Cultura

A xenofobia ganha outro significado

Quem precisa da turma do Bordeaux e do Piemonte? Um São Roque encorpado é quase um Barolão

A xenofobia ganha outro significado
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O vinho
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A notícia começou a circular na miúda, mas já está adquirindo ares de indignação. O governo parece estar cheio de ideias para atrapalhar, e muito, a vida dos importadores de vinho, dos pequenos produtores de vinho e, finalmente, dos apreciadores de vinho. A primeira ideia, nada criativa, simplesmente aumenta a taxa de imposto. Imediatamente, o vinho importado fica ainda mais caro.

Outra ideia mais criativa seria instituir um selo fiscal. Funcionaria mais ou menos assim: você compra os selos antes e, à medida que for produzindo as garrafas, vai aplicando o selo. É um jeito superprático para você pagar impostos antecipadamente. E, caso você seja um pequeno produtor e não disponha de uma coladeira automática, poderá gerar empregos. A fascinante ocupação de colador de selos fiscais.

E não pense você que para comprar esse selo vai ser fácil, não. Eu não faço a  menor ideia sobre como as coisas vão se organizar, mas aposto minha fortuna que não bastará ir até uma agência dos Correios ou do Banco do Brasil e pedir 200 selos fiscais. Mas você, brasileiro, orgulhe-se ao ver uma garrafa com o tal selo. Apesar de pequeno, ele indica que os impostos foram pagos e que seu filho terá  acesso ao ensino gratuito de bom nível, segurança e serviços de saúde de Primeiro Mundo. Somos, não somos? A medalha de sexta economia só ganha quem entra no Primeiro Mundo, certo?

E mais: imbuídos de um verde-amarelismo nunca antes visto na história deste país, estão prestes a determinar que nos rótulos dos estrangeiros, dos invasores, as palavras estejam escritas em bom português. Agora me diga: que produtor francês, italiano, espanhol (o produtor de Portugal não vai se safar, não, por causa da lusofonia. Vai ter de escrever em português do Brasil), norte-americano, entre outros, vai se negar a tomar essa simples providência: imprimir rótulos especiais para nós?

O Brasil é o sonho de consumo de qualquer produtor do planeta. Se uma garrafa de um Borgonha bem razoável de 150 reais passar a custar mil reais, teremos compradores. Mas é provável que essa garrafa chegue a custar 3 mil se a outra e mais sensacional ideia vingar: a criação de cotas por país. O assunto todo tem sido muito discutido. Como sempre se faz necessário deixar a poeira baixar para que não se cometa o pecado de mal interpretar todas as intenções do governo.

Por ora, ainda com a poeira alta, eu diria que não me agradam essas sugestões que, certamente, vão beneficiar os grandes produtores de vinhos nacionais. Como é de meu costume, feitio, digo logo sem receios: não gosto dos vinhos nacionais. Alguns espumantes são de fato bons e ponto final.

Avançamos? Sim. Muito. Chegamos lá? Acho que não. Mas boa parte da imprensa nacional acha que sim. Recentemente, o vinho verde-amarelo tem recebido louros e láureas como jamais se viu. Pois agora aí está:  todos os apreciadores  terão a oportunidade de se especializar em vinhos nacionais. Confrarias, cursos para descobrir, perceber e apreciar as pe-culiaridades do Terroir do norte da Serra Gaúcha versus. o sul da Serra.

Quem precisa da turma de Bordeaux? Piemonte? Vai me dizer que um São Roque bem encorpadão não chega perto de um Barolão? É só ter boa vontade e ser, acima de tudo, patriota! Mais leis? Sou favorável à criação de uma que obrigue o solo brasileiro a produzir trufas brancas. E aproveitando a canetada, mais uma: todo bosque brasileiro deverá fazer brotar espontaneamente de seu solo cogumelos porcini e giroles, assim como toda flor, doravante, deve produzir pistilos com boa quantidade de açafrão espanhol. Muito ainda a ser discutido. E sobre o novo significado de xenofobia, basta decupar a palavra xENOFOBIA – aversão a vinho estrangeiro

A notícia começou a circular na miúda, mas já está adquirindo ares de indignação. O governo parece estar cheio de ideias para atrapalhar, e muito, a vida dos importadores de vinho, dos pequenos produtores de vinho e, finalmente, dos apreciadores de vinho. A primeira ideia, nada criativa, simplesmente aumenta a taxa de imposto. Imediatamente, o vinho importado fica ainda mais caro.

