A arte de Beatriz Paiva leva ancestralidade e vivência negra e indígena ao Louvre

Em outubro, a artista paraense de 24 anos levará sua arte afetiva e carregada de história ao Louvre

Obras de Beatriz Paiva. Foto: Reprodução / Redes sociais

Obras de Beatriz Paiva. Foto: Reprodução / Redes sociais

Cultura,Diversidade

Autora de obras que expressam identidade, memória e afeto entre mulheres, a estudante Beatriz Paiva, de 24 anos, foi recusada pela maioria dos circuitos brasileiros de arte. Diante da negativa, A solução foi adentrar o circuito emergente de Belém, criado por artistas que em conjunto realizam exposições para mostrar suas obras.

A artista encontrou seu espaço nas ruas da capital paraense. “Apesar de não ser aceita nos editais, eu tenho a cidade como uma grande galeria a céu aberto, onde eu posso atingir todo tipo de pessoa”, celebra.

A arte urbana de Beatriz, expressada em lambe-lambes e papelão, retrata raízes mistas entre indígenas e a negritude que compõem o Brasil, mas não conquistou espaço em galerias nacionais.

Mulher preta, lésbica e nortista, Beatriz Paiva afirma que o meio artístico brasileiro é alimentado por um sistema embranquecedor e dominado por homens. “Negras, negros e pessoas LGBT não conseguem ter espaço.”

Em outubro de 2022, Beatriz Paiva romperá as fronteiras nacionais para levar sua arte afetiva e carregada de história ao Louvre, na França. Em conversa com CartaCapital, a artista detalha sua trajetória das ruas de Belém ao maior museu de arte do mundo.

Confira a seguir.

CartaCapital: Quem é Beatriz Paiva?

Beatriz Paiva: Olha, essa é uma pergunta difícil. Meu nome é Beatriz Paiva, tenho 24 anos, sou uma mulher negra, lésbica. Sou artista, sou do Norte, de Belém do Pará.

Faço licenciatura em artes visuais pela universidade do Amazonas e desde criança eu tenho um interesse enorme pelo desenho e ilustração, isso foi sendo gradualmente exercido durante minha adolescência, mas depois virou motivo de querer seguir profissão, no ramo das artes visuais. Foi quando entrei no curso e comecei a estudar tanto questões de arte quanto para ser educadora.

 

CC: Houve dificuldade para se manter no curso e realizar o sonho de estudar artes visuais?

BP: Sim, enfrentei dificuldades financeiras durante o curso. Faço universidade particular e, para quem é de uma família que a mãe é professora e criou dois filhos com a remuneração de educadora, é muito difícil. Passei um ano e meio ausente do curso, quando retornei para a universidade foi por causa do FIES, em 2019.

 

CC: Em quantos editais, mostras e circuitos você foi recusada antes de receber o convite para expor no Louvre?

BP: Não sei dizer ao certo, foram muitos. Quando eu falo em editais são do circuito artístico estadual e nacional.

Essa jornada atrás de editais começa logo no início da minha graduação, quando descubro que eu também posso expor nas galerias e ocupar estes espaços! Mas foi seguido de muita frustração, por justamente tentar participar, estar nestes espaços como artista e ser recusada seguidamente.

As exposições que eu venho participando durante este período que me entendo como artista são justamente do circuito emergente de arte de Belém, um circuito de artistas que são ‘novos artistas’ que juntos realizam exposições para mostrar seu trabalho.

A partir disso eu também entendo a arte urbana como um dispositivo para usar nas minhas produções, descubro que apesar de não ser aceita em grandes editais, eu tenho a cidade como uma grande galeria a céu aberto e que eu posso atingir todo tipo de público.

 

CC: Quais eram as justificativas dadas nas recusas?

BP: Não havia justificativa. Penso no quanto o sistema artístico é um sistema embranquecedor e dominado por homens. A maioria dos artistas presentes em galerias, nos grandes editais são homens brancos e héteros.

Mulheres negras, homens negros, pessoas LGBT, nortistas não conseguem ter espaço nesses grandes editais porque o sistema não quer que as pessoas adentrem esses espaços.

 

CC: Ser uma mulher negra, lésbica e nortista te define como artista? Como essas questões são expressas nas obras?

BP: Me define como artista e é meu posicionamento. É algo que está presente nas minhas produções.

Expresso falando sobre identidade, memória, raça e sexualidade. E essa sexualidade é voltada para o olhar de mulheres que se amam, essa identidade é voltada para minha ancestralidade negra e quanto uma família vinda do interior do estado, que também traz uma ancestralidade indígena. Essas questões me atravessam enquanto pessoa.

 

CC: Abordar ancestralidade negra e indígena conflita com o convite de expor no Louvre?

BP: Conflita. Apesar do convite e da felicidade de poder expor em um espaço tão segregador, eu consigo compreender que a França em si é um país colonizador e as obras que estão lá, os corpos negros e indígenas representados estão sempre em uma posição de subalternidade, sem representatividade.

Não sei se será possível, porque é algo muito presente na arte, mas espero fazer com que o meu trabalho chegue em olhares internacionais e seja reconhecido para que, de certa forma, eu possa levar minha memória ancestral para esse lugar que apagou nossa história com seus instrumentos de colonização.

 

 

CC: Como você define ou explica suas criações?

BP: O propósito era expressar o que eu sentia. Era uma adolescente com muita dificuldade de falar sobre meus sentimentos, minhas questões, meus pensamentos. A arte em si expressou todo esse turbilhão que foi minha adolescência, hoje dentro da universidade e entendo outras vivências comecei a compreender que a arte pode vir como denúncia, onde posso falar sobre questões que me atravessam, assim como as que atravessam meus iguais.

 

CC: Por que a escolha do papelão como material para a produção da sua arte?

BP: Telas brancas são muito caras. Como citei, essa dificuldade financeira tornou inacessível estar sempre comprando telas. O que eu busquei foi estar estudando mesmo usando o papel como material, usando o lambe-lambe.

Do ano passado para cá comecei a reformular esse ‘suporte’ para o papelão pela acessibilidade. Ele também vem como uma quebra, não especificando que o que eu preciso para ser artista é seguir padrões elitistas, o sentido está por trás do meu trabalho, não da tela. O papelão é uma verticalização dessa arte, tornando-a acessível.

 

CC: Como o convite para expor no Louvre chegou até você? Todos os detalhes da viagem e exposição já foram acertados?

BP: Fui convidada pela empresa ‘vivemos arte’, que tem a direção da Lisandra Miguel, eles são uma empresa de agenciamento de artistas nacionais e internacionais e participam de uma exposição todo ano no Louvre.

Ela entrou em contato comigo através do Instagram, onde conheceu meu trabalho. Fizemos uma entrevista e eu fui convidada a estar junto na exposição em 2022. No início pensei que fosse mentira, mas depois veio um grande sentimento de euforia. Não acreditava que isso realmente seria possível, é um sonho, não conseguia acreditar.

Já está tudo definido, mas não posso falar muito sobre isso. Soltarei aos poucos as novidades nas minhas redes sociais. Vem coisa boa por aí, mas no momento eu não posso entrar em muitos detalhes, é uma proposta muito importante que me ajudará a concretizar esse sonho e estar lá ano que vem.

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Estagiário de CartaCapital

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