A biografia das mulheres

A trilogia 'Imagens da Mulher no Ocidente Moderno', de Isabelle Anchieta, mostra mulheres transgressoras e suas respectivas desconstruções

(Ilustração: Pilar Velloso / CartaCapital)

(Ilustração: Pilar Velloso / CartaCapital)

Cultura

No século XIV, Giovanni Boccaccio, na monumental obra Decamerão, retrata a história de jovens que se abrigam em um castelo para tentar fugir da peste negra e passam a narrar cem contos. Em meio a um ambiente de incertezas, as feiticeiras eram representadas como uma alternativa de salvação. Mas também foram vistas, pelo poeta florentino e pela sociedade da época, como mulheres pactuadas com o diabo, ao contrário dos homens feitos à semelhança de Deus. Feiticeiras tornaram-se bruxas, mas foi só dois séculos depois que os caldeirões passaram a ser representados visualmente, uma imagem que perdura até hoje.

O que poucos sabem, e esta é uma das teses da jornalista e socióloga Isabelle Teixeira, é que o caldeirão da bruxa foi “a maior ‘exportação’ feita pelo Brasil de um estereótipo internacionalmente reconhecido”.

A trilogia Imagens da Mulher no Ocidente Moderno (Edusp), fruto do doutoramento de Isabelle na Universidade de São Paulo (USP), procura desvendar como estereótipos relacionados às mulheres se universalizaram entre a Idade Média e a Modernidade. A autora foi atrás de livros e outros escritos, muitos deles de difícil acesso, para mostrar que falsos imaginários sobre as mulheres foram construídos por meio de um processo de circulação e retroalimentação de produções visuais.

A partir de imagens de Hans Staden, um mercenário alemão que realizou expedições da Espanha e de Portugal e se tornou um dos primeiros etnógrafos dos indígenas brasileiros, a autora percebeu a presença central do caldeirão utilizado pelas mulheres tupinambás canibais. Mantido sob cativeiro por nove meses, Staden sobreviveu para relatar sua aventura nos trópicos. O impressor e gravador flamengo Théodore de Bry percebe o interesse do público por essas narrativas e, com um traço mais refinado, reconta a história dos rituais canibais entre as tupinambás. As imagens ganham a Europa e são, sorrateiramente, incorporadas ao imaginário das bruxas, que antes disso não usavam esse apetrecho.

“A história da formação do estereótipo das bruxas e das índias é, sobretudo, a história da desumanização da mulher”, anota Isabelle, ainda no Livro 1. À CartaCapital a socióloga acrescenta: “O estereótipo não é a intenção de uma só pessoa. Primeiro, ele precisa fazer uma impressão e daí se reproduzir. É preciso haver uma redução até chegar a uma síntese. Ele depende, inclusive, dos meios de comunicação”. Ou seja, sem a invenção da imprensa de Gutenberg não haveria os impressos e panfletos, desde o princípio utilizados também para a propagação de desinformação. “As imagens são armas simbólicas e vão dar visualidade para o sobrenatural e o que está só na imaginação das pessoas. As bruxas que voam são as fake news materializadas.”

Isabelle Anchieta herdou da mãe o convívio com o mundo das artes. Adrienne Rabelo é uma artista plástica que, por sua vez, é devedora do legado de Tereza Rabelo Anchieta, avó de Isabelle, uma bordadeira de mão cheia. Mas, antes de enveredar pela sociologia, ela se formou em jornalismo pela PUC-MG e trabalhou como repórter e editora de tevê. Só no doutorado mergulhou em imagens tão simbólicas e eternizadas quanto a Virgem Maria de Giotto di Bondone, o pai do Renascimento, ou as Madalenas de Artemisia Gentileschi, uma rara pintora do século XVII.

 

A Virgem Maria de Giotto di Bondone

 

Com abordagens sociológicas e um atento e arguto olhar sobre obras de arte localizadas, sobretudo, na Europa e no Brasil, a autora produz uma espécie de sociogênese da imagem, em que analisa uma série iconográfica e como esta permite compreender determinadas práticas sociais. É o que a faz enxergar a mesma representação de uma Maria, mãe casta e com o filho no colo, em pinturas de Cimabue, Duccio e Giotto. Ou da figura de uma Maria triste, expressando a dor maternal, em esculturas alemãs do século XIV, conhecidas como Vesperbilder, e eternizadas por Michelangelo, em Pietá, obra que revela “a dor do mundo”, num momento em que a Europa enfrentava a peste negra, a fome e as guerras.

Já uma Maria carnal, em oposição à imagem casta da virgem, surge dentro do processo da Contrarreforma da Igreja Católica. Foi novamente Giotto o responsável por construir uma imagem fartamente reproduzida: a de uma Maria Madalena centralizada na cena de crucificação, uma mensagem de que uma pecadora arrependida poderia ser redimida.

Embora a maioria das obras analisadas no Livro 2 seja de representações de Marias, Marias Madalenas e cortesãs, como a célebre poetisa veneziana Veronica Franco, feitas por artistas do sexo masculino, Isabelle alerta que muitas eram interpretações de mulheres temidas por eles. Muitos pintores eram professores uns dos outros e, a partir da repetição de formas e estilos, sem a preocupação de se produzir algo original, os estereótipos foram sendo criados e cultivados.

A trilogia, que “é um pouco a biografia de todas as mulheres”, destrincha fórmulas típicas de controle social da natureza (com as imagens de bruxas e do sobrenatural), das instituições e da sexualidade (Maria e Maria Madalena) e de si mesmo, a partir da lógica de um culto a estéticas impostas pela indústria cinematográfica. A socióloga provou esta última parte da tese, que virou o Livro 3 da trilogia, a partir da análise de cerca de 80 filmes dos anos 1940 e 1950, e deteve-se sobre a representação de atrizes que serão “veneradas como imagens de culto”.

Para a autora, as stars de Hollywood ajudaram a moldar até mesmo as formas como as pessoas agem e se comportam, ainda que cada uma delas tenha buscado construir imagens individualizadas e autorais de si mesma. É fácil acrescentar apostos em cada uma delas: Mary Pickford (“ingenuidade infantil”), Theda Bara (“crueldade vampiresca”), Rita Hayworth (“sensualidade alegre”), Bette Davis (“malignidade e inteligência”), Marilyn Monroe (“sexualização da cultura”) e Jane Fonda (“a heroína do futuro”).

O que elas têm em comum é um conceito cunhado por Isabelle como “individumanização”, no qual as relações e até os impedimentos sociais se afrouxam e permitem que elas conquistem seus espaços. As stars ensinam que a imagem da mulher não precisa ser delimitada por convenções morais, religiosas, institucionais ou mesmo maniqueísmos. “Hoje não dá para falar em mulher no singular, mas no plural, mulheres.”

Imagens da Mulher no Ocidente Moderno. Isabelle Anchieta, Edusp, três vols., 60 reais.

 

Publicado na edição n.º 1151 de CartaCapital, em 1º de abril de 2021.

 

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