Cultura

assine e leia

A redescoberta de Vadico

Parceiro de Noel Rosa no samba e regente de orquestra, o artista paulistano tem a sua obra reunida em três álbuns

A redescoberta de Vadico
A redescoberta de Vadico
Vasta produção. Durante os dez anos que passou nos Estados Unidos, o compositor fez a direção artística dos filmes de Carmen Miranda. No Brasil, teve canções gravadas por Aracy de Almeida, Francisco Alves e Elizeth Cardoso – Imagem: Mário Moraes/O Cruzeiro e 20th Century Fox
Apoie Siga-nos no

O pesquisador Franco Galvão se impressionou quando um amigo lhe mostrou, no álbum ­Voyage au Brésil (1953), da bailarina Katherine Dunham, três choros creditados a Oswaldo Gogliano, o Vadico, parceiro de Noel Rosa nas inesquecíveis canções Feitiço da Vila, Conversa de Botequim e Pra Que Mentir?

Galvão, que também é músico, resolveu então fazer uma investigação no acervo da dançarina e coreógrafa afro-americana, mantido pela ­Southern Illinois University. Ali encontrou 541 páginas de partituras de Vadico.

É que, ao longo dos dez anos que passou nos Estados Unidos, na década de 1940, o compositor brasileiro, nascido em 1910, havia dirigido a orquestra da Katherine Dunham ­Company. Galvão acredita que ao menos parte dessas músicas tenha sido executada nas diversas turnês mundiais feitas pela companhia de dança.

De posse das partituras e de volta ao Brasil, o pesquisador passou a procurar obsessivamente fonogramas de Vadico. Seu desejo era jogar luz sobre a obra plural do compositor, pianista, regente e arranjador paulistano.

Tudo que ele reuniu sai agora pelo Selo Sesc, em uma box com três álbuns, que traz 37 músicas. Há novas interpretações tanto de obras das partituras encontradas nos Estados Unidos quanto de composições suas gravadas no passado no Brasil. A cada volume corresponde um aspecto estilístico encontrado na obra de Vadico.

O projeto, com direção do próprio Franco Galvão, envolveu 170 músicos, de cantores como Ná Ozzetti, Renato Braz, Lenna Bahule, Zé Renato e Guinga­ a instrumentistas como Hercules Gomes, Edmilson Capelupi, Maria Beraldo, Bina Coquet e Cristóvão Bastos. Há ainda a participação da Orquestra de Câmara da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (Ocam).

No sábado 8 e no domingo 9, no Sesc Pinheiros, em São Paulo, haverá o show de lançamento da caixa, que contará com a participação de alguns dos artistas envolvidos na gravação.

O primeiro disco é instrumental e reú­ne as oito peças encontradas no levantamento feito no acervo de Katherine Dunham. “Ele mostra a multiplicidade de Vadico, com choros bem brasileiros, música clássica, peças para big bands, para dançar”, diz Galvão. “Ele avança nas fronteiras dos gêneros, algo difícil para um músico até hoje fazer.”

O pesquisador Franco Galvão encontrou, na Southern Illinois University, 541 páginas de partituras do artista

O segundo, também instrumental, concentra-se nas músicas de Vadico para piano. Foi como pianista que ele se apresentou nas boates de Copacabana e acompanhou outros artistas – entre eles um Roberto Carlos em início de carreira. Alguns dos estilos presentes no álbum são choro, maxixe e valsa.

“Na juventude, Vadico compôs marchinhas de carnaval e chegou a ganhar três concursos”, conta Galvão. Nas marchinhas ele seguia a toada então usual, tratando de temas como desilusão amorosa e falta de dinheiro.

Já no terceiro disco aparecem algumas dessas marchinhas e composições em parceria com Vinicius de Moraes, Aloysio­ de Oliveira, o jornalista David Nasser, com o também jornalista Marino Pinto e com o escritor e imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL) Herberto Sales.

Letrista e melodista hábil, Vadico­ criou, na visão de Galvão, parte da identidade musical do País. Tinha, além disso, uma versatilidade incomum. “Ele compôs de música clássica a popular, e ainda tem o fato de ter tocado a música brasileira em orquestra, algo que na época não existia.”

Vadico nasceu no bairro do Brás, na região central de São Paulo e, muito jovem, já era reconhecido como exímio pianista. Como instrumentista de companhias de teatro de revista, uma modalidade bem popular naquele tempo, viajou pelo Brasil em turnês.

Depois de idas frequentes ao Rio de Janeiro, decidiu mudar-se para a então capital federal. E foi lá que passou a trabalhar para gravadoras como compositor, diretor musical e pianista. Em um dos trabalhos no estúdio conheceu Noel Rosa, dando assim início a uma das parcerias mais férteis da música brasileira.

Desse primeiro encontro já surgiu o clássico Feitio de Oração. Outros muitos sambas memoráveis nasceriam dessa parceria. Vadico também teve composições só suas ou feitas com outros parceiros gravadas por artistas como Aracy de Almeida, Francisco Alves e Elizeth Cardoso.

Nos Estados Unidos, ele integrou o grupo Bando da Lua, que acompanhava Carmen Miranda, e foi diretor musical de alguns filmes protagonizados por ela – dentre eles Uma Noite no Rio (1941) e Aconteceu em Havana (1941).

Vadico voltou dos Estados Unidos na década de 1950 e teve uma vida profissional intensa. Produziu, orquestrou e fez arranjos de muitos discos.

Entre os artistas com os quais trabalhou nessa época estão Pixinguinha, Dorival Caymmi e Baden Powell.

Depois de sua morte, em 1962, de infarto, seu legado foi sendo pouco a pouco esquecido. Agora, com esse lançamento, volta a ser lembrado. •

Publicado na edição n° 1425 de CartaCapital, em 12 de agosto de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘A redescoberta de Vadico’

ENTENDA MAIS SOBRE: , , ,

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome

Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.

O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.

Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.

Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.

Quero apoiar

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo