Cultura
A vida não tão bela
Em Uma Infância Alemã, Fatih Akin reconstitui as memórias de seu mentor, Hark Bohm, filho de um nazista
O título brasileiro, Uma Infância Alemã, pode transmitir uma ideia ampla e genérica do novo filme dirigido por Fatih Akin, em cartaz nos cinemas desde a quinta-feira 25. O original, Amrum, é mais específico: designa a ilha onde a ação se passa.
O filme, ambientado na Alemanha, na primavera de 1945, nos últimos dias da Segunda Guerra Mundial, capta as reações à ascensão nazista, nos anos 1930, naquele pedaço de terra.
Uma Infância Alemã acompanha a rotina de Nanning, garoto de 12 anos que trabalha em fazendas próximas para alimentar a família enquanto o pai está ausente. A mãe, grávida, atravessa um momento de fragilidade.
A questão é que seu pai é um oficial nazista, e a mãe, fervorosa defensora dos ideais de Hitler. Essa identidade familiar gera conflitos e desconfortos no vilarejo abertamente contrário ao regime.
O longa-metragem, originalmente, seria dirigido por Hark Bohm, importante nome do Novo Cinema alemão, parceiro de Rainer Fassbinder em vários projetos. Bohm, no entanto, adoeceu durante a pré-produção e pediu para o diretor turco-alemão Fatih Akin assumir o filme.
Havia algo de afetivo nisso, já que o roteiro é inspirado nas experiências de infância e juventude do próprio Bohm, de quem Akin é discípulo.
O filme estreou numa sessão especial do Festival de Cannes, em maio de 2025. Bohm morreu em novembro do mesmo ano, aos 86 anos, poucas semanas após a estreia da produção nos cinemas alemães.
Pelas lentes de Akin, Uma Infância Alemã se desapega da aproximação entre retrato e retratado e exibe um olhar mais frio sobre as relações postas em cena. Isso dá certo frescor à direção.
Em entrevistas, Akin, autor de uma filmografia urbana e sufocante, disse nunca ter se sentido tão bem quanto no período dessas filmagens, na própria ilha de Amrum e em locações na Dinamarca e Hamburgo.
Distante da Hamburgo onde vive, o diretor pôde concentrar-se totalmente no trabalho e na vivência local.
O olhar de fora sobre a infância de outra pessoa e sobre vidas marcadas por tensões e contradições políticas e econômicas semelhantes às do presente potencializa a força dramática das situações-limite retratadas.
“Não tenho culpa pelo que meus pais fizeram”, grita o alter ego de Bohm a alguém da vila prejudicado pelos nazistas. O menino ouve a resposta: “Mas toda vez que te vejo, penso no seu pai”.
É de embates como esse que se sustenta o filme de Akin, bonito tributo a seu mentor, alimentado por referências do neorrealismo italiano, em especial a Roberto Rossellini e seu Stromboli (1950). •
Publicado na edição n° 1419 de CartaCapital, em 30 de junho de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘A vida não tão bela’
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