oca Escola Cultural, em Carapicuíba, na Grande São Paulo.

No Nordeste, ela já havia colocado o álbum para tocar para humildes moradores de Nova Olinda e Juazeiro do Norte, no Cariri (CE).

Audição de André Magalhães em Juazeiro do Norte (Foto: Francisco Gomide)

Foram mais de 20 audições pelo país que incluem ainda locais de ensino de música em diferentes níveis.

“Sempre gostei de fazer audição nos discos que produzi. Esse disco de produtor exprime timbres e formas, e provoca sentimentos por causa das raízes”, diz.

Ensaio autobiográfico e étnico musical

“A música pode chegar a todo mundo. Não estou esperando as pessoas virem até a mim. Estou indo a elas. Também não espero que todo mundo goste (do disco), mas que provoque sensações. A importância com essas audições é também conhecer a realidade”.

Ele conta que em um desses encontros, uma menina imaginava as experiências de André ali expostas no disco, mas queria que o músico soubesse as experiências que ela também viveu ouvindo o disco. E assim foi feito.

Para Ti – Batuque e Melodia dos Cantos, como o músico define é um ensaio autobiográfico e étnico musical. Autobiográfico e étnico porque está ali tudo vivido por André, principalmente na música, a partir dos inúmeros projetos em que se envolveu, parte expressiva matriciais de nossa cultura, como produtor, arranjador e multi-instrumentista.

Hoje, com 51 anos, contabiliza ter participado de pelo menos 800 discos seja como produtor, músico, compositor ou técnico.

Seu trabalho mais conhecido é com o grupo de pesquisa musical A Barca. Apesar de tanta rodagem, Para Ti é seu primeiro registro solo.

Sobre o trabalho

O álbum trata de sobreposições com ótimos arranjos da música tradicional com sons contemporâneos.

É um trabalho profundo, sentimental e diverso, com estímulo à imaginação.

As composições possuem influência da música indígena brasileira, tronco da cultura nacional muito menos explorada em relação, por exemplo, aos ritmos afros.

“Minha proximidade com a musicalidade indígena tem a ver com a convivência. Já fiz gravação com vários povos diferentes. Acho uma música especial, fora de padrão”, afirma André.

Fazer a incidência de vários sons, seja tradicional ou contemporâneo, não é tarefa simples e se não for bem cuidada, pode provocar “confusão” sonora. André teve atenção redobrada com isso.

“A contemporânea é mais racional e os sons tradicionais são ligados aos ancestrais. Na cultura popular não existe o palco. A contemporânea é muitas vezes feita para o palco. Essa mistura nem sempre é harmoniosa. A popular nem tem harmonia. É melodia de canto e ritmo. Como tenho convivência dos dois lados, isso facilitou a junção. Já fiz isso em diversos trabalhos”.

O disco tem oito faixas instrumentais, com inserções (muitas gravadas por André em suas pesquisas antes do disco) de cantos de domínio público, saudações e falas de personagens das tradições populares do Nordeste.

A música como cura

A música que abre o disco é Peixe com Banana e Coentro (André Magalhães e Sergio Rossoni), que o músico chama de “uma catarse”.

Depois vem Tarde de Sábado (Magalhães) com duas histórias inseridas contadas por Sebastião Biano, mestre da Banda de Pífanos de Caruaru.

Na terceira faixa, de Magalhães e Carlos Hardy, o músico coloca incidentalmente a Bata de Feijão, um canto de colheita, com uma fala de Dantas Aboiador.

“Conheci (Dantas Aboiador) quando morei em Nova Olinda, na região do Cariri. Na casa que morava tinha atrás um parque de vaquejada. Eu sempre ouvia esse canto de aboio (canto de vaqueiro na condução do gado). A questão da oralidade é forte em Dantas”.

Já a quarta, Sonhei com São João (Pedro Moura), em meio ao instrumental, tem um canção de ninar indígena Krahô e a participação do Boi Brilho da Sociedade de Curupuru (MA).

André fez questão de inserir nessa música a viola de roda, gravada por Matias Loibner na Áustria. O instrumento é medieval. “Queria usar para se aproximar com a música indígena”.

Em Ondas ao Mar (Magalhães), a faixa tem o canto de Luizinha da Tenda São José (MA); e a sexta, de nome quase similar à anterior, Ondas do Mar (Magalhães), possui participação do Toque do Terreiro Tenda de São José e Luizinha da Tenda São José.

A seguinte é dedicada à filha, com o nome de Pontada (Magalhães).

“Vivi uma depressão profunda. Estava morando em Fortaleza. O terapeuta sugeriu de fazer música. No meio desse caminho, perdi minha filha de 16 anos. Encarei o disco, que dedico a ela, como superação. O disco teve papel de cura”.

A música tem efeito da sanfona que atravessa o tempo. André gravou a batida do coração dela cinco dias antes de seu falecimento e inseriu na música.

Na oitava faixa, Para Ti, entra fala do Padre Ágio (falecido em junho último aos 101 anos), que usava a música no Cariri como elemento de evangelização e restabelecimento, equilíbrio, cura: “A música é um dom de Deus”.

O trabalho foi gravado por instrumentistas do primeiro time. E seguiu depois, para as audições, com a generosidade dos grandes operários da música. É um dos projetos musicais mais relevantes do ano.

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Jornalista há 25 anos, com passagem em diversas editorias. Foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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