Outra ideia mais criativa seria instituir um selo fiscal. Funcionaria mais ou menos assim: você compra os selos antes e, à medida que for produzindo as garrafas, vai aplicando o selo. É um jeito superprático para você pagar impostos antecipadamente. E, caso você seja um pequeno produtor e não disponha de uma coladeira automática, poderá gerar empregos. A fascinante ocupação de colador de selos fiscais.

E não pense você que para comprar esse selo vai ser fácil, não. Eu não faço a  menor ideia sobre como as coisas vão se organizar, mas aposto minha fortuna que não bastará ir até uma agência dos Correios ou do Banco do Brasil e pedir 200 selos fiscais. Mas você, brasileiro, orgulhe-se ao ver uma garrafa com o tal selo. Apesar de pequeno, ele indica que os impostos foram pagos e que seu filho terá  acesso ao ensino gratuito de bom nível, segurança e serviços de saúde de Primeiro Mundo. Somos, não somos? A medalha de sexta economia só ganha quem entra no Primeiro Mundo, certo?

E mais: imbuídos de um verde-amarelismo nunca antes visto na história deste país, estão prestes a determinar que nos rótulos dos estrangeiros, dos invasores, as palavras estejam escritas em bom português. Agora me diga: que produtor francês, italiano, espanhol (o produtor de Portugal não vai se safar, não, por causa da lusofonia. Vai ter de escrever em português do Brasil), norte-americano, entre outros, vai se negar a tomar essa simples providência: imprimir rótulos especiais para nós?

O Brasil é o sonho de consumo de qualquer produtor do planeta. Se uma garrafa de um Borgonha bem razoável de 150 reais passar a custar mil reais, teremos compradores. Mas é provável que essa garrafa chegue a custar 3 mil se a outra e mais sensacional ideia vingar: a criação de cotas por país. O assunto todo tem sido muito discutido. Como sempre se faz necessário deixar a poeira baixar para que não se cometa o pecado de mal interpretar todas as intenções do governo.

Por ora, ainda com a poeira alta, eu diria que não me agradam essas sugestões que, certamente, vão beneficiar os grandes produtores de vinhos nacionais. Como é de meu costume, feitio, digo logo sem receios: não gosto dos vinhos nacionais. Alguns espumantes são de fato bons e ponto final.

Avançamos? Sim. Muito. Chegamos lá? Acho que não. Mas boa parte da imprensa nacional acha que sim. Recentemente, o vinho verde-amarelo tem recebido louros e láureas como jamais se viu. Pois agora aí está:  todos os apreciadores  terão a oportunidade de se especializar em vinhos nacionais. Confrarias, cursos para descobrir, perceber e apreciar as pe-culiaridades do Terroir do norte da Serra Gaúcha versus. o sul da Serra.

Quem precisa da turma de Bordeaux? Piemonte? Vai me dizer que um São Roque bem encorpadão não chega perto de um Barolão? É só ter boa vontade e ser, acima de tudo, patriota! Mais leis? Sou favorável à criação de uma que obrigue o solo brasileiro a produzir trufas brancas. E aproveitando a canetada, mais uma: todo bosque brasileiro deverá fazer brotar espontaneamente de seu solo cogumelos porcini e giroles, assim como toda flor, doravante, deve produzir pistilos com boa quantidade de açafrão espanhol. Muito ainda a ser discutido. E sobre o novo significado de xenofobia, basta decupar a palavra xENOFOBIA – aversão a vinho estrangeiro

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