Cultura
Abertura do erudito ao popular marca a história da música clássica no País
Para o pesquisador Irineu Franco Perpetuo, as manifestações folclóricas sempre foram fonte importante para os compositores clássicos
No livro História Concisa da Música Clássica Brasileira (Alameda Casa editorial), de Irineu Franco Perpetuo, lançado outro dia em versão atualizada, chama a atenção o quanto os compositores mais conhecidos da música clássica brasileira interagiram (e interagem), de alguma forma, com a música popular.
Cito alguns deles mais lembrados, como Carlos Gomes, Chiquinha Gonzaga, Francisco Mignone, Camargo Guarnieri, Ernesto Nazareth, Villa Lobos, Radamés Gnattali e Guerra-Peixe. E pelo menos dois nomes bem conhecidos hoje na ativa: Egberto Gismonti e André Mehmari.
“Não diria que todos os compositores mais conhecidos ou importantes da nossa música clássica bebem na fonte do popular”, diz o autor do livro. “Mas diria que essa é uma vertente bem importante”.
Carlos Gomes fez modinha, que ao lado do lundu foram os gêneros musicais que deram ascendência à música popular brasileira. Chiquinha Gonzaga é autora da mais célebre marcha-rancho: Ó Abra Alas, de 1899. Alguns compositores eruditos brasileiros são historicamente ligados ao choro e outros muito identificados com a MPB. A criação de obras usando elementos musicais tipicamente da cultura popular é também presente.
Para o jornalista e pesquisador de música clássica, Irineu Franco Perpetuo, “historicamente, as músicas populares ou folclóricas sempre foram, em maior ou menor grau, uma fonte importante para os compositores clássicos. Nesse sentido, é um fenômeno bem abrangente e internacional”.
Mas ele ressalta a questão brasileira: “No nosso caso específico, é impossível negar a pujança e a importância da nossa música popular. A música popular é a mais importante manifestação cultural do Brasil, a mais reconhecida internacionalmente”. Com isso, a interação não foi tão difícil.
“Então nós temos e tivemos compositores que ou cruzaram incessantemente as fronteiras entre popular e erudito, ou que, mesmo se mantendo firmes do lado erudito da fronteira, estiveram abertos ao que acontecia na parte popular”.
História
No livro, o jornalista trata da construção da vida cultura no Brasil desde a época que os portugueses aqui chegaram. Aliás, pouco existiu no início a não ser a exploração da rica terra.
As missões religiosas, que eram itinerantes, utilizavam a música como catequese. Os lugares de orada também se propagavam música. Foram os primeiros sons chegados de fora. A descrição das práticas musicais indígenas, ou seja, do povo nativo, daquela época surge parca também nos relatos daquele período.
A obra de Irineu cita ainda que não há registro de partitura alguma da América portuguesa anterior ao século XVIII. Não se notícia formal do que se tocava num período em que não se imprimia nada. Mas sabe-se que havia alguma atividade musical, até profana, de instrumento de corda, inclusive.
A partitura dita mais antiga composta no Brasil, de 1759 (manuscritos de Mogi das Cruzes descobertos duas décadas antes também disputam essa primazia, mas há pouca informação), é uma ópera, seguindo uma característica da Coroa Portuguesa.
Naquele tempo haviam casas de ópera por aqui. Há de se destacar ainda os centros urbanos formados no Ciclo do Ouro, em Minas Gerais, que desenvolvia atividades musicais intensas, religiosas ou não, de uma população de não-nativos provenientes de vários lugares.
Mas foi a mudança da família real portuguesa para o Brasil que o País criou acervo respeitável sobre música, além de intercâmbio mais frequente com a Europa. Sob Dom Pedro II, em um País já independente de Portugal, mas no regime monárquico, criava-se a Imperial Academia de Música & Ópera Nacional de promoção de talentos nacionais.
Nesse âmbito, surgiu o primeiro nome de expressão, reconhecido até hoje: Carlos Gomes, que foi parar na época no Teatro alla Scala em Milão. Para aqueles tempos era um feito e tanto para um brasileiro.
Lembro que estamos falando aqui somente de música clássica. Aí vieram outros, nos variados gêneros do segmento: cantata, concerto, música de câmara, sinfonias, valsas etc.
Inesperadamente, surgiu a primeira maestrina do País, Chiquinha Gonzaga. Mulher de modos avançados à época. Francisco Mignone, pianista, regente e compositor, produziu muito com absoluto domínio do piano.
O compositor Camargo Guarnieri, ganhador de vários prêmios internacionais. O brilhante pianista-compositor e bastante executado ainda hoje, Ernesto Nazareth. O maior de todos: Villa Lobos. Das peças desses autores retratou-se muito os aspectos e características pitorescas do Brasil por meio da música.
“Creio que nossa música clássica não tem a repercussão internacional de nossa música popular, em primeiro lugar, porque ainda não fizemos a ‘lição de casa’, ou seja, ainda não lhe demos o devido reconhecimento”, afirma Irineu Franco perpetuo.
“Essa música ainda precisa ser devidamente conhecida, tocada e discutida no Brasil, se quisermos que um dia isso aconteça fora do país”, acrescenta.
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