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'A Cidade Onde Envelheço' e o dilema entre ficar ou partir

por Matheus Pichonelli publicado 17/02/2017 00h35, última modificação 16/02/2017 16h03
Rodado no auge da crise europeia, filme sobre jovens portuguesas em BH chega às salas no momento em que a ideia de Brasil como destino virou passado
A Cidade Onde Envelheço

Elizabete Francisca e Francisca Manuel em cena do filme A Cidade Onde Envelheço, de Marília Rocha

A Cidade Onde Envelheço, dica para quem quer fugir do burburinho do Oscar sem sair do cinema, é a história de desencontros. O filme de Marília Rocha, sobre duas amigas portuguesas que se reveem e se redescobrem no Brasil, foi produzido no auge da crise financeira em Portugal, quando, entre 2010 e 2013, houve uma debandada da juventude local em direção a outros países.

Chega agora aos cinemas em um momento em que o fluxo se inverte. “O Brasil se tornou um destino de sonho naquela altura, a ponto de inverter a corrente migratória de lá para cá. Na época, não imaginávamos quão pouco isso duraria e quão abrupta seria a mudança por aqui. O filme é um retrato de um passado tão recente quanto distante”, conta a diretora mineira.

O ponto dos encontros e despedidas no filme é Belo Horizonte, onde Francisca, uma jovem emigrante portuguesa, recebe em sua casa, e com uma certa frieza, que aos poucos vai se alterando, a conterrânea Teresa. É como se a expectativa da amiga recém-chegada contrastasse com o desencanto de quem já não encontra no País aquilo que buscava. 

Logo nas primeiras cenas a anfitriã pergunta até quando a amiga pretende ficar. Alerta que gosta, e está acostumada, a viver sozinha. Há uma tensão no ambiente, entre o apartamento e as ruas da capital mineira, prestes a rebentar. O escritor Marcílio França Castro vê nessa tensão “algo que se insinua e dissolve (...) uma transa que nunca acontece, uma raiva que não se consuma”, como se o filme tratasse de um lugar a ser evitado.

É ali, ao mesmo tempo, que se constrói uma história sobre hospitalidade e acolhimento. “O filme é composto por uma série de encontros, o irromper de uma relação íntima entre duas amigas e também da intimidade delas com uma cidade, que é Belo Horizonte. Seus passeios abarcam zonas tão pouco filmadas quanto conhecidas desse lugar, apesar de muito frequentadas. Seus dilemas trazem uma questão existencial portuguesa, a decisão de ficar ou partir, que curiosamente coincide com um drama tipicamente belo-horizontino”, conta a cineasta.

Em uma das cenas, uma das personagens corre pela cidade acompanhada por trechos de uma correspondência entre dois amigos, Paulo Mendes Campos, mineiro que havia se mudado para o Rio, e Otto Lara Resende, que havia ficado em BH. “A carta fala do deslocamento e da solidão, da liberdade e das incertezas, da percepção de tudo é diferente e nada se repete”, lembra a diretora.

Ao percorrer esses espaços pouco filmados e, portanto, distantes de um certo estereótipo do Brasil (em BH, um sentimento compartilhado pelas protagonistas é a saudade do mar de Lisboa), as duas estrangeiras percebem as nossas coisas de um jeito muito particular – e “com a sensibilidade de quem olha de fora para aquilo que nos é demasiado familiar”.

Para Marília Rocha, essa é também uma forma de agregar preconceitos e fantasias próprias sobre o país. “Para mim ter um olhar de fora foi a maneira que encontrei para ter um distanciamento necessário para filmar o meu próprio espaço.”

Esse distanciamento permite pinçar ou resgatar algumas preciosidades produzidas por aqui e nem sempre reconhecidas, como um encontro despretensioso num boteco com Jonnata Doll, jovem da cena contemporânea que passeia pelo movimento punk, ou quando Francisca entra numa loja antiga de discos, pede um álbum do Caetano Veloso e é questionada: “Qual Caetano?”. No fim, é apresentada, de olhos fechados, a Jards Macalé.

Esse olhar estrangeiro não é só encanto em um país de tantas possibilidades abertas e frustradas. Mas não está imune a surpresas.

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