Cultura
Afeto reparador
“Amor”, de Michael Haneke, trata a velhice com emoção, mas sem querer amenizar a dureza do fim
Amor
Michael Haneke
Amor, em cartaz a partir de sexta 18, é um daqueles filmes que propõem de imediato uma espécie de pacto com o espectador. Seu drama anunciado sem muitas delongas no início diz respeito às consequências gerais da velhice e no caso de uma particular e sofrida perda da sanidade mental e física. Apresentada a condição, o filme de produção francesa do austríaco Michael Haneke, premiado com a Palma de Ouro de Cannes do ano passado e favorito ao Oscar na categoria de estrangeiros, cumprirá com esmero a tarefa de acompanhar o doloroso destino da vítima. Natural por certo, incontornável como se sabe, mas não desprovido de uma cláusula essencial nesse contrato.
Daí o título, que atenta ao algo mais que está em jogo, o grande afeto, o amor entre as partes envolvidas.
É o que torna o filme, por assim dizer, terno e fortemente emotivo sem, no entanto, querer amenizar a dureza da situação. A beleza e o encanto inesperados provêm do casal Anne (a grande Emmanuelle Riva, de Hiroshima Mon Amour) e Georges (outro mito, Jean-Louis Trintignant), unidos em Paris pela convivência tranquila de anos e também pela música clássica. Quando surgem os sinais da degenerescência dela, assomam os cuidados e a dedicação do marido, levado a partir daí a uma prova de limites. É, acima de tudo, sobre o peso de suportar o fardo pela via do sentimento amoroso de que nos fala Haneke, certo de que não cabe a mais ninguém, nem à filha (Isabelle Huppert), o poder de uma última decisão.
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