Cultura
A existência encapsulada
A exposição Solidão Coletiva, de Júlio Bittencourt, capta, em grandes cidades do mundo, a alienação cotidiana
O surgimento das grandes metrópoles, a partir do século XIX, deu origem a duas visões sobre o lugar do indivíduo entre a multidão. No célebre ensaio O Pintor da Vida Moderna (1863), Charles Baudelaire (1821–1876) apresentou a figura do flâneur, o observador anônimo que vagueia pela cidade para observá-la. No quadro O Grito (1893), Edvard Munch (1863–1944) retrata a cidade como um lugar opressor, que assusta.
Guilherme Wisnik, professor livre-docente na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo e pensador das cidades, recorre a esses dois conceitos para falar sobre Solidão Coletiva, em cartaz a partir de terça-feira 3 de março na Caixa Cultural São Paulo.
A exposição reúne oito séries fotográficas realizadas entre 2016 e 2023, em São Paulo, Nova York, Tóquio, Mumbai, Pequim e Jacarta, por Júlio Bittencourt, que é paulistano de nascença e hoje vive em Paris. A curadoria coube a Wisnik e a expografia, à cenógrafa e cineasta Daniela Thomas.
Ao se debruçar sobre os registros de Bittencourt, Wisnik viu diante de si a passagem da cidade de lugar da libertação para lugar da alienação.
“Alienação é não ter consciência do todo”, explica ele. “Nas imagens, vemos pessoas que estão ali como que apartadas de uma consciência ampla sobre o que são, vivendo um cotidiano sem ter muita consciência daquilo. Nas grandes conurbações, especialmente com a tecnologia, você acaba vivendo sozinho, perdendo os laços comunitários.”
Nas fotos selecionadas, são comuns os olhares que parecem alheios ao entorno; os espaços diminutos que remetem a cápsulas; e a presença física transmutada em ausência de contato real. O tom não é, contudo, crítico nem triste. Há até certa graça melancólica.
“Vemos as pessoas como que apartadas de uma consciência ampla sobre o que são”, diz o curador Guilherme Wisnik
Na descrição de Wisnik, os corpos captados “em situações de espera, repetição ou adaptação a ambientes que os condicionam” mostram um cotidiano no qual a “privação” – de espaço, de liberdade – passou a ser algo estrutural.
Bittencourt conta que essas fotografias tiveram como ponto de partida um projeto chamado Pletora, palavra que, como ele explica, remete a excesso. “Minhas fotos sempre têm o urbano como contexto e mostram o ser humano no meio disso”, diz. “No Pletora, o excesso dizia respeito tanto à quantidade de gente e de informação quanto à solidão.”
Embora em algumas imagens a nacionalidade seja bem demarcada – caso de uma piscina sem água na China, com um aglomerado de gente em boias coloridas –, na maioria delas a marca local aparece diluída. As cenas do metrô de Tóquio poderiam ter sido vistas em São Paulo, por exemplo. “Acho que as cidades, hoje, são todas muito parecidas”, reflete o fotógrafo.
As composições presentes em Solidão Coletiva não são, porém, um retrato objetivo do real. Bittencourt, representado no Brasil por duas galerias de arte, a Lume, em São Paulo, e a Gávea, no Rio, borra as fronteiras entre a reprodução e a recriação.
“Os planos de fundo são sempre reais, e eu estou indo a esses lugares”, diz, ao ser questionado se as pessoas sabem ou não que estão sendo fotografadas. E então ele conta o santo, mas não o milagre: “Há retratos em que dirijo as pessoas, mas a ideia é colocar essas coisas uma ao lado da outra, manter a dúvida”.
Mais do que o real, o conjunto de imagens expostas na Caixa Cultural até julho apreende, no fundo, o sentido do real. Se o flâneur interpretava a cidade, hoje nós, moradores dos grandes centros urbanos, estamos tão imersos nesse real que nem o percebemos. A multidão não mais assusta, mas tampouco é vista. •
Publicado na edição n° 1402 de CartaCapital, em 04 de março de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘A existência encapsulada’
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