Cultura
A ópera e o TikTok
“Como exigir uma escuta atenta em um mundo cada vez mais conectado?”, pergunta o diretor do Cultura Artística
O Brasil de 2026 não é o mesmo país de 2008. A frase, dita pelo diretor-executivo do Teatro Cultura Artística, Frederico Lohmann, reforça os desafios enfrentados pelo espaço desde a sua reabertura há dois anos, em agosto de 2024. Fechado em 2008 depois de um incêndio de grandes proporções, o teatro teve de ser reconstruído praticamente do zero.
A distância de 16 anos entre o fechamento e a reabertura fez, obviamente, com que a instituição precisasse adaptar-se aos tempos pós-pandêmicos e a um público com novos gostos e hábitos.
O teatro com coxias e cortinas inaugurado em 1950 para ser a sede física da Sociedade Cultura Artística, fundada em 1912, era destinado à então chamada “nata da sociedade”. Hoje, o que se tem é um espaço mais intimista e confortável, que, em vez de se fechar, tenta se abrir.
Localizado na Rua Nestor Pestana, no centro de São Paulo, o teatro está rodeado pelo Edifício Copan, concebido por Oscar Niemeyer, a Praça Roosevelt, tomada por skatistas, jovens e artistas de rua, e o Baixo Augusta, corredor boêmio e alternativo onde convivem todas as tribos da cidade e que se firmou como um dos símbolos da cena LGBT+ de São Paulo.
Dois anos após a reabertura, a instituição teve de se adaptar à transformação do público e do gosto
Uma das missões da instituição, de acordo com Lohmann, é dialogar com o entorno. Justamente por isso a reforma, além de reconstruir o teatro, criou espaços de convivência que estavam previstos no projeto original, feito pelo arquiteto modernista Rino Levi, mas nunca foram efetivados.
“Com exceção da fachada com o painel de Di Cavalcanti e dos saguões de entrada e do primeiro andar, quase tudo foi reconstruído”, conta Lohmann, nesta entrevista a CartaCapital, na qual relata as experiências vividas nestes dois anos.
Uma das mudanças mais evidentes percebidas pelo executivo passa pelo gosto do público, muito guiado pelas redes sociais. Além disso, a pandemia de Covid-19 mudou de vez a dinâmica de lazer. Segundo ele, está mais difícil fazer as pessoas saírem de casa.
O que também parece ter se tornado imperativo, sobretudo quando se faz uso de leis de incentivo fiscal – principal fonte de recursos da instituição –, é o investimento em programas de formação e inclusão. “Em 2008, tínhamos acesso ainda limitado às leis de incentivo, muito focado na Lei Rouanet”, diz ele. “Hoje, as leis estão mais estruturadas, são muitas e, por exemplo, permitem que 10% dos ingressos de todos os espetáculos do teatro sejam totalmente gratuitos.”
Multiuso. Neste mês, o espaço receberá, em um dos saguões, a primeira exposição. A ideia estava no projeto original de Rino Levi e foi recuperada na reforma – Imagem: Paulo Vitale/Cultura Artística
CartaCapital: Como foi a volta do Teatro Cultura Artística para a Rua Nestor Pestana, depois de 16 anos funcionando provisoriamente na Sala São Paulo?
Frederico Lohmann: Temos de lembrar que quase tudo foi reconstruído, inclusive as duas salas de espetáculo. E nessa reconstrução optamos por duas salas mais intimistas, com maior excelência e conforto. O grande auditório, que comportava 1,5 mil pessoas nos anos 1970, tem hoje 773 lugares. Já o pequeno auditório teve sua capacidade reduzida de 450 para 150 lugares. Desde o retorno para a sede, estamos sempre com espetáculos esgotados e o número de assinaturas aumentou.
CC: O Cultura Artística foi criado quando São Paulo tinha 500 mil habitantes. Como foi sendo feita a adaptação para atender uma metrópole de 12 milhões de pessoas?
FL: Tivemos isso em mente quando começamos a pensar na reconstrução do teatro, desde que assumi a direção, há 15 anos. Definimos três aspectos principais. Um foi continuar sendo uma casa de excelência e de referência para a música, agora também mais intimista. Temos mais solistas clássicos do que orquestras. Também aumentamos os espetáculos de MPB e jazz, para aproveitar a maior interação com o público propiciada pelo novo palco. Chico César, Fabiana Cozza e o rapper Dexter são alguns dos artistas que passarão pelo Cultura Artística neste semestre.
“As pessoas compram os ingressos, mas não vão. Parece que estão mais seletivas na hora de sair de casa”
CC: E quais são os outros aspectos?
