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Aceitar a queda

Derrocada, de Tiago Ferro, nos lembra de como nos fazem falta livros nos quais os personagens caem sem a possibilidade de se levantar ao final

Aceitar a queda
Aceitar a queda
Estranhamentos. Ferro tece um diálogo com Doutor Fausto – Imagem: Eva Becerra/Festival Internacional do Livro de Guadalajara/MX
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“A contemplação da perda de uma força civilizatória não deixa de ser civilizatória a seu modo.” Essa intuição precisa de Roberto Schwarz a respeito do horizonte contemporâneo de possibilidades com o qual o pensamento crítico deve saber lidar é uma boa porta de entrada para o último romance de Tiago Ferro, Derrocada.

Talvez saber contemplar a derrocada das promessas civilizatórias seja a última maneira de ser fiel a algo do que elas um dia prometeram.

Pois é bem possível que uma das funções que restaram ao romance contemporâneo seja exatamente essa: contemplar a queda, não por resignação, mas como expressão de um compromisso dramático com o que não encontra mais formas de se realizar.

Como se fosse questão de não fazer do romance o espaço de conciliações extorquidas, de redenções morais duvidosas ou sublimações que só servem para fingir que a queda não é assim tão funda.

Melhor escrever sobre a derrocada de si, do personagem social que representamos, nem que seja para não sermos obrigados a participar dos festivais literários da Boa-Vontade-Premiada-ao-Final.

Nesse sentido, Derrocada anda na contramão da literatura brasileira atual, com seus bravos personagens que redimem suas feridas de classe ou que constroem seu orgulho a despeito de tudo. O romance nos lembra como nos fazem falta livros que deixam seus personagens cair sem possibilidade de se levantar ao final.

Quarto livro de Ferro – que sucede dois romances e um livro de ensaios –, o romance nos convida a seguir a derrocada de um professor de literatura que decide se mudar para um quarto e sala semivazio no centro degradado de São Paulo depois do divórcio.

Enquanto medita sobre como chegou até tal situação de despossessão, ele relembra seu casamento com a filha progressista e letrada de uma família de advogados ricos especializados em garantir direito de defesa para abastados e rentistas.

Relembra de como gostava da casa de campo da família, com seus espaços de leitura. Relembra a modesta e precária ascensão de classe de sua família, de imigrantes italianos que viviam em um dos bairros operários de São Paulo e mudam-se para o bairro ao lado, um pouco melhor. Família que parece brutalmente normal em seu sistema de preconceitos difusos, de posições políticas indefinidas, até que um dia um dos seus acaba no noticiário nacional por alguma forma de atentado de extrema-direita.

Derrocada. Tiago Ferro. Galáxia / e-galáxia (130 págs., 41,90 reais)

Esse quadro de trânsfugas de classe que acabam por voltar ao mesmo lugar é a sobreposição de várias histórias de esgotamentos. Inicialmente, é o esgotamento de uma classe intelectual que não apenas foi cúmplice feliz de seu aburguesamento e de suas estabilidades institucionais – o protagonista é funcionário público de ensino superior em um mundo que acelerava sua própria decomposição. Essa classe foi também incapaz de ver o acirramento de nossas crises, com explicações finas e sutis que nos ajudavam a não ver o fascismo sempre presente à nossa volta, prestes a reaparecer como se fosse um fato inesperado travestido de surpresa.

Nesse ponto, Derrocada tece um diá­logo com Doutor Fausto e sua maneira de nos levar a paulatinamente deduzir a catástrofe em marcha a partir dos estranhamentos de uma vida ordinária à nossa volta que, até então, parecia inofensiva.

Essa referência a Thomas Mann não está aqui por acaso. Pois Derrocada é um livro que consegue criar-se a partir da dissolução dos limites da forma-romance, e essa é uma de suas maiores forças. É do esgotamento da aparência estética que se trata aqui.

O personagem de um professor de literatura serve para a narrativa literária se entremear de reflexões sobre o colapso do romance de formação através da ascensão da autoficção, sobre como momentos centrais do romance moderno, como Kafka e, principalmente, Mann, permanecem pelas suas formas de imbricação entre literatura e crítica social que ainda nos assombram.

Ou seja, Derrocada é um desses raros livros que vêm dessa zona de indistinção entre literatura e crítica literária, que têm a força de não recusar nenhum dos dois, como se fosse o caso de uma obra que já é seu próprio comentário, de um ato de escrita que já é a apropriação reflexiva de si mesmo, já é o tomar distância de si. Ato que é o pensamento de sua própria situação. Ato que um dia a autonomia estética nos prometeu.

E, dessa forma, Tiago Ferro pensa o esgotamento do próprio País, sua derrocada irrefreável e a impotência da literatura diante dela. No entanto, como lembrei no início, a contemplação da perda de uma força civilizatória não deixa de ser civilizatória a seu modo.

Essa impotência da literatura ainda é uma de suas últimas astúcias. Pois a literatura é um lugar singular, no qual a coragem de observar inerte seu próprio fim é uma forma de sustentar uma raiva pelo que nos tornamos e pelo que gostaríamos de não mais ser, sem ter de entregar alguma imagem do que virá. Não entregar por respeito à imaginação em queda e que permanece fiel a si mesma até na queda. •

Publicado na edição n° 1419 de CartaCapital, em 30 de junho de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Aceitar a queda’

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