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O Pulitzer, concedido na semana passada, torna-se mais diverso, mas mantém o foco sobre as grandes narrativas

Voz potente. A temática de Colson Whitehead, duas vezes ganhador do prêmio, é o racismo. Seu livro Caminhos para a Liberdade virou série na Amazon - Imagem: Amazon Prime Video
Voz potente. A temática de Colson Whitehead, duas vezes ganhador do prêmio, é o racismo. Seu livro Caminhos para a Liberdade virou série na Amazon - Imagem: Amazon Prime Video
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Causou surpresa, na semana passada, o anúncio do Prêmio Pulitzer para ficção de 2022 para The Netanyahus: An Account of a Minor and Ultimately Even Negligible Episode in the History of a Very Famous Family (Os Netanyahus: Um Relato de um Episódio Menor e, em Última Análise, Negligenciável da História de Uma Família Muito Famosa). O sexto romance de Joshua Cohen não estava sequer no top 5 nas apostas, embora já tivesse sido indicado, no ano passado, ao prêmio da associação dos críticos literários dos Estados Unidos.

Na justificativa para a escolha, o comitê do Pulitzer definiu a obra como “um romance histórico mordaz e linguisticamente hábil sobre as ambiguidades da experiência judaico-americana, apresentando ideias e disputas tão voláteis quanto seu enredo bem enrolado”. Temas ligados à “experiência americana” têm sido, há anos, o principal foco de atenção desse prêmio criado em 1917, e que, além da ficção em prosa, inclui categorias como poesia, teatro, biografia, história e jornalismo.

Publicado em meados de 2021 e inédito no Brasil, The Netanyahus combina ficção e não ficção. A narrativa está ancorada em uma figura real, o historiador polonês Benzion Netanyahu, que foi professor visitante numa universidade norte-americana, no fim dos anos de 1950, e é pai do ex-primeiro-ministro ­israelense Benjamin­ Netanyahu. A partir de um encontro do personagem com o professor e crítico literário Harold Bloom, Cohen imagina a vida dessa família nos EUA.

Ainda que nomes de peso da prosa literária contemporânea estejam fora da lista do Pulitzer – caso de Don DeLillo, Joyce Carol Oates, Joy Williams e Thomas ­Pynchon –, o rol de vencedores, ao longo do século XXI, é bastante simbólico da força da literatura produzida hoje no país.

Joshua Cohen, o vencedor de 2022, se debruça sobre as experiências judaicas nos EUA

Com uma prosa instigante, autores como Jeffrey Eugenides, de Middlesex (Companhia das Letras) e Viet Thanh Nguyen, de O Simpatizante (Alfaguara) oferecem retratos certeiros de certo estado de coisas, incorporando às suas histórias temas urgentes, como as crises econômica e identitária. “Os confrontos com o neoliberalismo são uma questão cara à literatura contemporânea dos Estados Unidos”, diz, em entrevista a ­CartaCapital, Emilio Sauri, professor do departamento de inglês da University of Massachusetts Boston.

Nos anos recentes, as questões identitárias também ganharam relevância. Nome de proa da literatura norte-americana atual e duas vezes ganhador do ­Pulitzer, Colson Whitehead, por exemplo, investiga o racismo estrutural em ambos os livros laureados – publicados no Brasil pela Harper Collins.

The Underground Railroad – Caminhos para a Liberdade, tornado série pela Amazon Prime Video, aborda a escravidão na formação histórica dos EUA. Já O Reformatório Nickel parte de um cenário real – a instituição do título, onde os dois afro-americanos que protagonizam o livro passaram a juventude – para mostrar como a identidade pode ser forjada a partir do trauma e da opressão.

Trata-se de dois romances históricos que tocam em feridas do presente norte-americano. Coincidentemente, O Reformatório Nickel foi premiado poucas semanas antes da morte de George Floyd e das manifestações que se seguiram ao crime. O Pulitzer não podia ter feito escolha mais oportuna. Mas o valor da obra de Whitehead está longe de ser apenas político. Ele é um dos grandes escritores do país, capaz de encarar temas urgentes sem rodeios ou concessões, mas também sem cair na escrita discursiva.

Apesar de os ganhadores serem escolhidos, de acordo com as premissas do prêmio, por lidar “preferencialmente com a vida americana”, há exceções. É esse o caso de Toda a Luz Que Não Podemos Ver, de Anthony Doerr, premiado em 2015. Narrada em capítulos curtos, a história se passa na França, durante a Segunda Guerra Mundial, e é protagonizada por uma jovem cega que foge para o interior do ­país, quando Paris é ocupada pelos nazistas.

Trama. O romance de Doerr, bestseller internacional, vai virar seriado na Netflix – Imagem: Isabelly Selby

Assim como Whitehead, Doerr verá sua obra migrar para o audiovisual. No início deste ano, a Netflix anunciou a transformação de Toda a Luz Que Não Podemos Ver em uma minissérie, em quatro episódios, que trará no elenco Mark Ruffalo e, no papel principal, a atriz Aria Mia Loberti, deficiente visual. O livro, logo após a premiação, passou meses na lista dos mais vendidos do The New York Times e não demorou para se tornar um best seller internacional.

