Cultura

À sombra das sibipirunas

As pessoas se proíbem de sorrir quando sozinhas. As pessoas gostam muito de proibições

À sombra das sibipirunas
À sombra das sibipirunas
Apoie Siga-nos no

Hoje meu sono promete ser muito bom. Leve, não porque esteja muito próximo da vigília, mas porque devo sonhar com aquela brisa azul que me lambe a face, faceira, e foge nas alegres cores de seu par de asas quase transparentes.

Continuo fazendo heroicamente minha caminhada diária sempre que posso e sei que posso menos do que seria necessário. Uma hora batidinha no relógio. O homem já foi à Lua e até hoje não inventou uma pílula que substitua essas caminhadas! Espero que o Dr. Laércio Andrade, meu amigo e algoz, pois foi ele quem me prescreveu esta tortura, não seja muito afeiçoado a crônicas. Ele não me imagina um rebelde. Hoje eu podia e fui caminhar. À sombra das sibipirunas, como já avisei lá no alto. E as sibipirunas me protegiam do restinho de sol existente.

Tinha percorrido pouco mais da metade de meu trajeto quando vi. Lá estava o menino de shortinho e sem camisa, com a franja espessa a esconder-lhe os olhos. Ele tinha o braço direito um pouco levantado, e na mão, no polegar de sua mão, uma cigarra, que ele mostrava com orgulho a dois amigos. Uma cigarra dessas grandes, maior do que a mão dele. Então ele alçou a mão direita como se estivesse dando um impulso, e a cigarra abriu suas asas imensas e sumiu na copa de uma árvore. Uma sibipiruna com uns restos de flores amarelas. Os três meninos pularam de alegria, gritando e batendo palmas.

Se a cigarra voltou para o polegar do menino, se não voltou, não sei. Nem importa saber. Porque quando não se sabe, se tem o direito de imaginar. E o que sei é que houve um momento em que uma cigarra e um menino se encontraram num canteiro de avenida. Para a cigarra, o menino pode ter representado um gigante benfazejo com um dedo polegar muito apropriado a alguns instantes de repouso. Aquela cigarra, para o menino, não pode ter sido senão um fantasma diáfano e cheio de liberdade ou um espírito sutil capaz de o levar a mundos muito distantes.

Você, caro leitor, tem todo o direito de discordar, de supor que nem ele era um gigante nem ela um espírito. Seja lá qual for sua suposição, todavia, você há de concordar comigo que houve um instante em que entre os dois se estabeleceu algum tipo de relação. Qual? Também não sei, mas me parece que um precisou do outro, e os dois se fizeram poesia.

Depois de assistir a esta cena, continuei minha caminhada, como sempre, mas sorrindo, com uma cara que alguns podem ter pensado que era de bobo. As pessoas se proíbem de sorrir quando sozinhas. As pessoas gostam muito de proibições. E dormem com sono leve entre sonhos pesados.

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome

Depois de anos bicudos, voltamos a um Brasil minimamente normal. Este novo normal, contudo, segue repleto de incertezas. A ameaça bolsonarista persiste e os apetites do mercado e do Congresso continuam a pressionar o governo. Lá fora, o avanço global da extrema-direita e a brutalidade em Gaza e na Ucrânia arriscam implodir os frágeis alicerces da governança mundial.

CartaCapital não tem o apoio de bancos e fundações. Sobrevive, unicamente, da venda de anúncios e projetos e das contribuições de seus leitores. E seu apoio, leitor, é cada vez mais fundamental.

Não deixe a Carta parar. Se você valoriza o bom jornalismo, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal da revista ou contribua com o quanto puder.

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo