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A banalidade da fantasia amorosa

O Polonês é um livro preciso e desconcertante sobre as vidas submersas de um homem e de uma mulher

A banalidade da fantasia amorosa
A banalidade da fantasia amorosa
Nobel. Coetzee, de 85 anos, exercita a concisão – Imagem: Ulla Montan
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O Polonês, o mais recente livro de J.M. Coetzee, autor sul-africano que ganhou o Nobel de Literatura em 2003, é um romance breve e incisivo que gira em torno de dois personagens, Witold e Beatriz.

Witold Walccyzkiecz, o polonês, é um pianista com mais de 70 anos, intérprete controverso de Chopin. “Seu Chopin não é nada romântico, pelo contrário, é um tanto austero”, descreve o narrador, quase um terceiro personagem, dono de uma graça que soa involuntária. “Toca piano com a alma, é inegável, mas a alma que o governa é a de Chopin, não a dele próprio.”

Beatriz é uma espanhola na casa dos 40 anos, de andar elegante, casada com um banqueiro e dedicada a obras beneficentes. Ela é, de acordo com o narrador, “uma pessoa inteligente, bem-educada, erudita, boa esposa e mãe”. Em geral, não é levada a sério e tem certa aversão à reflexão.

Os dois se conhecem de maneira fortuita, em um jantar oferecido ao polonês após o concerto beneficente organizado por Beatriz. Ele, imediatamente, se encanta por ela. A recíproca não é verdadeira. “Um velho apaixonado. Que tolice”, pensa a mulher, que se incomoda com os elogios exagerados dirigidos a si, com os dentes brancos demais de Witold e até com sua forma de tocar Chopin.

Mas Coetzee está mais interessado naquilo que move – ou mantém inertes – os personagens do que nos lances amorosos. Se em seu célebre romance Desonra (2000), o protagonista é um professor que cai em desgraça após se relacionar com uma aluna, aqui os arroubos afetivos não levam ao salto no precipício.

O Polonês. J.M. Coetzee. Tradução: José Rubens Siqueira. Companhia das Letras (144 págs., 79,90 reais)

Os ímpetos dos personagens, movidos por desejos pouco claros, são contrapostos ao longo do livro pela austeridade da narrativa. Coetzee não demonstra encanto por Witold ou Beatriz, e ainda menos um fascínio pela própria escrita. Se descreve a brisa que surge durante uma caminhada, o narrador logo emenda: “detalhes incidentais (…), sem importância”.

A ênfase, se há alguma, parece ser sobretudo na banalidade daquilo que se conta: trata-se de mais um relato das vidas submersas e dos segredos, pequenos ou grandes, que qualquer existência carrega. “Na memória”, afinal, como diz Witold, “não há tempo”.

O amor, aqui, é tanto um estado de espírito quanto a construção de uma fantasia que a linguagem não comporta. Sintomaticamente, ­Witold e Beatriz, falantes de polonês e espanhol, comunicam-se em inglês. “Ele está dizendo alguma coisa profunda ou simplesmente usando as palavras erradas?”, pergunta-se ela.

O Polonês é um livro preciso e desconcertante desde o começo até o fim, que é improvável e faz o todo crescer. •

Publicado na edição n° 1390 de CartaCapital, em 03 de dezembro de 2025.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘A banalidade da fantasia amorosa’

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