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A Trilogia do Fogo e a transgressão dos arquétipos femininos

Cultura

Em um cenário minimalista, a árvore seca no centro do palco representa Yerma. Com um casamento arranjado pelo pai, casou-se feliz, e logo viu nos olhos do marido a felicidade, a casa e os filhos que teriam. Enganada pela infertilidade, não consegue fazer de seu ventre o primeiro berço para seu filho. “Nós mulheres não temos mais que esta [vida] da cria e do cuidado com a cria”.

Do marido que não quer que sua esposa saia de casa, da mulher que não se vê como mulher útil se não for mãe, nasce Yerma, um poema trágico do espanhol Federico Garcia Lorca que compõe a última parte da Trilogia do Fogo, interpretada pela Incandescente Companhia de Teatro.

Parte da trilogia rural no autor espanhol, Yerma faz parte do trio composto por A Casa de Bernarda Alba e Bodas de Sangue, peças que tratam da repressão social e sexual das mulheres.

Em cartaz no Centro Compartilhado de Criação, em São Paulo, de sábado a segunda até o dia 1o de maio, a trilogia  é aberta com o Erêndira, conto do latino Gabriel García Márquez, seguido do texto autoral sobre do mito de Pandora, e finalizada com o poema trágico de Lorca.

Os espetáculos nascem no deserto “literal e metafórico”. Representado cenograficamente pela areia, o deserto também é retratado na vida das protagonistas que falam sobre os arquétipos femininos que apresentam o primeiro modelo daquilo que foi e ainda é considerado “ser mulher”.

Erêndira

Sem aparecer em cena, Erêndira torna-se uma disputa entre o jovem apaixonado e a avó desalmada (Karina Lumina Iliescu)

A idealizadora da trilogia e diretora de Erêndira e Pandora, Marina Merlino, conta que a pesquisa cênica se baseou em contemplar o que é comum em todas as mulheres.

“Compreendemos, aos poucos, que o que temos em comum é o que é anterior a nós, os arquétipos mais antigos, origens da construção cultural da mulher como sujeito no ocidente”, completa.  

As obras se ligam pela objetificação do corpo da mulher, pelo mito que se transformam e pela semente de transgressão aos parâmetros patriarcais impostos, uma busca incessante das personagens que compõem a trilogia.

A Erêndira do conto original, liberta-se da prostituição que a “avó desalmada” a submete, mas em cena, sua ausência é narrada a partir do diálogo da avó com o apaixonado Ulisses, que torna-se uma mera disputa pelo corpo da menina.

De outro lado, Pandora sonha em abrir a caixa das desgraças, enquanto sua mãe rompe com o papel esperado como esposa e o ideal de família é gradualmente destruído pela força cotidiana das cenas.

Yerma chega como um arremate. Depois das transgressões da menina que tem o corpo que não pertence a ela, da ruptura da função familiar da mulher em Pandora, a personagem dividida entre quatro atrizes mostra a pressão social da maternidade compulsória, enquanto não se sente mulher se não for mãe.

Interpretadas por Carolina Braga, Maíra Nascimento, Marina Merlino e Sofia Maruci, as atrizes dividem o papel da protagonista.

Do processo criativo da obra, a diretora de Yerma, Giulia Castro, conta que as atrizes buscam mostrar cada fase do “estágio de consciência e obsessão” da personagem, enquanto a ideia de um coro dá “peso, carga e sensação de coletivo” na mulher que é na verdade uma representação de todas as mulheres. “A última Yerma termina a peça com quatro saias vermelhas muito pesadas, uma metáfora bem concreta do peso que vai caindo sobre suas costas”, conta.

Pandora

Pandora fala sobre o mito grego da primeira mulher, e portanto, a primeira culpa atribuída ao gênero feminino (Karina Lumina Iliescu)

Castro, afirma que a busca obcecada e desmedida da personagem para se encaixar no ideal de mulher, impõe a necessidade de liberdade contra a solidão profunda que isso proporciona.

“Ao mesmo tempo em que Yerma é uma mulher que defende as tradições com unhas e dentes, ela transgride as regras do ambiente privado para buscar sua liberdade, está completamente tomada por sua sede e cansada de sua solidão”, emenda.

As diretoras concordam que a obra trata-se de um ato político, por tentar unir e estimular tomadas de consciência. 

“Apresentar os arquétipos e mitos de mulheres em chamas para que cada espectadora construa, a partir de suas próprias vivências, perguntas e reflexões”, emenda Merlino ao se referir às origens da construção do gênero feminino.

Castro fala ainda das imposições sociais de uma “sociedade patriarcal” que direciona as escolhas das mulheres. “O machismo tem esse poder sobre muitas mulheres, feministas ou não, um poder colonizador de nossas consciências”, completa ao afirmar que assim como as personagens, independente de posições ideológicas as mulheres possuem si em sementes de transgressão.

“Com Yerma, buscamos mostrar que as mulheres devem batalhar por narrar e traçar seus caminhos”, completa.

Trilogia do Fogo. Até 1º de maio no Centro Compartilhado de Criação, em São Paulo

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