Cultura
A ficção de si e a ficção do outro
Natalia Timerman mostra que, tanto quanto a memória, o esquecimento pode ser um excelente mote literário
A narradora de Antes Que Apague não sabe se a mãe estará viva ao final da escrita do livro. Essa angústia, anunciada logo na abertura do novo romance de Natalia Timerman, conduz a estreia da psiquiatra e escritora paulistana na Companhia das Letras. Assim, o leitor é apresentado ao cerne da obra: o impulso por capturar e registrar a memória diante do apagamento das lembranças da mãe, acometida pelo Alzheimer.
Lutar contra o tempo é, muitas vezes, uma batalha perdida. Natalia dá voz a uma narradora lúcida, que reconhece o trabalho meticuloso que é ser guardiã das memórias familiares e confessa à mãe o “terror de não ter podido te compreender a tempo”. Ainda assim, ela aceita essa demanda, que envolve segredos, afetos e laços espinhosos. Ler este livro é adentrar o terreno da memória, matéria literária por excelência.
Antes Que Apague oferece uma literatura com propósito anunciado: “Escrevo para você, mãe; contra você. Também por você”. É no espaço do “contra” que a obra tem seu maior êxito, revelando uma escrita contraditória em que o amor resiste, apesar das amarguras do rancor.
Natalia e sua narradora compartilham traços em comum – são psiquiatras e escritoras.
Antes Que Apague, entretanto, não está no campo da autoficção. A autora se afasta do gênero de Annie Ernaux e Édouard Louis para propor outro pacto com o leitor: uma ficção que pede para ser percebida como autoficcional dentro dos limites de seu próprio universo.
Essa subversão não é nova na literatura, mas ganha novos contornos em meio à popularização de livros autobiográficos. Natalia já havia sugerido uma tensão entre realidade, vida e obra em seu romance anterior, As Pequenas Chances, lançado pela Todavia em 2023.
Se a memória é um grande mote literário, o mesmo pode ser dito de seu revés, o esquecimento. A autora usa como epígrafe uma citação de Desarticulações, da escritora argentina Sylvia Molloy, obra-prima sobre o “estar/não estar de uma pessoa que desarticula”. Em comum, as duas escritoras questionam o que resta de lembranças comuns quando elas começam a se apagar para o outro.
Antes Que Apague. Natalia Timerman. Companhia das Letras (192 págs., 74,90 reais)
Antes Que Apague tem uma escrita sensível, com achados como o “museu de seus restos”. Parte da potência do texto perde-se, porém, nas incursões ocasionais por clichês. É comum que o escritor busque estar em compasso com o espírito de seu tempo, mas referências como a de um irmão colono na Cisjordânia, ainda que vinculadas ao contexto de Gaza, soam deslocadas. A narradora procura traçar uma arqueologia da violência familiar; no entanto, ao descentralizar a figura materna, acaba por enfraquecer também o núcleo sentimental e estrutural que sustenta o romance.
O livro conquista por seu diálogo sobre o que é e o que pode ser a escrita no século XXI, revelando seus mecanismos e processos, algo próximo ao work in progress das artes visuais.
Essa metaficção, ou seja, a literatura que reflete sobre si e a própria ideia do fazer literário, rende bons frutos, expandindo Antes Que Apague para além de uma investigação sobre a memória familiar.
Natalia tem uma escrita tocante. Antes Que Apague merece ser lido como uma ficção que coloca em questão tópicos consagrados na literatura, como o processo de escrita, a relação entre o eu e o outro e a memória.
Com um título de rara beleza, o romance tem uma narradora com autoconsciência ímpar – ela reconhece que, ao escrever, expõe a família e, em especial, ela mesma, herdeira de todas essas gerações. Acima de tudo, sabe que os caminhos entre a ficção de si e a ficção do outro são intimamente familiares. •
VITRINE
Por Ana Paula Sousa
Em Traição da Minha Língua (Fósforo, 88 págs., 69,90 reais), a escritora e atriz argentina Camila Sosa Villada mescla lembranças da infância, pensamentos sobre a relação com os pais e vivências sexuais para refletir sobre aquilo que a linguagem, mesmo quando diz, não alcança.
Rachel Kushner, narradora de mão cheia, envereda, em O Lago da Criação (Todavia, 432 págs., 99,90 reais), pelo romance de espionagem. A história é ambientada no interior da França e entrelaça, em sua trama, uma agente norte-americana e um grupo de ativistas.
Penumbra da Aurora (Perspectiva, 336 págs., 89,90 reais), autobiografia que W.E.B. Du Bois publicou originalmente em 1940, chega ao País pelo Projeto Du Bois, que busca reposicionar o sociólogo e ativista pan-africanista como um dos pilares da sociologia moderna.
Publicado na edição n° 1419 de CartaCapital, em 30 de junho de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘A ficção de si e a ficção do outro’
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