Álbum síntese da música, Clube da Esquina foi concebido há 50 anos

Faz 5 décadas que Milton Nascimento, Lô Borges e cia. produziram um dos registros fonográficos mais emblemáticos da história musical do País

Beto Guedes, Milton Nascimento e Lô Borges na Praia de Piratininga, Niterói. Foto: arquivo Clube da Esquina.

Beto Guedes, Milton Nascimento e Lô Borges na Praia de Piratininga, Niterói. Foto: arquivo Clube da Esquina.

Cultura

Na então deserta praia de Piratininga, em Niterói, no longínquo ano de 1971, Milton Nascimento, Lô Borges e Beto Guedes recebiam a visita de Márcio Borges, Fernando Brant (já falecido) e Ronaldo Bastos (este, de fato, o único niteroiense do grupo).

Desses encontros saíram quase todas as composições do álbum duplo, com 21 faixas, que começaria a ser produzido naquele mesmo ano: o Clube da Esquina. O trabalho teve ainda participação de Toninho Horta, Tavito, Nelson Angelo, Wagner Tiso, Eumir Deodato, Robertinho Silva, Luiz Alves, entre outras participações.

O título da obra acabou fixando o nome do movimento musical que os músicos citados acima integram, acrescidos de outros ao longo do tempo, como Flávio Venturini e Tavinho Moura. O grupo é majoritariamente de Minas Gerais.

Ivan Vilela, violeiro, compositor, arranjador e pesquisador tem há mais uma década estudado o movimento em seu aspecto voltado às inovações musicais introduzidas por seus músicos. E elas foram fortes e emblemáticas, principalmente no álbum do mesmo nome lançado em 1972, no ano seguinte a sua concepção.

“Além de ter sido um disco síntese da música brasileira, foi também um álbum que trouxe novos paradigmas. Construiu a ponte da música brasileira com a música andina, e firmou o uso do falsete como um recurso tímbrico e não como uma última alternativa pra se alcançar a nota musical desejada”, diz Ivan Vilela.

E prossegue: “Inseriu ainda a música banto-mineira como uma nova referência de afro-brasilidade no cenário musical. Trouxe uma nova maneira de se utilizar os acordes nas canções e elementos do cante jondo (estilo musical) andaluz à música popular”.

 

Percussão

Segundo o pesquisador, o Clube da Esquina deu a percussão “uma nova estatura”, deixando de ser usada apenas como acompanhamento rítmico da canção: “Tornou-se um elemento com vida própria no contexto musical, onde os instrumentos harmônicos trabalhavam como ideias e estruturas percussivas”.

No que se refere ainda às abordagens rítmicas, Milton traz outra matriz de referência afro-brasileira para dentro da MPB, afirma Ivan. “Note que o ritmo que dá suporte à canção Tudo o que Você Podia Ser (Lô e Marcio Borges; a música abre o álbum duplo) está muito próximo de matrizes musicais banto-mineiras, como o batuque mineiro, a congada e o candombe”.

A canção Cravo e Canela (Milton e Ronaldo Bastos), lembra Ivan, foi (mal) entendida pela crítica e pelos músicos da época como um “samba em três”, movendo a esfera do congado mineiro para o universo rítmico do samba carioca.

“Ora, samba é em dois tempos, nunca em três. Foi mais uma vez a limitação do olhar etnocêntrico de não perceber a multiculturalidade do país”, afirma. O uso de percussões mais densas e complexas no álbum, mais do que um mero acompanhamento, pode ser percebido também em Cais (Milton e Ronaldo Bastos) e em San Vicente (Milton e Fernando Brant).

Ivan menciona também que o uso de pulsações incomuns como os compassos em cinco tempos estabeleceram um novo conceito de psicodelia sonora, comparando com outros movimentos musicais que surgiram na época, os quais a manifestação psicodélica era referência.

O Clube da Esquina, para o estudioso, antecipou o que se chamou uma década depois de conceito de world music, fundindo sonoridades de culturas locais com o rock. A música Lilia, do disco, composta por Milton Nascimento e interpretada por ele mesmo, expressa bem essa ideia.

 

Sonoridades

O quarto disco solo de Milton Nascimento, de 1970, já se notava diferentes sonoridades para aquele período de formação da chamada MPB. O cantor, que já tinha gravado os compositores Ronaldo Bastos, Márcio Borges e Fernando Brant, integrava ao grupo o jovem Lô Borges. Aí vem o disco Clube da Esquina, cujos autores principais e líderes do trabalho são Milton Nascimento e Lô Borges.

Ivan Vilela avalia que Lô, ao lado de Milton, são as figuras centrais no que tange à inovação, quanto ao quesito composição, bem compartilhados pelos outros companheiros do Clube.

“Se por um lado Lô traz um frescor no que se refere às composições com elementos do rock revelados por melodismos de rara beleza e alternativas harmônicas (acordes) inusuais, como em O Trem azul (Lô e Ronaldo Bastos), Milton também o faz construindo pela primeira vez na MPB a ponte com a música andina, e apresentando uma África que não veio pela via do samba”.

Os arranjos do disco foram coletivos e somaram-se às orquestrações de Eumir Deodato e de Wagner Tiso. O resultado foi excepcional e diferente do que já havia sido feito pela música brasileira até aquele momento.

Para Ivan Vilela, entre as faixas que expressam a força e a inovação da instrumentação musical do álbum, está a marcha-rancho Pelo Amor de Deus (Milton e Fernando Brant), o samba Me Deixa em Paz (Monsueto e Ayrton Amorim) – no disco, a música é interpretada por Milton e Alaíde Costa -, o bolero Dos Cruces (Carmelo Larrea) e Um Girassol da Cor de Seus Cabelos (Lô e Márcio Borges).

A elaboração dos arranjos do álbum Clube da Esquina destoa da forma com que a produção do disco se deu, em que todos os seus participantes tocavam vários instrumentos ali, na hora, com composições feitas da noite para o dia. A atitude de Milton, já com a carreira estabelecida na época, de creditar a cada um dos músicos autonomia no processo criativo, para o pesquisador ajudou bastante para o resultado do disco.

Quando um músico pega pra tocar um instrumento que não é de seu domínio usual acontecem alguns fatores: “O primeiro, é que ele pode ousar em caminhos pouco convencionais; em segundo, a sonoridade nunca fica limpa, brilhante como a do dono do instrumento, o que acaba por trazer um conceito presente em segmentos como o da música caipira ou das músicas folclóricas, onde o rústico perde a conotação de adjetivo e ganha a de substantivo – longe de ser uma falha, mas uma nova abordagem tímbrica”. Essa prática adotada no disco não era comum nas gravações da MPB.

“Mais do que apenas a capacidade técnica de cada um, estava em jogo a força da construção musical quando ela é feita em conjunto, numa mentalidade de grupo e não individual”.

 

Letras

Sobre as letras das canções do álbum Clube da Esquina, Ivan Vilela diz ter várias narrativas, algumas como montagens cinematográficas, outras como um chamado a um novo tempo, algumas com temática política camuflada em alegorias.

O disco teve reflexo musical grande. “Esses músicos conseguiram criar uma música que até hoje soa como nova, com um frescor incrível. Algumas dessas atitudes impressas nesse disco permanecem como referencial para as gerações vindouras de músicos, sobretudo no olhar para as harmonias e na maneira de se construir sínteses entre o contemporâneo e as raízes”, finaliza.

Junte-se ao grupo de CartaCapital no Telegram

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!

Jornalista há 25 anos, com passagem em diversas editorias. Foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

Compartilhar postagem