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A potência épica do ordinário

Suttree, romance de Cormac McCarthy publicado em 1979, ganha, pela primeira vez, uma tradução no Brasil

A potência épica do ordinário
A potência épica do ordinário
Estilo inimitável. McCarthy teve várias obras adaptadas para o cinema. A mais conhecida delas é Onde os Fracos Não Têm Vez (abaixo), de 2007 – Imagem: Miramax Films/Paramount Classics e Redes Sociais
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O lançamento de Suttree, quarto romance do norte-americano Cormac ­McCarthy, publicado originalmente em 1979, é a chegada tardia, mas indispensável, de um dos trabalhos mais celebrados do autor – ainda que não um de seus maiores sucessos de vendas. A obra, que passou todo esse tempo inédita no Brasil e que foi vertida para o português pelo também escritor Daniel Galera, desafia os leitores a mergulhar na trajetória ao mesmo tempo ordinária e intimamente épica do personagem-título.

Falecido em 2023 aos 89 anos, Cormac McCarthy viveu, basicamente, de sua literatura. Adepto do silêncio, da reclusão e da recusa quase absoluta do jogo público da mídia, ele foi uma figura um tanto obscura, embora respeitada e premiada. Em 1998, em um perfil do The New York Times, escrito pelo crítico Richard B. Woodward, ele foi definido como “talvez o melhor romancista desconhecido da América, que prefere desviar a conversa para longe de si mesmo”.

“Ele deu pouquíssimas entrevistas”, confirma Daniel Galera, que, para além de tradutor de Suttree, é um grande entusiasta e conhecedor da obra de Cormac McCarthy. “Em 2008, após A Estrada ser escolhido no influente clube do livro de Oprah Winfrey, ele aceitou, para surpresa geral, aparecer pela primeira vez na tevê e conversar com a apresentadora.”

Nascido em 1933 numa família rica do Sul dos Estados Unidos, McCarthy deixou de lado os privilégios por motivos pouco esclarecidos e viveu de forma precária por bastante tempo. Essa experiência é retratada, com liberdade ficcional, em Suttree. Escrito ao longo de quase 20 anos, o livro virou objeto cult e abriu caminho para outros títulos, de maior repercussão, que vieram depois.

O reconhecimento crítico chegou no monumental Meridiano de Sangue (1985), no qual McCarthy reconfigura mitos do faroeste e da conquista do Oeste ao expor um processo histórico de violência extrema e genocídio dos mais brutais já narrados pela ficção americana.

Se, até então, sua voz poderosa era reverenciada sobretudo pela crítica, em 1992, ele finalmente conquistou o público com Todos os Belos Cavalos, que iniciou a “trilogia da fronteira”, completada por A Travessia (1994) e Cidades da Planície (1998). Dali em diante, não apenas cada novo trabalho chamava mais atenção, como houve leituras retroativas de seus primeiros livros.

Todos os Belos Cavalos foi adaptado para o cinema em 2000, com Matt ­Damon e Penélope Cruz no elenco e Billy Bob Thornton na direção – no Brasil, o filme se chama Espírito Selvagem. A mais conhecida adaptação é Onde os Fracos Não Têm Vez (2007), ganhador do Oscar de melhor filme, direção (Joel e Ethan Coen), ator coadjuvante (Javier Bardem) e roteiro adaptado. Outra bastante prestigiosa é o drama pós-apocalíptico A Estrada (2009), com Viggo Mortensen e direção do australiano John Hillcoat.

Maior best seller de McCarthy, A Estrada (2006) nasceu da experiência do autor em ser pai, pela segunda vez, aos 66 anos. Outros filmes que partiram de textos seus ou tiveram sua mão no roteiro são Ao Limite do Suicídio (2011), de Tommy Lee Jones, e O Conselheiro do Crime (2013), de Ridley Scott.

É curioso pensar que um autor de linguagem ora elíptica, ora elusiva, que “elimina aspas, travessões e ponto e vírgula para reduzir a pontuação ao essencial e construir frases longas encadeadas por conjunções e cadência própria”, como define Galera, tenha tido tantas adaptações. E traduzir, para outro idioma, sua poética tampouco é simples.

“Eu queria recriar no leitor a mesma experiência que tive ao ler o romance pela primeira vez, o que exigiu decisões cuidadosas de pontuação, ritmo e musicalidade”, diz Galera, sobre o desafio técnico e estético enfrentado em Suttree.

Suttree. Cormac McCarthy. Tradução: Daniel Galera. Alfaguara (560 págs., 119,90 reais)

Ambientado em Knoxville, às margens do Rio Tennessee, no começo dos anos 1950, o livro acompanha ­Cornelius Suttree, herdeiro de uma família rica que escolhe viver entre pescadores, bêbados, mendigos, criminosos e excluí­dos. Numa sucessão de episódios ao longo de quatro anos, o enredo é atravessado por prisões, doenças, brigas, amizades, perdas e errâncias existenciais, com um senso de humor quase sempre inesperado. ­“McCarthy narra situações muito cruéis, mas com grande ternura”, diz Galera.

O estilo inimitável do autor aparece, por exemplo, na sequência de ações intercaladas por conjunções: “Suttree bebeu um gole d’água e derramou a água no copo vazio e abriu a caixa e serviu o achocolatado no copo gelado e bebeu”, narra ele.

Há ainda as descrições minuciosas da ambiência por onde circula o personagem: “Párias enfeitavam o caminho ao lado de cantores cegos e organistas e salmistas com gaitas de boca indo de um lado a outro. Ambulantes mudos e atentos empoleirados na caçamba de suas carroças e floristas usando bonetes amarrados sob o queixo como gnomos encapuzados com mãos de madeira de enchente pousadas no colo dos aventais e lábios inferiores recheados de rapé”.

Marcado por uma progressão dramática lenta e pela intensidade dos pequenos atos, Suttree remete a Ulysses (1922), de James Joyce, atravessado pela vivência miserável dos personagens e pela estrutura temporal fragmentada. A transformação de gestos simples em poderosos referenciais tem ecos também de William Faulkner.

No livro, são evidentes a visão trágica, o pessimismo cósmico – o indivíduo é mínimo diante da grandeza do mundo –, o interesse pela marginalidade e o questionamento moral das ilusões. Mas tudo isso se mistura, nas mais de 500 páginas, a um profundo amor pela vida e um apreço pela camaradagem. •

Publicado na edição n° 1395 de CartaCapital, em 14 de janeiro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘A potência épica do ordinário’

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