Cultura

Crônica / Matheus Pichonelli

"A Garota desconhecida": corpos e diagnósticos de uma sociedade doente

por Matheus Pichonelli publicado 23/02/2017 14h03, última modificação 23/02/2017 15h03
A médica do filme luta contra o apagamento da identidade da garota que não pôde socorrer. As pistas são conectadas a partir dos sintomas dos pacientes
Christine Plenus
A Garota Desconhecida

Personagem interpretada por Adele Haenel em cena do filme A Garota Desconhecida, dos irmãos Dardenne

A ética médica foi tema de debates alvoroçados desde que uma profissional do Hospital Sírio-Libanês divulgou informações sobre o estado de saúde da ex-primeira-dama Marisa Letícia a um grupo privado de mensagens instantâneas. Naquele grupo, as informações detonaram uma série de mensagens de ódio contra a paciente.

Os perigos do acirramento político se sobrepor à relação médico-paciente, que envolve sigilo, mas sobretudo cuidado, tornaram evidentes o sintoma de uma sociedade doente. Os médicos, neste caso, eram parte do sintoma, não da cura, situação que saiu do controle quando se tornaram vítimas de um linchamento virtual.

No filme “A Garota Desconhecida”, que estreou nesta semana nas salas do país, os irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne colocam a ética profissional, pelo olhar de uma médica, em outra perspectiva: a do dever. Através dele, o confinamento do consultório expande-se como uma forma de estar no mundo – um mundo que bate às portas para pedir ajuda.

É o que acontece quando Jenny (Adele Haenel), a médica da história, ouve, a campainha após encerrar o expediente no consultório. Do lado de dentro, o chamado é abafado por uma lição: ela está ocupada ensinando o estagiário que um bom profissional precisa estabelecer limites, determinar horários e evitar se envolver com pacientes. Horas antes, o novato vê um garoto sofrer uma concussão e fica paralisado.

A fala é o exato oposto da conduta de Jenny ao longo do filme. Ela se envolve, leva o trabalho para a casa dos pacientes e a própria casa para dentro do consultório. Nesta rotina, descobre que, ao não atender a campainha, negou ajuda, sem que soubesse, à garota desconhecida, morta pouco depois, ao fugir de seu agressor. Passa a agir como quem sente ter rasgado o juramento de Hipócrates

Ligada àquela história, Jenny passa o resto do filme lutando contra o apagamento da memória e da identidade da garota que não pôde socorrer. As pistas até a vítima são conectadas a partir dos sintomas dos moradores onde ocorreu o crime, parte deles seus pacientes.

Num conflito entre o sigilo médico e a investigação por conta própria, que esbarra na atuação policial, ela leva uma foto da vítima para todos os pacientes em busca de alguém que a conheça. Em uma dessas visitas, percebe a alteração da pupila em um jovem com problemas de estômago, possivelmente resultado de um trauma recente. Ali a médica não constrói um diagnóstico apenas do paciente, mas de uma sociedade e seus sintomas.

Esses sintomas, físicos e emocionais, nem sempre são falados, e estão diretamente relacionados a conflitos culturais e sociais. É a deixa para os diretores entrarem de sola em questões como a imigração, a exclusão, a exclusão, os crimes de ódio de uma sociedade que cria cidadãos de primeira, segunda e terceira categorias.

Os elementos que perpassam a busca da protagonista mostram que podemos tentar delimitar os conflitos da porta de casa para fora, mas é inútil: este mundo irrompe à porta de casa.

“Os personagens têm muitas reações psicossomáticas, que incluem tonturas, dores de estômago, surtos epilépticos... O corpo sempre responde antes; ele fala e expressa coisas que por vezes não se põe em palavras. Jenny se importa com o sofrimento dos pacientes e tenta curá-los enquanto investiga quem era a garota desconhecida”, afirma Luc Dardenne.

Em vez do policial, a dupla escolheu a médica para a missão porque não queria propor um cinema de gênero. “Desenvolvemos uma investigação dupla. Jenny tenta obcecadamente descobrir o nome da garota que foi encontrada morta e sobre quem ninguém sabe nada. Ela também quer entender a razão dessa morte, pela qual se sente parcialmente responsável”, diz Jean-Pierre.

A médica dos irmãos Dardenne é a sensibilidade que assume esse chamado como um dever. Em tempos de tanta desconfiança sobre quem deveria oferecer cuidado e acolhimento à diversidade, o filme tem em sua protagonista uma declaração de amor e dedicação à profissão.