James F. English, professor da University of Pennsylvania, cunhou o termo “economia do prestígio” em um livro que leva esse nome, para analisar de que forma os prêmios se inserem na dinâmica do mercado. “É um processo que não acontece sem uma série de transações complexas envolvendo mais do que apenas artistas e seu trabalho”, escreve. “Não há dúvida de que esses prêmios famosos fazem maravilhas para aumentar as vendas e o destaque dos livros que os conquistam”, afirma Carl Freedman, professor de literatura da Louisiana State University

O escritor Michael Cunningham viveu na pele esse impacto. Em entrevista a CartaCapital, concedida por e-mail, ele lembra de quanto sua carreira mudou após o prêmio concedido em 1999 para As Horas (Companhia das Letras). “Fiquei, acima de tudo, surpreso com a diferença que o prêmio fez”, diz. “De repente, o livro começou a receber muito mais atenção do que havia recebido desde a sua publicação.”

Alguns anos depois, o romance ficaria ainda mais em evidência. “Um selo de ‘Vencedor do Pulitzer’ na capa do livro foi o que inspirou um produtor de cinema a transformá-lo em filme, que, também surpreendentemente, foi um enorme sucesso”, afirma o autor. A adaptação cinematográfica de As Horas foi protagonizada por Meryl Streep, Julianne Moore e ­Nicole ­Kidman. Ela, que vive Virginia Woolf no filme, ganhou um Oscar pelo papel.

Ainda que tamanho êxito seja exceção, o selo “Vencedor do Pulitzer” tende a ser garantia de alguma visibilidade nas livrarias e de tradução em diversos idiomas. Dos 21 vencedores no século XXI, 17 foram traduzidos e lançados no Brasil.

É possível pensar em diversas explicações para o fato de cinco dos romances premiados não terem saído aqui. Mas a mais óbvia é a mercadológica. Por exemplo, The Overstory, de Richard Powers, premiado em 2019, é um romance de mais de 500 páginas sobre árvores. Ou seja, dificilmente chegaria à lista dos mais vendidos.

“O confronto com o neoliberalismo é uma questão cara à literatura dos EUA”, diz Sauri

O prêmio, por sua vez, parece, cada vez mais, espelhar o princípio da diversidade que tem marcado a produção cultural contemporânea e que, motivações mercadológicas à parte, inegavelmente carrega consigo uma ampliação de vozes e palavras. “Historicamente, os prêmios tendem a ignorar os escritores afro-americanos, mas esperamos que isso tenha mudado agora”, afirma Freedman.

O processo de escolha do prêmio, no valor de 15 mil dólares, é claro: a cada ano, um novo júri é formado por especialistas da área e seleciona três finalistas, e o Conselho do Pulitzer vota o vencedor.

English, em seu livro, defende que, mesmo com júris tão variados, o ­Pulitzer tende a fazer escolhas seguras e consensuais. Não à toa, prevalecem narrativas mais convencionais, muitas das quais tratam de questões históricas americanas e suas reverberações no presente.

O experimentalismo é raras vezes acolhido. O exemplar mais recente é A ­Visita Cruel do Tempo, de Jennifer Egan, ganhador em 2011. O livro aborda as desventuras da vida contemporânea, dominada pela tecnologia, tendo, como contraponto, um olhar nostálgico para os anos de 1970. A trama é composta de uma coletânea de contos interligados que funcionam como hiperlinks, que, no conjunto, compõem uma narrativa maior.

E também não podemos nos esquecer de que a relevância da literatura norte-americana se estende, obviamente, muito além da vitrine do Pulitzer. Sauri lembra, nesse sentido, que a ficção científica, em geral ausente dos prêmios, é o gênero tipicamente norte-americano. “Essa literatura tem um papel fundamental em mapear os becos sem saída do capitalismo global, e as possíveis linhas de combate”, diz, citando, especificamente, Anne Leckie e Kim Stanley Robinson.

Dentre a produção com maior complexidade estilística, alguns dos livros que têm se destacado em outros prêmios – como o também americano National Book Award ou o inglês Booker Prize – e conseguido boas críticas e algum sucesso de público são Topeka School (Rocco), de Ben Lerner, finalista do Pulitzer, Os Lança-chamas­ (Iluminuras), de Rachel Kushner, A Metade Perdida (Intrínseca), de Brit Bennett, e Sobre a Terra Somos Todos Belos por um Instante (Rocco), de Ocean Voung.

Desde o pós-Segunda Guerra Mundial, a literatura norte-americana ­ocupa posição hegemônica no mercado global, sendo a mais traduzida e a mais lida. E ainda que isso se deva ao domínio político e econômico do país, tampouco se pode desconsiderar a excelência de parte do que é produzido nos EUA.

E, assim como no passado, para cada Sidney Sheldon havia um Philip ­Roth, hoje, para cada 50 Tons de Cinza há um Meu Ano de Descanso e Relaxamento (Todavia), de Ottessa Moshfegh, romance de alta qualidade literária e sucesso de vendas – também no Brasil. •

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1209 DE CARTACAPITAL, EM 25 DE MAIO DE 2022.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título “América, América”

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Alysson Oliveira

Alysson Oliveira
Alysson Oliveira é jornalista, mestre e doutor em Letras pela FFLCH-USP, onde realiza também pesquisa de pós-doutorado. Escreve sobre livros para a CartaCapital.

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