FL: O segundo foi criar um polo de formação mais estruturado que, atualmente, impacta mais de 10 mil pessoas anualmente. Temos 11 salas com acústica apropriada para o ensino de música; parcerias com instituições de ensino de música e para qualificação do ensino público, com distribuição de ingressos gratuitos; e praticamente todos os artistas que se apresentam são convidados a participar de conversas ou masterclasses com os estudantes. Também temos bolsas voltadas a jovens músicos de 16 a 26 anos que incluem ensino de instrumento, curso de línguas, gravação de vídeos e divulgação no YouTube. O violonista Guido Santana, o primeiro sul-americano a conquistar o Prêmio Fritz Kreisler, em Viena, em 2022, foi nosso bolsista. O terceiro aspecto é focar no entorno. Com o Insper – Instituto de Estudo e Pesquisa, mapeamos os agentes da vizinhança para fomentar a inclusão e a revitalização da área. Decorre desse projeto a escolha da Livraria Megafauna para ocupar uma das lojas do teatro, assim como o café, que fica aberto o dia todo. Toda terça-feira a Megafauna realiza atividades gratuitas no pequeno auditório, como palestras e lançamentos. Uma vez por ano eles realizam um festival de poesia. Além disso, sempre temos ingressos gratuitos e a preços baixos para democratizar o acesso. E temos novidades.
CC: Quais são?
FL: No ano passado, fizemos uma parceria com a Mostra Internacional de Cinema e, durante seis dias, apresentamos os filmes do festival, inclusive O Agente Secreto. O teatro acabou se tornando um dos principais palcos da mostra. Renovamos a parceria e, a partir de outubro, exibiremos filmes durante as duas semanas do evento, nos dois auditórios. Descobrimos que o caráter intimista das salas casa muito bem com o cinema. E, nos saguões, recuperaremos um projeto que Rino Levi mencionava nas plantas originais: usá-los para exposições de artes plásticas. A primeira será da artista plástica e cantora Luísa Matsushita, a partir de 15 de agosto, com acesso gratuito. São pinturas inéditas e uma instalação em torno das memórias afetivas do centro de São Paulo e do Baixo Augusta.
CC: O Teatro Cultura Artística parece ter voltado para a agenda cultural de São Paulo como um palco de diversidade. O público mudou?
FL: Sim. Temos o público antigo cativo que assina nossas séries de concertos, mas também precisamos entender a demanda dos mais jovens. E estamos vendo uma revitalização, com muitos jovens explorando nossos concertos. Essa renovação passa pela tecnologia e pela forma como as pessoas se relacionam e buscam referências nas redes sociais. Um dos reflexos disso é que a nossa programação, antes marcada por concertos com grande número de pessoas no palco, está buscando trazer mais solistas que possuem grande repercussão em seus perfis no Instagram e TikTok. Um exemplo é o grupo Il Pomo d’Oro, de música barroca, que se apresenta nos dias 10 e 12 de agosto. O solista é o contratenor Jakub Józef Orlinski, um pop star da ópera, que participou da cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Paris e faz vídeos em que mistura ópera, moda e rap. Um deles, em que canta uma obra de Vivaldi, teve mais de 20 milhões de visualizações. Por outro lado, a tecnologia cria desafios: um espetáculo de música clássica pede silêncio e uma escuta mais atenta em que se espera que não haja conversas paralelas ou flashes de celulares – é diferente de um show de rock. Como exigir isso de um mundo cada vez mais conectado?
Abertura. O contratenor Jakub Józef Orlinski, cujos vídeos, no YouTube, fazem enorme sucesso. O rapper Dexter; as sessões da Mostra Internacional de Cinema e a exposição da artista plástica Luísa Matsushita estão na programação deste semestre – Imagem: Marina Cavalheiro, Pedro Bucher, Redes Sociais e Jeff Pachoud/AFP
CC: Você acha que, após a pandemia e as medidas de isolamento social, o público dos teatros mudou?
FL: A volta do teatro para sua sede deu-se não muito tempo depois do fim das medidas de distanciamento. E o que aconteceu é que registramos um aumento das assinaturas. Hoje temos mais assinantes que em 2019. Mas a taxa de não comparecimento aumentou de 15% para até 30%. As pessoas compram os ingressos, mas não vão. Parece que estão mais seletivas na hora de sair de casa. É algo que restaurantes e outros locais de lazer também vêm registrando. Muitos restaurantes estão fechando mais cedo, por exemplo. No momento, estamos pensando em formas de redistribuir esses ingressos vendidos e não utilizados para que mais pessoas aproveitem os concertos.
CC: Você é oriundo do mundo das finanças. Como é ser um executivo do mercado financeiro cuidando da gestão de um teatro?
FL: A gestão lida com pessoas. E as pessoas são as mesmas em finanças e em cultura. Na área financeira trabalhei muito com financiamento de projetos de infraestrutura, o que pude aplicar quando liderei o projeto de reconstrução aqui. Por outro lado, estudei piano e era assinante e frequentador do Cultura Artística. Então o interesse cultural também sempre esteve lá, e isso ajuda. É óbvio que a equipe também faz do teatro uma instituição de referência. A programação é feita a partir de vários olhares. Por exemplo, em 2027 teremos uma programação especial para o centenário de Tom Jobim e outra em comemoração ao bicentenário da morte de Beethoven. •
Publicado na edição n° 1425 de CartaCapital, em 12 de agosto de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘A ópera e o TikTok’
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