Cultura
A vida é sonho, e também palco
Ana Lúcia Torre e Othon Bastos seguem em cena com duas peças nas quais arte, biografia e memória se cruzam
Há quem diga que a vida é uma festa. No caso de Ana Lúcia Torre e Othon Bastos, ela é, na verdade, uma peça. Decanos do teatro brasileiro, os dois atores decidiram dividir momentos de suas trajetórias no lugar onde boa parte delas foi construída: o palco. Desse estalo surgiram dois monólogos que têm lotado as salas por onde passam: Olhos nos Olhos e Não Me Entrego, Não!
Os espetáculos, ao mesmo tempo que humanizam personalidades do imaginário cultural brasileiro, ajudam o público a remontar pedaços da história do País.
No caso de Ana Lúcia, o desejo de falar de si foi motivado por um problema de saúde. Apesar da demora no diagnóstico, o que ela sentia era fruto de uma deficiência hormonal e, graças ao rápido tratamento, a recuperação foi total. O susto, no entanto, levou-a a refletir sobre seus projetos.
“Várias vezes fui sondada para escrever minha biografia, mas nunca quis, pois o que a gente fala hoje pode não ser mais válido amanhã”, diz. Em conversas com amigos, entre eles o dramaturgo e diretor Sergio Módena, surgiu a ideia de revisitar o próprio passado – do qual, até então, pouquíssima gente tinha conhecimento. Ana, afinal de contas, é um rosto muito conhecido por seu trabalho, em especial em filmes e novelas, mas não pelo aspecto pessoal.
Para construir a narrativa, Módena sugeriu incorporar letras de Chico Buarque que dialogam com os episódios relatados. Dessa costura nasceu Olhos nos Olhos, que estreou em 2025, em comemoração aos 80 anos de vida e 60 de carreira da atriz. A produção retoma a temporada, nesta sexta-feira 16, no recém-inaugurado BTG Pactual Hall, em São Paulo.
“Depois daquela queda de saúde, me vi com muita energia e, pela primeira vez, me senti confortável para expor essas coisas”, diz ela. Em cena, Ana Lúcia dá depoimentos ora alegres, ora delicados, como o de sua prisão durante a ditadura.
“Antes, eu não falava sobre isso por trauma, porque achava que ia doer. Hoje em dia, acho necessário”, afirma, revelando a preocupação com um cenário político no qual há quem encha o peito para defender a ditadura. Outro trecho emocionante é quando ela aborda a maternidade após os 40 anos, tema considerado tabu à época do nascimento de seu filho, Pedro Lobo, responsável pela direção musical do espetáculo.
Atrelar a poesia de Chico a cada situação é também promover um reencontro artístico. Chico, de 81 anos, compôs as canções originais da antológica montagem de Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo e Neto, que abriu o Teatro Tuca, em São Paulo, em 1965. Essa peça marcou também a estreia teatral de Ana. “Chico é o grande historiador do meu tempo”, diz a atriz. “Ele retrata um Brasil malandro, sofrido, amoroso, acolhedor, político. É natural cada um se identificar com o que ele conta.”
Declamadas em vez de cantadas, as letras ganham novas leituras a partir da expressividade de Ana, que divide o palco com o pianista Diógenes Júnior. Além de fazer o acompanhamento musical, ele atua como “ponto”, dando deixas para as falas. “Minha memória falha, como a de todo mundo. E, de alguma forma, as pessoas se envolvem bastante com isso. Essas são histórias vividas por todos, sejam elas de infância, adolescência ou envelhecimento. Acho que esse é o motivo de a peça ter tanta receptividade.”
Algo semelhante tem ocorrido com Não Me Entrego, Não!, de Othon Bastos. Desde a estreia, em meados de 2024, o espetáculo passou por mais de 20 cidades, alcançando um público superior a 90 mil pessoas. Uma nova temporada começou na primeira semana de janeiro no Teatro Vannucci, no Shopping Gávea, no Rio, seguindo até 1º de fevereiro. Novas viagens estão sendo agendadas.
“Essa peça não tem a ver com o ego, com exibir-se. É diferente. Quando falo de mim, estou me doando”, diz o ator baiano
“O ator é uma figura extraordinária, que está sempre se renovando. Sempre há algo para se dizer”, diz Bastos, que, aos 92 anos de vida e 74 de carreira, não se cansa de encenar o texto de Flávio Marinho. Na peça, ele reinterpreta momentos marcantes de seu percurso, como a passagem pelo Teatro Oficina e pelo Cinema Novo, movimento do qual se transformou em ícone como o cangaceiro Corisco do filme Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964).
Após ver uma montagem de Flávio Marinho sobre Judy Garland, o ator ficou encantado com a possibilidade de contar sua história. Entregou então ao amigo um vasto material – cerca de 600 páginas – para que ele construísse a dramaturgia de sua vida. Bastos fez um único pedido: que o autor não incluísse episódios tristes.
Com isso, o que poderia ser encarado como lamento é explorado em forma de deboche. É o caso do momento em que ele relata a sentença de uma professora sobre sua falta de talento para as artes.
Assim como Ana Lúcia, Bastos tem uma parceria em cena: a atriz Marta Paret. Ela dá explicações históricas e faz intervenções cômicas, nas quais expõe a falta de fidelidade de alguns relatos, problematizando a noção de memória.
Um dos episódios bonitos dessa jornada de mais de 170 apresentações aconteceu em dezembro, quando o ator voltou a Tucano, a pequena cidade do sertão baiano onde nasceu, para apresentar a peça ao ar livre para 5 mil pessoas.
Desde que se mudou para o Rio, aos 5 anos, ele nunca havia voltado lá. A apresentação foi registrada em um documentário dirigido por Pietra Baraldi e produzido por Bianca de Felippes.
“Essa peça não tem a ver com o ego, com exibir-se”, diz Bastos. “É diferente. Quando falo de mim, estou me doando.” E essa parece ser a única condição em que o ator, contradizendo o nome do próprio espetáculo, não tem vergonha de dizer: para o público ele se entrega, sim. •
Publicado na edição n° 1396 de CartaCapital, em 21 de janeiro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘A vida é sonho, e também palco’
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