Cultura

A música caipira e a viola sobrevivem fora do mundo pop

Primeiro registro de música rural brasileira completa 90 anos com seu predecessor longe das raízes

Capa do disco da primeira gravação sertaneja da história (Foto: Reprodução/YouTube)
Capa do disco da primeira gravação sertaneja da história (Foto: Reprodução/YouTube)
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A música caipira teve um grande marco há exatos 90 anos, com a primeira gravação oficial do gênero feita pelo folclorista Cornélio Pires. A partir de 1929, ele registrou em uma série de discos de 78 rotações sonoridades de representação típica rural já existentes, como modas de viola, cateretês, cururus.

Ivan Vilela, músico e um dos maiores estudiosos no país do gênero, conta que nos anos 1940, impulsionado por Getúlio Vargas, começou-se uma campanha de ocupação do oeste do país, copiando o modelo adotado nos Estados Unidos décadas anteriores.

“A ideia (dessa ocupação) era estabelecer-se com o gado. As letras das músicas caipiras então deixam de ter temáticas agrícolas para adotar temáticas pastoris. E o termo também muda para sertanejo.” Essa mudança, segundo ele, estaria ligada a uma visão mais comercial do gênero na época, mas ainda de forma incipiente no mercado fonográfico.

Três décadas depois o sertanejo passou a sofrer forte massificação promovida pela indústria do entretenimento.

“Nos anos 1980, começando com Chitãozinho e Xororó, as gravadoras trouxeram a música romântica para o sertanejo. Esse sertanejo romântico dura até a Era Collor.”

Vilela, que é autor de um livro que perpassa o assunto, a obra Cantando a Própria História – Música Caipira e Enraizamento (2013), lembra que já nas décadas de 1960 e 70, produtores fonográficos da época começaram a dar ênfase na música caipira a temas como “a saudade das pessoas”, minimizando sua origem de crônica rural.

“A música caipira narra o cotidiano. Foi uma maneira que as pessoas pobres dos rincões encontraram para registrar o seu dia a dia. Mas ela começa a virar uma música anacrônica, não do cotidiano que existe, mas que existia.”

Chitãozinho e Xororó acrescentaram guitarras e baixos e deram o primeiro grande salto do sertanejo rumo ao pop, aproximando-se do country americano

Na virada do século, o gênero se distancia cada vez mais de suas origens, ganhando formato longe do tradicional ponteio típico da viola (instrumento musical central da cultura caipira) de cantos de linguística própria e de temática eminentemente rural, e se aproxima do pop, ganhando o nome comercial de sertanejo universitário.

“Na medida que o pop começa a dar outra configuração à música, ou o sertanejo muda ou desaparecerá. O interessante é que a temática atual é oposta ao sertanejo romântico: é o cara que dá o cano na mulher, vai embora por que a fila anda… Mas isso uma hora vai acabar.”

Movimento da viola é ainda forte

O mineiro Ivan Vilela é um exemplo da força da música caipira na identidade musical brasileira. Tem um trabalho extenso nessa área.

“O movimento da viola é ainda muito forte. Só em São Paulo há mais de 130 orquestras de viola, envolvendo diferentes tipos de pessoas e classes sociais.”

Ele próprio foi idealizador, diretor e arranjador de orquestra de viola em Campinas, onde viveu e desenvolveu boa parte de seus estudos, incluindo bacharelado e mestrado em música na Unicamp.

Hoje, atua na Universidade de Aveiro, em Portugal, onde foi convidado para ser pesquisador principal de um projeto que estuda o trânsito de violas, cavaquinhos e bandolins (os cordofones portugueses) pelo Oceano Atlântico ao longo da história e as relações sociais que isso implicou, como a introdução delas no cancioneiro nacional.

Destaca-se que embora a viola tenha inicialmente se estabelecido no Brasil, trazida por influência portuguesa, em áreas urbanas como o Rio de Janeiro, Salvador e Recife, ganhou adeptos e técnica de execução no interior do país.

Violeiro profícuo

O violonista tem 17 álbuns gravados entre solos e em grupo. O seu trabalho Paisagens (1998) virou referência ao lado de registros fonográficos de outros violeiros de mão cheia, como Almir Sater, Renato Andrade, Tavinho Moura, entre outros.

Esse ano, o violonista Ivan Vilela lançou os álbuns A Força do Boi, que conta com a participação da Orquestra do Estado do Mato Grosso, e Encontro que reúne a sonoridade da viola caipira com o piano de Benjamin Taubkin.

“Esse trabalho com a orquestra versa sobre música caipira e composições minhas. É um repertório delicado.”

O projeto com Taubkin começou a partir de shows que fizeram juntos em 2016. “O trabalho foi amadurecendo. Pegamos três músicas dele, três minhas e três do Milton (Nascimento) e gravamos. Tanto a viola como o piano têm muitos sons harmônicos, ficam ressoando.”.

Augusto Diniz

Augusto Diniz
Jornalista há 25 anos, com passagem em diversas editorias. Foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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