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A metamorfose de uma nação

Mudança, do chinês Prêmio Nobel Mo Yan, escancara o quanto o entorno social e político molda a subjetividade

A metamorfose de uma nação
A metamorfose de uma nação
O autor, ganhador do Nobel, fez uma ficção autobiográfica – Imagem: Navee Kishmore
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“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, escreveu o poe­ta português Luís de Camões, no século XVI, sobre a natureza inevitável da impermanência. As transformações, assim como a morte, constituem uma das únicas certezas da humanidade.

São precisamente elas que norteiam a narrativa autobiográfica Mudança, do chinês Mo Yan, que a Cosac Naify publicou em 2013, e é agora relançada.

Nascido em 1955, no campo, na província de Shandong, o escritor venceu o Nobel em 2012, um reconhecimento do júri por sua literatura que une “folclore, história e contemporaneidade”. É dele o aclamado As Rãs (Companhia das Letras, 2015), um épico que trata da política de filho único.

Mudança, por sua vez, é uma ficção breve inspirada na própria vida do autor. Talvez o mais interessante do livro seja a inevitável constatação de que o indivíduo está mais ligado ao entorno social do que gostaríamos de supor.

Como “tudo muda o tempo todo”, esta segunda edição da obra no Brasil faz bastante sentido agora. Não apenas porque Mo Yan esteve este ano no País, em um evento que celebrou os 50 anos da Universidade Estadual Paulista (Unesp), mas pelo protagonismo que a China assume no contexto geopolítico internacional.

O país narrado por Mo Yan, do fim da década de 1970 em diante, é praticamente irreconhecível se comparado ao do presente. O livro é hábil em mostrar o início da modernização chinesa, por meio de histórias humanas – algo que, por si, justificaria a leitura.

Mudança. Mo Yan. Tradução: Amilton Reis. Cosac (128 págs., 79 reais)

Mudança nasceu como encomenda de um editor para que Mo Yan escrevesse sobre as transformações sofridas pela China. A morte de Mao Tsé-tung, em 1976, é o evento que desencadeia as modificações estruturais que afetarão as vidas das personagens em uma camada mais subjetiva.

Ascensão social, acesso à educação e até relacionamentos são influenciados pela abertura cultural e econômica iniciada após a morte do líder revolucionário.

Embora As Rãs seja, literariamente, superior, Mudança apresenta características que elevam a narrativa autobiográfica. Algumas marcas de estilo são claras, como as repetições. “Desde pequeno sou atrevido, desde pequeno sou desastrado, desde pequeno sou mestre em arranjar sarna para me coçar”, escreve.

A percepção do efeito de reiteração só é possível graças ao trabalho do tradutor Amilton Reis, que verteu o livro direto do mandarim, assim como havia feito com As Rãs. Em outros trechos, Mo Yan fala com o leitor, mantendo o tom de conversa ao pé do ouvido: “Desculpem minha narrativa prolixa”.

Destaca-se também o projeto gráfico da edição, com detalhes de um caminhão soviético Gaz 51, que ocupava o imaginário do povoado do autor. Símbolo de status­ na obra, o veículo serve como condutor das personagens. De objeto de desejo, o Gaz 51 é também testemunha da mobilidade social que começava a se tornar possível na China.

As personagens são, sobretudo, pessoas que o autor conheceu na escola, no exército e no povoado. A mais cativante provavelmente seja He Zhiwu, ex-colega que foi expulso da escola por causa de uma redação. Para revolta do professor, He Zhiwu escreveu: “Não tenho nenhum outro sonho – Só tenho um sonho – O meu sonho é ser o pai da Lu Wenli”.

Ora, o pai da garota Wenli era o motorista da fazenda estatal. E dirigia, é claro, o cobiçado Gaz 51. Saber se He Zhiwu conseguiu realizar seu sonho – e se o próprio Mo Yan, que também desejava desfilar no caminhão, o conseguiu – é mais um motivo para ler o romance. •


VITRINE

Por Ana Paula Sousa


No primeiro parágrafo de Audição (Fósforo, 160 págs., 79,90 reais), a narradora vê, através do rosto de um jovem refletido no espelho, o próprio rosto. Instala-se assim o tom de estranheza que Katie Kitamura, autora interessada nos mistérios das relações, imprime ao seu novo romance.

O subtítulo define bem o fio que alinhava os sete ensaios do escritor e professor Felipe Charbel reunidos em Lacunas (Relicário, 128 págs., 65,90 reais): Sobre Amar os Livros Que Não Lemos. Às reflexões sobre os volumes que o esperam na estante ele soma outras sobre os vazios que nos formam.

Da dissertação de mestrado de Glicéria ­Tupinambá, líder indígena e artista visual, nasceu O Feitiço do Fio (Zahar, 128 págs., 59,90 reais), que condensa suas pesquisas em torno do Manto Tupinambá, que se tornou conhecido a partir da expatriação de um original que estava na Dinamarca.

Publicado na edição n° 1425 de CartaCapital, em 12 de agosto de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘A metamorfose de uma nação’

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