Cultura

Crônica/Matheus Pichonelli

"A Qualquer Custo": a desilusão às vésperas da era Trump

por Matheus Pichonelli publicado 08/02/2017 00h15, última modificação 08/02/2017 12h52
Nos intervalos entre tiros e perseguições, filme mostra as consequências da crise financeira americana antes da chegada do republicano ao poder

A Qualquer Custo, indicado ao Oscar de Melhor Filme, é uma história de faroeste contemporâneo. Dirigido por David Mackenzie, conta a saga de uma dupla de policiais à caça de dois irmãos assaltantes pelo interior, esquecido e empobrecido, do Texas. Seria uma história comum de polícia e ladrão se não houvesse um bloco de concreto entre eles: o banco, alvo e origem da série de assaltos.

Este detalhe embaralha alguns modelos consagrados de herói e bandido, civilização e barbárie, desbravamento e direito ao uso da terra.

Em sua releitura de O Grande Roubo do Trem, de 1903, Mackenzie trabalha com duplos para mostrar como, nesses lados da América contemporânea, os papeis se fundem. Aqui o xerife se une ao nativo, cuja terra e família já foram destroçadas, para empreender a busca dos criminosos.

E os criminosos – um moderado, com um objetivo claro (pagar a hipoteca reversa em nome da mãe, já morta), outro perturbado, inconsequente e violento – selam a aliança para encontrar a própria justiça redentora. Em vez do bad cop e do good cop, temos o bandido “bom” e o bandido mau.

Há, nessa união, uma série de conflitos a serem elaborados. O filho pródigo e o filho que ficou; o irmão que não tem nada a perder e o irmão que tem uma família agora a proteger. E há, entre os policiais, um distanciamento sutil e histórico expresso a partir da fala.

O xerife, interpretado por Jeff Bridges, passa boa parte da jornada tentando constranger o colega de origem indígena com ofensas de cunho racista – politicamente incorretas, se preferirem. É o que estabelece a hierarquia entre eles e um não-diálogo ao longo de (quase) todo o filme.

A busca por uma justiça particular é o que move os personagens para além dos papeis. Todos parecem identificados por um abandono anterior. A dupla de policiais gira em falso em busca dos criminosos. Herda um caso que o FBI não tem interesse em desvendar. Segue pistas óbvias, baseadas em evidências e intuições, mas não a ponto de chegar a tempo e evitar o próximo assalto.

O xerife não consegue fazer sombra naquela localidade – perto da aposentadoria, é quase um fantasma em busca do último ato antes de sair de cena. A América por onde se embrenha não existe mais.

O pano de fundo dessa(s) busca(s) são cidades distantes da Grande Nação prometida por seus fundadores, esta que agora juram retomar: trata-se de uma América profunda e envelhecida que o filme parece querer resgatar sem que para isso precise gritar.

Logo na cena inicial, a poucos metros do primeiro assalto, é possível ver um muro pichado (todas as cidades parecem sufocadas por muros, grades, cercas e as reações a essas interdições) com a seguinte inscrição: “Três incursões para o Iraque. Nenhuma ajuda para pessoas como nós”.

Ou quando, entre um alvo e outro, policiais e bandidos se deparam com placas de oferta de crédito fácil para quem está “afundado em dívidas”.

Chegamos, então, ao banco, provavelmente o principal elemento da história, embora não atue.

Após a morte da mãe empobrecida, que empenha o próprio rancho para seguir o tratamento, os irmãos ouvem de um advogado, em uma das cenas, que não há nada mais texano que ver os criminosos pagando os cretinos (o banco) com o dinheiro deles (o banco). O western é quase uma releitura e atualização da bola levantada por A Grande Aposta, de Adam McKay, que concorreu ao Oscar em 2016. 

“Eles emprestam o mínimo que poderiam. Só o bastante para fazer sua pobre mãe voltar. Pensaram que podiam pegar a terra dela por 25 mil”, completa o advogado, enquanto ensina a dupla a lavar dinheiro por meio de cassinos. Nada mais texano.

No livro Os Inimigos Íntimos da Democracia, o filósofo e linguista búlgaro Tzvetan Todorov, morto na terça-feira, 07/02, escreveu o que pode ser interpretado como o prenúncio de um dilema político contemporâneo: "Não é livre o homem doente que não tem os meios para se tratar, o homem posto na rua porque não consegue pagar seu empréstimo bancário. Chega-se então ao paradoxo de que a liberdade individual, em cujo nome é rejeitada qualquer intervenção do Estado, fica impedida pela irrestrita liberdade concedida a bancos e às empresas". 

Nos intervalos entre tiros e perseguições do filme (é uma história de de ação, afinal) é possível observar os traumas e feridas abertas sobrepostas, as históricas e as alargadas pela crise financeira, de uma parte desiludida de um país às vésperas da era Trump, uma era de fronteiras redefinidas, de segurança reforçadas.

E que, desacreditada nas autoridades e instituições oficiais, empunha as próprias armas como um grito, seguido como manadas, de que agora é cada um por si. O problema é quando a busca por corrigir uma injustiça se torna parte de um juízo individual – no caso da criminalidade, com uma fila de inocentes, que nada tinham com a história, pelo caminho.